{"id":33759,"date":"2025-01-17T06:02:14","date_gmt":"2025-01-17T09:02:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.farcomto.org\/como-bad-bunny-usou-seu-novo-disco-para-defender-a-historia-e-a-cultura-de-porto-rico\/"},"modified":"2025-01-17T06:02:14","modified_gmt":"2025-01-17T09:02:14","slug":"como-bad-bunny-usou-seu-novo-disco-para-defender-a-historia-e-a-cultura-de-porto-rico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/como-bad-bunny-usou-seu-novo-disco-para-defender-a-historia-e-a-cultura-de-porto-rico\/","title":{"rendered":"Como Bad Bunny usou seu novo disco para defender a hist\u00f3ria e a cultura de Porto Rico"},"content":{"rendered":"<div>\n<div>\n<br \/>     \u00c1lbum dominou as paradas e est\u00e1 ganhando espa\u00e7o at\u00e9 no Brasil, onde o cantor nunca teve o mesmo sucesso que l\u00e1 fora. Em outubro de 2024, o comediante Tony Hinchcliffe foi not\u00edcia ap\u00f3s uma piada no com\u00edcio de Donald Trump, em Nova York. \u201cH\u00e1 literalmente uma ilha flutuante de lixo no meio do oceano agora mesmo. Acho que se chama Porto Rico\u201d, disse o humorista.<br \/>\nO epis\u00f3dio rendeu muita repres\u00e1lia, principalmente de artistas porto-riquenhos. Um deles foi Bad Bunny, o cantor latino mais ouvido do mundo \u2013 que logo publicou um mini-document\u00e1rio exaltando Porto Rico no Instagram.<br \/>\nNingu\u00e9m sabia, mas j\u00e1 naquela \u00e9poca, o cantor porto-riquenho j\u00e1 preparava \u201cDeb\u00ed Tirar M\u00e1s Fotos\u201d, \u00e1lbum que considera sua \u201ccarta de amor\u201d \u00e0 sua terra natal. O \u00e1lbum foi lan\u00e7ado no dia 5 de janeiro de 2025, semanas antes da posse de Trump como presidente dos EUA (e consequentemente, de Porto Rico). O disco dominou as paradas e est\u00e1 ganhando espa\u00e7o at\u00e9 no Brasil, onde o cantor nunca teve o mesmo sucesso que l\u00e1 fora.<br \/>\nPor esses e outros motivos, \u201cDeb\u00ed Tirar M\u00e1s Fotos\u201d \u00e9 inevitavelmente pol\u00edtico. Cantado inteiramente em espanhol, com g\u00edrias locais, o \u00e1lbum passeia por g\u00eaneros musicais tipicamente porto-riquenhos e sentimentos universais: amor, saudade e fam\u00edlia. \u00c9 um disco que raramente faz concess\u00f5es para se traduzir aos estrangeiros e, mesmo assim, vem conquistando o mundo. Entenda como \u201cDeb\u00ed Tirar M\u00e1s Fotos\u201d se tornou um manifesto pela hist\u00f3ria e a cultura de Porto Rico:<br \/>\nBad Bunny em fotos do \u00e1lbum \u2018Deb\u00ed Tirar M\u00e1s Fotos\u2019<br \/>\nDivulga\u00e7\u00e3o<br \/>\nUm disco sobre mem\u00f3ria, fam\u00edlia e hist\u00f3ria<br \/>\n\u201cDeb\u00ed Tirar M\u00e1s Fotos\u201d retoma detalhes \u201cordin\u00e1rios\u201d da vida do cantor, desenhando o que define Porto Rico para ele: os pequenos objetos, sons, g\u00edrias e fotografias. Isso aparece j\u00e1 na capa, que mostra duas cadeiras de pl\u00e1stico em uma esp\u00e9cie de quintal.<br \/>\nCapa de \u2018Debi Tirar M\u00e1s Fotos\u2019<br \/>\nReprodu\u00e7\u00e3o<br \/>\nO pr\u00f3prio t\u00edtulo (\u201cdevia tirar mais fotos\u201d), que a princ\u00edpio \u00e9 uma frase comum, tamb\u00e9m fala sobre saudade e mem\u00f3ria. Afinal, fotos s\u00e3o hist\u00f3rias, registros de vidas e fam\u00edlias atrav\u00e9s das gera\u00e7\u00f5es; em muitos casos, a \u00fanica maneira de revisitar um passado ao qual n\u00e3o tivemos acesso.<br \/>\n\u201cDevia tirar mais fotos\u201d diz sobre a vontade de manter registros do que \u00e9 caro ao cantor; porque sem registros, torna-se muito mais dif\u00edcil preservar uma cultura.