{"id":35254,"date":"2025-02-14T06:04:35","date_gmt":"2025-02-14T09:04:35","guid":{"rendered":"https:\/\/www.farcomto.org\/central-do-brasil-os-bastidores-do-filme-brasileiro-que-fez-historia-no-oscar-antes-de-ainda-estou-aqui\/"},"modified":"2025-02-14T06:04:35","modified_gmt":"2025-02-14T09:04:35","slug":"central-do-brasil-os-bastidores-do-filme-brasileiro-que-fez-historia-no-oscar-antes-de-ainda-estou-aqui","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/central-do-brasil-os-bastidores-do-filme-brasileiro-que-fez-historia-no-oscar-antes-de-ainda-estou-aqui\/","title":{"rendered":"\u2018Central do Brasil\u2019: os bastidores do filme brasileiro que fez hist\u00f3ria no Oscar antes de \u2018Ainda Estou Aqui\u2019"},"content":{"rendered":"<div>\n<div>\n<br \/>     O longa-metragem brasileiro concorreu em duas categorias: Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Atriz, com Fernanda Montenegro. Vin\u00edcius de Oliveira e Fernanda Montenegro em cena de \u2018Central do Brasil\u2019<br \/>\nDivulga\u00e7\u00e3o<br \/>\nNo dia 21 de mar\u00e7o de 1999, Aline Sc\u00e1tola lembra de ter lutado contra o sono para acompanhar a cerim\u00f4nia do Oscar. Ela era uma menina de 11 anos em Tup\u00e3, cidade de 60 mil habitantes no interior de S\u00e3o Paulo, e estava ansiosa com a possibilidade de o filme \u201cCentral do Brasil\u201d levar uma estatueta.<br \/>\nO longa-metragem brasileiro concorria em duas categorias, Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Atriz, com Fernanda Montenegro. \u201cLembro que o filme era o tema das conversas em todo lugar, no jornal, na televis\u00e3o, na escola\u201d, diz hoje a tradutora, aos 37 anos. \u201cFoi um acontecimento.\u201d<br \/>\nDistante de Tup\u00e3, em Los Angeles, outra crian\u00e7a tamb\u00e9m lutava contra o sono. Vin\u00edcius de Oliveira, com 13 anos na \u00e9poca, era o protagonista do filme e acompanhou uma s\u00e9rie de eventos para a campanha de divulga\u00e7\u00e3o de \u201cCentral do Brasil\u201d, al\u00e9m da cerim\u00f4nia de premia\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u201cFizemos viagens nos Estados Unidos para mostrar o filme em alguns estados, eu participava de alguns jantares. Mas eu jantava e dormia na mesa. Era sempre bastante tarde, e as pessoas estavam falando em ingl\u00eas e de assuntos que eu n\u00e3o entendia\u201d, relembra.<br \/>\n\u201cEu n\u00e3o tinha percep\u00e7\u00e3o ainda de que o Oscar era uma coisa muito grande para o Brasil. Que era algo que a gente almejava e, que se ganhasse, seria como se fosse final de Copa do Mundo. N\u00e3o tinha essa no\u00e7\u00e3o ainda.\u201d<br \/>\nAt\u00e9 aquele momento, \u201cCentral do Brasil\u201d havia percorrido um caminho de ineditismos, com sucesso de p\u00fablico e de cr\u00edtica.<br \/>\nA obra levou milh\u00f5es de brasileiros ao cinema e venceu, algo in\u00e9dito para o cinema brasileiro, o Urso de Ouro na 48\u00aa edi\u00e7\u00e3o do Festival Internacional de Cinema de Berlim e o Globo de Ouro, como Melhor Filme de L\u00edngua Estrangeira.<br \/>\nFernanda Montenegro, Vinicius de Oliveira e Walter Salles viajaram pelos Estados Unidos na temporada de premia\u00e7\u00e3o em 1999 para divulgar Central do Brasil<br \/>\nGetty Images via BBC<br \/>\nDirigido por Walter Salles, o filme ainda ressoa entre espectadores e cr\u00edticos mais de 25 anos depois de seu lan\u00e7amento mais emblem\u00e1ticas do pa\u00eds.<br \/>\nPor tr\u00e1s das telas, os bastidores da produ\u00e7\u00e3o foram cheios de desafios em um momento que marcava a retomada do cinema brasileiro, ap\u00f3s o governo de Fernando Collor (1990-1992) \u2014 que estancou a produ\u00e7\u00e3o de filmes brasileiros com o fechamento da Embrafilme, a Funda\u00e7\u00e3o do Cinema Brasileiro e o Concine, principais \u00f3rg\u00e3os de fomento e fiscaliza\u00e7\u00e3o do setor.<br \/>\nNovamente, no dia 2 de mar\u00e7o, o pa\u00eds se unifica no mesmo sentimento de 1999, agora em torno do filme \u201cAinda Estou Aqui\u201d, tamb\u00e9m dirigido por Salles e que disputa tr\u00eas categorias no Oscar, com chances de levar uma estatueta de Melhor Filme Internacional, Melhor Filme e Melhor Atriz.<br \/>\nEm entrevista \u00e0 BBC News Brasil, Walter Salles afirma que, passados 25 anos de \u201cCentral do Brasil\u201d, mant\u00e9m o mesmo desejo de narrar uma hist\u00f3ria em que a trajet\u00f3ria dos personagens se confunde com a trajet\u00f3ria coletiva do pa\u00eds.<br \/>\n\u201cO que muda com a maturidade \u00e9 uma certa percep\u00e7\u00e3o de que \u00e9 poss\u00edvel dizer mais com menos. Com atua\u00e7\u00f5es mais contidas, com uma dire\u00e7\u00e3o que n\u00e3o deseja ser percebida. De alguma forma, isso talvez permita que a dist\u00e2ncia entre o espectador e os personagens diminua, ou mesmo deixe de existir.\u201d<br \/>\nO in\u00edcio do projeto<br \/>\n\u201cCentral do Brasil\u201d foi o terceiro longa-metragem de Salles, ap\u00f3s reconhecimento por \u201cTerra Estrangeira\u201d.<br \/>\n\u201cAcordei um dia com a ideia do filme e a arquitetura b\u00e1sica. \u00danica vez que isso aconteceu comigo, ali\u00e1s. Escrevi umas vinte p\u00e1ginas aquele dia com uma arquitetura de in\u00edcio, meio e fim\u201d, relatou o diretor durante uma aula magna a estudantes da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) em 2013.<br \/>\nO enredo acompanha a hist\u00f3ria de Dora, uma ex-professora amargurada que escreve cartas para analfabetos na famosa esta\u00e7\u00e3o de trem no Rio de Janeiro.<br \/>\nUm dia, Josu\u00e9, de 9 anos, fica sozinho quando sua m\u00e3e morre em um acidente de \u00f4nibus. Dora reluta em cuidar do menino, mas viaja com ele pelo interior do Nordeste em busca de seu pai, que ele nunca conheceu.<br \/>\nO filme foi visto como uma met\u00e1fora para aquele per\u00edodo pol\u00edtico do pa\u00eds. \u201c\u2018Central do Brasil\u2019 \u00e9 o filme que melhor exprimiu o desejo de regenera\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, surgido com o Plano Real e o fim da infla\u00e7\u00e3o. A hist\u00f3ria \u00e9 a de uma corrupta que se regenera \u00e0 medida que visita o pa\u00eds, ainda que a contragosto\u201d, escreveu o cr\u00edtico de cinema In\u00e1cio Ara\u00fajo na \u201cFolha de S. Paulo\u201d.<br \/>\nAntes mesmo de finalizado, o roteiro ganhou o pr\u00eamio Sundance, uma premia\u00e7\u00e3o de fomento.<br \/>\nFilme foi visto como uma met\u00e1fora pol\u00edtica do pa\u00eds<br \/>\nReprodu\u00e7\u00e3o<br \/>\nBusca por um protagonista real<br \/>\nDe um casting improv\u00e1vel a uma log\u00edstica complexa de filmagens, a equipe enfrentou dificuldades para transformar a jornada de Dora e Josu\u00e9 em um retrato realista do Brasil.<br \/>\nUm dos maiores desafios da produ\u00e7\u00e3o foi encontrar o ator que daria vida a Josu\u00e9. Durante meses, a equipe percorreu o Brasil em busca de um garoto que trouxesse autenticidade ao papel.<br \/>\n\u201cFoi quase um ano s\u00f3 para o casting se consolidar, sobretudo por causa da crian\u00e7a que iria interpretar o Josu\u00e9. Foram mais de mil testes para conseguir achar o Vin\u00edcius, que daria vida ao personagem\u201d, contou Salles aos estudantes da USP.<br \/>\nA produtora executiva Elisa Tolomelli trabalhou na produ\u00e7\u00e3o de \u201cCentral do Brasil\u201d.