<br \/>\nEsse foi um dos pontos mais fortes do disco para muitas pessoas, inclusive brasileiros. Ao som da faixa-t\u00edtulo, muitos come\u00e7aram a compartilhar, no TikTok, fotos com amigos, namorados e familiares que j\u00e1 se foram. \u201cEu deveria ter tirado mais fotos de quando eu tinha voc\u00ea \/ Eu deveria ter te dado mais beijos e abra\u00e7os, quantas vezes eu pudesse\u201d, diz a can\u00e7\u00e3o.<br \/>\nTrend no TikTok usa \u2018Dtmf\u2019 para mostrar imagens com familiares<br \/>\nReprodu\u00e7\u00e3o\/TikTok<br \/>\nOs sons de Porto Rico<br \/>\nTecnicamente, Porto Rico n\u00e3o \u00e9 um pa\u00eds \u2013 apesar do cantor frequentemente usar esse termo. A ilha caribenha foi colonizada por espanh\u00f3is e hoje \u00e9 de posse dos EUA, ainda que tenha pouca identifica\u00e7\u00e3o com o pa\u00eds americano. Por isso, Bad Bunny usa o disco para falar de sua terra n\u00e3o pela geografia, mas pela rica cultura que a formou.<br \/>\n\u201cDeb\u00ed Tirar M\u00e1s Fotos\u201d faz um passeio musical por Porto Rico e todos os convidados, incluindo os instrumentistas e corais, s\u00e3o da ilha. Esse n\u00e3o \u00e9 um gesto comum, especialmente vindo de um artista com recurso para convidar m\u00fasicos de qualquer parte do mundo.<br \/>\n\u201c[Quando estava em Los Angeles] comecei a ouvir muitas m\u00fasicas que me fizeram sentir perto de Porto Rico. Todas as participa\u00e7\u00f5es do \u00e1lbum, esses s\u00e3o artistas que eu ouvia quando estava longe. \u00c9 especial, porque voc\u00ea come\u00e7a a se sentir perto de sua fam\u00edlia e de casa atrav\u00e9s da m\u00fasica. Esse era um dos prop\u00f3sitos desse projeto\u201d, disse o artista ao \u201cNew York Times\u201d.<br \/>\nBad Bunny dan\u00e7a salsa no clipe de \u2018Baile Inolvidable\u2019<br \/>\nReprodu\u00e7\u00e3o\/YouTube<br \/>\nNo disco, h\u00e1 artistas emergentes da cena porto-riquenha, como RaiNao e Chuwi; jovens instrumentistas da Escola Libre de M\u00fasica, de Porto Rico; e trechos de sucessos antigos da ilha.<br \/>\nO \u00e1lbum tamb\u00e9m mescla g\u00eaneros populares de Porto Rico. \u00c9 o caso da bomba e a plena, estilos tradicionais de heran\u00e7a africana, que nasceram de pessoas escravizadas e trabalhadores nos s\u00e9culos 18 e 19. Ambos s\u00e3o dan\u00e7antes e baseados na percuss\u00e3o. E claro, Bad Bunny n\u00e3o exclui o reggaeton, estilo que j\u00e1 tinha fortes ra\u00edzes na ilha antes de conquistar o resto do mundo.<br \/>\nDe Nova York a San Juan<br \/>\nPara levar ouvintes at\u00e9 Porto Rico, o disco come\u00e7a em Nova York. A primeira faixa, \u201cNuevayol\u201d (com um sample de \u201cUn Verano en Nueva York\u201d, do grupo El Gran Combo) relembra a conex\u00e3o entre a ilha caribenha e a cidade americana, considerada o centro cultural e demogr\u00e1fico mais importante para os porto-riquenhos fora de San Juan. Afinal, at\u00e9 a bandeira de Porto Rico foi feita por l\u00e1.<br \/>\nA partir disso, a trajet\u00f3ria do disco caminha rumo ao territ\u00f3rio latino, passando por m\u00fasicas como o reggaeton \u201cVoy a Llevarte pa PR\u201d (vou te levar a Porto Rico), a salsa \u201cBaile Inolvidable\u201d, e a plena \u201cCaf\u00e9 con Ron\u201d.<br \/>\nApesar de ser uma homenagem, \u201cDeb\u00ed Tirar M\u00e1s Fotos\u201d n\u00e3o \u00e9 solene ou s\u00f3brio demais, e foge de baladas dram\u00e1ticas. Muitas letras versam sobre festa, dan\u00e7a e sensualidade \u2013 o \u201cbailar\u201d e o \u201cperrear\u201d, que s\u00e3o elementos essenciais da cultura porto-riquenha. De forma similar aos bailes funk, por exemplo, Bad Bunny coloca a celebra\u00e7\u00e3o como resist\u00eancia e reafirma\u00e7\u00e3o de identidade.