<br \/>\n\u201cEu era diretora comercial da RioFilme e lancei \u2018Terra Estrangeira\u2019. Foi a\u00ed que conheci o Walter. Depois, ele me mostrou o roteiro e pediu para eu produzir. Foi o meu primeiro filme como produtora executiva. J\u00e1 tinha dirigido, distribu\u00eddo, produzido, mas essa foi uma experi\u00eancia muito especial\u201d, relembrou \u00e0 BBC News Brasil.<br \/>\nEla conta que foram mais de 1,5 mil testes com diversos atores em todo o Brasil at\u00e9 encontrar Vin\u00edcius de Oliveira que, na \u00e9poca, engraxava sapatos no aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro.<br \/>\n\u201cPassamos seis meses procurando. No final, t\u00ednhamos quatro meninos pr\u00e9-selecionados, mas o Walter n\u00e3o estava convencido. Ele ia filmar com um deles porque o tempo estava acabando. Mas, no aeroporto, encontrou o Vin\u00edcius e perguntou se ele queria fazer um teste\u201d, diz Tolomelli.<br \/>\nO encontro com Salles mudou a vida do menino.<br \/>\n\u201cEle me fez um primeiro convite para o teste e, a partir da\u00ed, come\u00e7ou um processo de prepara\u00e7\u00e3o, faltava mais ou menos um m\u00eas para o in\u00edcio das filmagens. Como ningu\u00e9m se conhecia, tudo aquilo era novo para mim\u201d, conta o ator, hoje com 39 anos.<br \/>\n\u201cEu n\u00e3o tinha a menor no\u00e7\u00e3o de nada. Para falar a verdade, eu nem sabia direito o que era cinema. Nunca tinha ido a uma sala de cinema, nunca tinha vivido aquela experi\u00eancia de estar num lugar escuro assistindo a um filme na tela grande. Ali\u00e1s, mesmo n\u00f3s, que est\u00e1vamos fazendo o filme, n\u00e3o t\u00ednhamos no\u00e7\u00e3o do impacto que ele teria.\u201d<br \/>\nO impacto da escolha foi imediato. Em entrevista \u00e0 \u201cFolha de S. Paulo\u201d em junho de 1998, Salles afirmou que o encontro talvez tenha sido \u201csorte ou intui\u00e7\u00e3o\u201d. \u201cSe tiv\u00e9ssemos parado no meio do caminho, n\u00e3o ter\u00edamos encontrado Vin\u00edcius \u2013 e vice-versa\u201d, afirmou.<br \/>\n\u201cEstava \u00e0 procura de um menino que soubesse o que era a luta pela sobreviv\u00eancia, mas que n\u00e3o tivesse perdido a inoc\u00eancia neste processo.\u201d<br \/>\nFilmagens e desafios log\u00edsticos<br \/>\nRodado em diversas loca\u00e7\u00f5es pelo Brasil, \u201cCentral do Brasil\u201d exigiu uma log\u00edstica complexa. As filmagens, envolvendo um set de filmagem com cerca de 80 profissionais, aconteceram em tr\u00eas estados: Rio de Janeiro, no interior da Bahia e no sert\u00e3o de Pernambuco.<br \/>\n\u201cFazer um filme \u00e9 um processo. \u2018Central do Brasil\u2019 foi dif\u00edcil em termos de estrutura. Viajei quase mil quil\u00f4metros com o Walter e a diretora de arte, Carla Caff\u00e9, procurando loca\u00e7\u00f5es\u201d, conta Tolomelli.<br \/>\nWellington Pinto, que trabalhou na coordena\u00e7\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o do filme, conta que o processo de filmagem foi repleto de desafios, inclusive a capta\u00e7\u00e3o de imagens em loca\u00e7\u00f5es movimentadas, como a pr\u00f3pria esta\u00e7\u00e3o Central do Brasil, no Rio de Janeiro.<br \/>\n\u201cFilmar em um local t\u00e3o ca\u00f3tico exigiu um planejamento meticuloso. T\u00ednhamos que trabalhar com hor\u00e1rios estrat\u00e9gicos e manter a seguran\u00e7a da equipe e dos atores\u201d, relembra o produtor.<br \/>\nA cena inicial do filme, na movimentada esta\u00e7\u00e3o de trem, tamb\u00e9m demandou um esfor\u00e7o coletivo, lembra Tolomelli.<br \/>\n\u201cSentamos eu e o Walter l\u00e1 na Central v\u00e1rias vezes, em hor\u00e1rios diferentes, para entender como funcionava. N\u00e3o pod\u00edamos filmar no dia a dia, porque uma hora o trem vinha cheio, outra vazio. Ent\u00e3o, organizamos toda a movimenta\u00e7\u00e3o. Aquela multid\u00e3o na cena? Tudo figurantes nossos, 450 pessoas\u201d, explica a produtora.<br \/>\nVinicius de Oliveira lembra que ficava impressionado com a estrutura do set de filmagem. \u201cToda aquela movimenta\u00e7\u00e3o me fascinava. Eu gostava de observar o andamento das pessoas, ver o que estava acontecendo\u201d, conta.<br \/>\nEle revela que, ao contr\u00e1rio de muitos atores, n\u00e3o ficava no camarim estudando o texto ou concentrado para as cenas. \u201cNa verdade, eu nem tinha roteiro. Me davam as falas na hora, e eu falava\u201d, explica.<br \/>\nSua primeira experi\u00eancia com a atua\u00e7\u00e3o, com a veterana Fernanda Montenegro, acabou acontecendo naturalmente.<br \/>\n\u201c\u00c0s vezes, eu n\u00e3o conseguia entregar o que precisava, e o Walter tinha que improvisar para me ajudar\u201d, admite.<br \/>\nUma das cenas mais marcantes para ele foi logo no in\u00edcio do filme, quando seu personagem volta \u00e0 \u201cCentral do Brasil\u201d ap\u00f3s a morte da m\u00e3e para pedir que Dora escreva uma carta para o pai. \u201cA gente sentou para fazer essa cena perto da hora do almo\u00e7o, mas eu n\u00e3o conseguia me emocionar. N\u00e3o estava saindo\u201d, lembra.<br \/>\nPercebendo a dificuldade, Walter Salles interviu. \u201cEle olhou para mim e perguntou: \u2018Voc\u00ea t\u00e1 com fome, cara?\u2019. E eu falei: \u2018T\u00f4&#8217;\u201d, conta Vinicius. A solu\u00e7\u00e3o foi simples: o diretor decidiu interromper as grava\u00e7\u00f5es para o almo\u00e7o. \u201cO problema era esse. Eu tava morrendo de fome e nem percebia que era isso que estava me atrapalhando\u201d, diz, rindo.<br \/>\n\u201cO Walter tem um rigor impressionante, uma cobran\u00e7a muito grande consigo mesmo. Ele s\u00f3 sai para filmar quando sente que tudo est\u00e1 pronto\u201d, analisa. \u201cForam aprendizados que levo at\u00e9 hoje para o meu trabalho.\u201d<br \/>\nRepercuss\u00e3o e sucesso internacional<br \/>\nAntes de estrear no Brasil no dia 3 de abril de 1998, o filme foi exibido em festivais da Europa e Estados Unidos, colecionando elogios que serviram de porta de entrada para as premia\u00e7\u00f5es mundiais.<br \/>\nAp\u00f3s sua estreia no Festival de Sundance, em janeiro de 1998, Central do Brasil come\u00e7ou a ganhar reconhecimento internacional.<br \/>\nO grande momento veio no Festival de Berlim, onde o filme recebeu o Urso de Ouro de Melhor Filme e Fernanda Montenegro foi consagrada com o Urso de Prata de Melhor Atriz. A partir da\u00ed, a corrida ao Oscar come\u00e7ou a se desenhar.<br \/>\n\u201cQuando o filme foi exibido em Sundance, teve 10 minutos de aplausos. E depois veio Berlim, onde a Fernanda ganhou o Urso de Prata. Foi uma avalanche. Mas, naquela \u00e9poca, n\u00e3o havia internet, redes sociais, campanhas massivas. O filme foi crescendo no boca a boca\u201d, relembra Tolomelli.<br \/>\nJ\u00e1 chamado de hit de Sundance e do Festival de Berlim, o filme chamou a aten\u00e7\u00e3o de cr\u00edticos em todo o mundo.<br \/>\nEm fevereiro de 1998, Todd McCarthy escreveu na \u201cVariety\u201d que o filme, \u201cum sens\u00edvel filme de arte \u00e0 moda antiga\u201d, tinha potencial para \u201catrair um p\u00fablico seleto e exigente internacionalmente\u201d.<br \/>\nPara ele, a obra transmite uma mensagem \u201ccautelosamente otimista\u201d sobre as possibilidades para o futuro do Brasil, sugerindo que as profundas cicatrizes deixadas pelos problemas sociais do passado recente poderiam ser superadas por uma uni\u00e3o criativa entre o Brasil antigo e o novo.