<br \/>\nBad Bunny dan\u00e7a salsa no clipe de \u2018Baile Inolvidable\u2019<br \/>\nReprodu\u00e7\u00e3o\/YouTube<br \/>\nMas isso n\u00e3o exime o cantor de abordar diretamente alguns t\u00f3picos pol\u00edticos. Em \u201cLo Que Le Pas\u00f3 en Hawaii\u201d, ele usa o exemplo do Hava\u00ed: territ\u00f3rio que sofreu com a proibi\u00e7\u00e3o de sua l\u00edngua local no s\u00e9culo 19, e a anexa\u00e7\u00e3o aos Estados Unidos em 1898 (mesmo ano em que Porto Rico se tornou posse dos EUA).<br \/>\n\u201cQuerem tirar meu rio e tamb\u00e9m minha praia \/ Querem minha quebrada e que a vov\u00f3 v\u00e1 embora \/ N\u00e3o, n\u00e3o solte a bandeira nem esque\u00e7a o le-lo-lai [canto do trovador portorriquenho] \/ Porque n\u00e3o quero que fa\u00e7am com voc\u00ea o que aconteceu com o Hava\u00ed\u201d, canta Bad Bunny.<br \/>\nO projeto continua<br \/>\nCom o \u00e1lbum, Bad Bunny tamb\u00e9m lan\u00e7ou um curta-metragem. O v\u00eddeo acompanha um senhor que representa o cantor mais velho (interpretado por Jacobo Morales, um dos cineastas mais importantes de Porto Rico) e um sapo-coqui (esp\u00e9cie s\u00edmbolo de Porto Rico, em perigo de extin\u00e7\u00e3o devido \u00e0 introdu\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies invasoras).<br \/>\nO curta visualiza uma domina\u00e7\u00e3o completa da cultura americana sobre a ilha, ressaltando como a gastronomia, a m\u00fasica, a dan\u00e7a e a l\u00edngua s\u00e3o importantes para a identidade de um povo. No fim, os personagens concluem que mesmo um carro de som tocando reggaeton pode ser um ato de resist\u00eancia.<br \/>\nCurta do disco \u2018Deb\u00ed Tirar M\u00e1s Fotos\u2019<br \/>\nReprodu\u00e7\u00e3o\/YouTube<br \/>\nAl\u00e9m disso, no YouTube, os v\u00eddeos das m\u00fasicas acompanham explica\u00e7\u00f5es sobre a hist\u00f3ria porto-riquenha. Os textos, todos em espanhol, s\u00e3o escritos por J. Men\u00e9ndez-Badillo, um historiador especializado em cultura latina.<br \/>\nSegundo Men\u00e9ndez-Badillo falou ao \u201cLA Times\u201d, Bad Bunny estava \u201c\u200arealmente interessado em ter esse tipo de componente hist\u00f3rico, para que as pessoas n\u00e3o estivessem apenas ouvindo as m\u00fasicas no YouTube, mas aprendendo hist\u00f3ria enquanto o faziam\u201d. Mas de acordo com o historiador, apesar da proposta did\u00e1tica, a inten\u00e7\u00e3o do m\u00fasico \u201cn\u00e3o era atender ao p\u00fablico externo\u201d.<br \/>\nAfinal, em \u201cDeb\u00ed Tirar M\u00e1s Fotos\u201d, Bad Bunny n\u00e3o tem interesse em traduzir sua cultura \u201cpara ingl\u00eas ver\u201d. O projeto \u00e9 um caminho arriscado para um artista em seu auge \u2013 e, mesmo assim, vem rendendo at\u00e9 frutos comerciais para o cantor. Com o disco, o cantor se firma n\u00e3o s\u00f3 por seus n\u00fameros, como por sua mensagem, lembrando que h\u00e1 espa\u00e7o para ser pol\u00edtico na m\u00fasica pop.<br \/>\n\u201cS\u00e3o 130 anos fazendo parte dos EUA e ainda somos porto-riquenhos. Continuamos com a nossa cultura, nossa forma de falar. Eu realmente me sinto orgulhoso de minha gente, do meu pa\u00eds, da minha cultura e como somos resistentes. As pessoas que fizeram isso antes, as pessoas que inspiram a nova gera\u00e7\u00e3o a continuar lutando, protegendo e preservando quem somos \u2013 como uma comunidade, como uma cultura, como tudo\u201d, disse o cantor.<\/div>\n<p>Fonte: <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/pop-arte\/musica\/noticia\/2025\/01\/17\/como-bad-bunny-usou-seu-novo-disco-para-defender-a-historia-e-a-cultura-de-porto-rico.ghtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">G1 Entretenimento<\/a><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c1lbum dominou as paradas e est\u00e1 ganhando espa\u00e7o at\u00e9 no Brasil, onde o cantor nunca teve o mesmo sucesso que l\u00e1 fora. 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