<br \/>\nEle fez cr\u00edticas ao \u201cestilo rigoroso\u201d de Salles, que, na sua vis\u00e3o, \u201cn\u00e3o permite que nenhuma espontaneidade se infiltre em seus quadros primorosamente compostos e em suas cenas dramaticamente concentradas\u201d, mas rasgou elogios \u00e0 performance de Fernanda Montenegro.<br \/>\n\u201cUma das principais atrizes do teatro e do cinema brasileiro h\u00e1 d\u00e9cadas, carrega o filme de forma extraordin\u00e1ria, retratando uma for\u00e7a bruta que aos poucos se desgasta at\u00e9 um estado de vulnerabilidade exposta.\u201d<br \/>\nJanet Maslin, cr\u00edtica do \u201cThe New York Times\u201d, tamb\u00e9m elogiou a atua\u00e7\u00e3o de Montenegro, a que ela chamou de \u201cbrilhante\u201d. \u201cSua atua\u00e7\u00e3o aqui \u00e9 incrivelmente bem dosada, \u00e0 medida que Dora come\u00e7a a se redescobrir de maneiras que jamais imaginaria.\u201d<br \/>\nA jornalista americana disse que o verdadeiro encanto do filme de Salles est\u00e1 na forma como a hist\u00f3ria \u00e9 contada.<br \/>\n\u201cA experi\u00eancia de Salles como documentarista tamb\u00e9m confere ao filme uma forte conex\u00e3o com a paisagem rural empobrecida do Brasil, \u00e0 medida que os protagonistas embarcam na estrada\u201d, escreveu em novembro de 1998.<br \/>\n\u201c\u00c9 a elegante conten\u00e7\u00e3o do cineasta que faz com que esses sentimentos sejam t\u00e3o profundamente sentidos. Salles dirige de forma simples e atenta, com um olhar que parece penetrar todos os personagens que Dora e Josu\u00e9 encontram pelo caminho.\u201d<br \/>\nRita Kempley, do \u201cThe Washington Post\u201d, chamou \u201cCentral do Brasil\u201d de \u201cum road movie brasileiro profundamente comovente\u201d,<br \/>\nJ\u00e1 a atua\u00e7\u00e3o de Fernanda Montenegro foi chamada de \u201cimensamente expressiva\u201d e \u201cternamente emocionante\u201d. \u201cEla pode ter passado 50 anos nos palcos, mas \u00e9 uma atriz que encara a c\u00e2mera com nuances e sutileza.\u201d<br \/>\nNo Brasil, a produ\u00e7\u00e3o conquistou p\u00fablico semana a semana. Quando foi lan\u00e7ado, metade dessas salas estava com \u201cTitanic\u201d em cartaz. Na semana seguinte, mais 250 come\u00e7aram a exibir \u201cO Homem da M\u00e1scara de Ferro\u201d. Ou seja, 80% das salas brasileiras estavam ocupadas por dois filmes americanos.<br \/>\nMas em seu primeiro fim de semana em cartaz, \u201cCentral do Brasil\u201d foi visto por cerca de 67 mil espectadores em todo o pa\u00eds. Ao entrar na 11\u00aa semana de exibi\u00e7\u00e3o, alcan\u00e7ou 1 milh\u00e3o de ingressos vendidos.<br \/>\nNa entrevista \u00e0 \u201cFolha\u201d em 1998, Salles disse que n\u00e3o esperava o sucesso de bilheteria do filme, que bateu 1 milh\u00e3o de espectadores em dois meses.<br \/>\n\u201cAntes de \u2018Central do Brasil\u2019 ser filmado, cansei de ouvir que o p\u00fablico brasileiro n\u00e3o queria ver sua pr\u00f3pria imagem no cinema, como se aquela refletida pela televis\u00e3o fosse suficiente, representativa ou plural. Bem, foi exatamente o oposto que acabou acontecendo.\u201d<br \/>\nInjusti\u00e7a no Oscar?<br \/>\nFernanda Montenegro foi elogiada internacionalmente por sua performance no Oscar<br \/>\nGetty Images via BBC<br \/>\nO Brasil j\u00e1 havia sido indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro algumas vezes, mas \u201cCentral do Brasil\u201d foi a primeira produ\u00e7\u00e3o nacional que teve uma campanha efetiva para a premia\u00e7\u00e3o. No entanto, o favoritismo de \u201cA Vida \u00e9 Bela\u201d, de Roberto Benigni, acabou frustrando as chances brasileiras.<br \/>\nA presen\u00e7a de Fernanda Montenegro como candidata ao pr\u00eamio de Melhor Atriz trouxe ainda mais visibilidade ao longa. Mas ela perdeu a estatueta para a americana Gwyneth Paltrow, de \u201cShakespeare Apaixonado\u201d.<br \/>\n\u201cTinha uma torcida pra Fernanda tremenda ali. At\u00e9 hoje n\u00e3o vejo um filme com Gwyneth Paltrow. Ela passa assim na minha timeline, eu passo.  S\u00e3o mais de 25 anos e eu nunca perdoei ela\u201d, brinca Tolomelli, produtora executiva de \u201cCentral do Brasil\u201d.<br \/>\n\u201cPara chegar ao Oscar, n\u00e3o basta o filme ser bom. Existe toda uma campanha, uma estrat\u00e9gia para atingir os membros da Academia. Hoje, o Walter tem mais experi\u00eancia nisso. \u2018Ainda Estou Aqui\u2019 tem muito mais chances do que \u2018Central\u2019 teve na \u00e9poca\u201d, avalia, referindo-se ao novo longa de Salles, protagonizado por Fernanda Torres, filha de Montenegro.<br \/>\nMais de duas d\u00e9cadas depois, ela avalia que \u201cCentral do Brasil\u201d ainda \u00e9 um marco. O filme, diz a produtora, ajudou a abrir portas para o cinema brasileiro no exterior e pavimentou o caminho para sucessos posteriores, como \u201cCidade de Deus\u201d (2002).<br \/>\n\u201cDepois dele, tivemos um per\u00edodo muito bom. Produzi \u2018Cidade de Deus\u2019, que tamb\u00e9m foi indicado ao Oscar. S\u00e3o filmes que marcaram a hist\u00f3ria do cinema brasileiro e ainda repercutem\u201d, conta Tolomelli.<br \/>\nPara Vin\u00edcius de Oliveira, a experi\u00eancia foi transformadora. Para ele e para o cinema.<br \/>\n\u201cEsse filme mudou minha vida. Foi um aprendizado, uma experi\u00eancia incr\u00edvel. E mais do que isso, mostrou para o mundo o Brasil de verdade, com suas dificuldades, mas tamb\u00e9m com a beleza das rela\u00e7\u00f5es humanas.\u201d<br \/>\nPara ele, a produ\u00e7\u00e3o representa a consolida\u00e7\u00e3o da retomada do cinema nacional. O pa\u00eds j\u00e1 vinha em um processo de reconstru\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria cinematogr\u00e1fica, e filmes anteriores haviam pavimentado esse caminho. Um ano antes, \u2018O Que \u00c9 Isso, Companheiro?\u2019, estrelado por Fernanda Torres, j\u00e1 havia sido indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.<br \/>\n\u201cCom a chegada de \u2018Central do Brasil\u2019, esse movimento se concretizou. A partir dali, o cinema nacional ganhou ainda mais for\u00e7a, se consolidando como um aparato cultural fundamental para o pa\u00eds\u201d, diz.<\/div>\n<p>Fonte: <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/pop-arte\/cinema\/noticia\/2025\/02\/14\/central-do-brasil-os-bastidores-do-filme-brasileiro-que-fez-historia-no-oscar-antes-de-ainda-estou-aqui.ghtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">G1 Entretenimento<\/a><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O longa-metragem brasileiro concorreu em duas categorias: Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Atriz, com Fernanda Montenegro. Vin\u00edcius de Oliveira e Fernanda Montenegro em cena de \u2018Central do Brasil\u2019 Divulga\u00e7\u00e3o No dia 21 de mar\u00e7o de 1999, Aline Sc\u00e1tola lembra de ter lutado contra o sono para acompanhar a cerim\u00f4nia do Oscar. Ela era uma menina<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":35255,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-35254","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-entretenimento"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/35254","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=35254"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/35254\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/wp-json\/wp\/v2\/media\/35255"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=35254"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=35254"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=35254"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}