{"id":35334,"date":"2025-02-15T18:05:12","date_gmt":"2025-02-15T21:05:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.farcomto.org\/o-brutalista-e-real-o-que-e-verdade-sobre-vida-de-judeus-no-pos-guerra-nos-eua\/"},"modified":"2025-02-15T18:05:12","modified_gmt":"2025-02-15T21:05:12","slug":"o-brutalista-e-real-o-que-e-verdade-sobre-vida-de-judeus-no-pos-guerra-nos-eua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/o-brutalista-e-real-o-que-e-verdade-sobre-vida-de-judeus-no-pos-guerra-nos-eua\/","title":{"rendered":"\u2018O Brutalista\u2019 \u00e9 real? O que \u00e9 verdade sobre vida de judeus no p\u00f3s-guerra nos EUA"},"content":{"rendered":"<div>\n<div>\n<br \/>     A obra de fic\u00e7\u00e3o sobre as dificuldades de um sobrevivente do Holocausto nos Estados Unidos \u00e9 favorita para ganhar o Oscar de melhor filme deste ano. A obra de fic\u00e7\u00e3o sobre as dificuldades de um sobrevivente do Holocausto nos Estados Unidos \u00e9 favorita para ganhar o Oscar de melhor filme deste ano<br \/>\nUniversal Pictures<br \/>\nQuando L\u00e1szl\u00f3 Toth v\u00ea pela primeira vez a Est\u00e1tua da Liberdade, em Nova York (EUA), na cena de abertura do filme O Brutalista, ela est\u00e1 de cabe\u00e7a para baixo.<br \/>\nO ano \u00e9 1947 e Toth \u2014 arquiteto h\u00fangaro-judeu sobrevivente do Holocausto \u2014 chega para come\u00e7ar uma nova vida nos Estados Unidos.<br \/>\nNa verdade, a est\u00e1tua apenas parece estar de cabe\u00e7a para baixo, devido \u00e0 estranha perspectiva de Toth. Mas a invers\u00e3o visual do hist\u00f3rico monumento de boas-vindas aos imigrantes nos Estados Unidos \u00e9 um alerta de que esta n\u00e3o se trata de uma hist\u00f3ria de sucesso sobre o chamado \u201csonho americano\u201d.<br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.farcomto.org\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/2705-2.png\" alt=\"\u2705\" class=\"wp-smiley\" style=\"height: 1em; max-height: 1em;\"> Clique aqui para seguir o canal de not\u00edcias internacionais do g1 no WhatsApp<br \/>\nO Brutalista foi indicado ao Oscar em 10 categorias, incluindo melhor filme, melhor diretor (Brady Corbet) e melhor ator (Adrien Brody, que interpreta Toth). Apesar do seu ambiente hist\u00f3rico, trata-se de uma obra de fic\u00e7\u00e3o.<br \/>\nToth sobreviveu no campo de concentra\u00e7\u00e3o Buchenwald, na Alemanha. Ele foi for\u00e7ado a se separar da esposa, Erzs\u00e9bet (Felicity Jones) durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e espera que ela possa se reunir a ele.<br \/>\nNa sua trajet\u00f3ria antes da guerra, Toth foi um aluno brilhante da escola de design Bauhaus, na Alemanha. Ele trabalhou como arquiteto e projetou constru\u00e7\u00f5es p\u00fablicas modernistas na capital da Hungria, Budapeste. Mas sua esperan\u00e7a de construir uma nova vida na chamada terra das oportunidades foi uma ilus\u00e3o.<br \/>\nDepois de trabalhar como oper\u00e1rio, Toth consegue ser apadrinhado pelo empres\u00e1rio Harrison Lee Van Buren (Guy Pearce), do Estado americano da Pensilv\u00e2nia, que encomenda a constru\u00e7\u00e3o de um monumento grandioso.<br \/>\nMas Toth percebe, cada vez mais, que ele \u00e9 um judeu estrangeiro naquela sociedade rural, branca e protestante. A fam\u00edlia de Van Buren o brutaliza emocionalmente \u2014 e at\u00e9 fisicamente, em uma cena horr\u00edvel.<br \/>\n\u201cN\u00f3s toleramos voc\u00ea\u201d, diz ao arquiteto o filho ir\u00f4nico e agressivo de Van Buren, Harry (Joe Alwyn). Ele leva Toth a concluir para sua esposa, em desespero: \u201cEles n\u00e3o nos querem aqui.\u201d<br \/>\nO conceito do sonho americano foi popularizado pela primeira vez em 1931, no auge da Grande Depress\u00e3o, pelo escritor James Truslow Adams (1878-1949). \u00c9 um ideal de que, nos Estados Unidos, todos t\u00eam a liberdade e a oportunidade de fazer uma vida melhor.<br \/>\nMas Corbet, que \u00e9 americano, ataca ferozmente esta ideia, nas tr\u00eas horas e meia de dura\u00e7\u00e3o do seu filme.<br \/>\n\u201cO mito americano \u00e9 algo que n\u00e3o \u00e9 desvelado com frequ\u00eancia, especialmente essa f\u00e1bula de \u2018vinda para a Am\u00e9rica\u2019, que vemos ser repetida continuamente\u201d, declarou Corbet \u00e0 BBC. \u201cPor isso, achei que seria importante, mesmo em termos narrativos, propor uma hist\u00f3ria que come\u00e7asse em territ\u00f3rio familiar, mas terminasse em terras mais desconhecidas.\u201d<br \/>\nA luta de Toth para construir algo duradouro e fiel \u00e0 sua vis\u00e3o em O Brutalista \u00e9 uma met\u00e1fora para todos os artistas, incluindo o pr\u00f3prio Corbet. Ele trabalhou por sete anos para desenvolver o filme com a roteirista e parceira Mona Fastvold e fez um discurso apaixonado no Globo de Ouro deste ano, convocando os diretores a manterem o controle criativo dos seus filmes.<br \/>\nMas Corbet declarou que tamb\u00e9m pretendeu oferecer uma met\u00e1fora, mostrando como a experi\u00eancia dos imigrantes pode andar em paralelo com a luta dos artistas, inspirado pelo movimento arquitet\u00f4nico brutalista dos anos 1950.<br \/>\n\u201cO filme mostra como a experi\u00eancia dos artistas e imigrantes marcha em sintonia\u201d, contou Corbet \u00e0 revista The Hollywood Reporter. \u201cOu seja, de forma geral, se algu\u00e9m se mudar para uma cidade suburbana dos Estados Unidos e n\u00e3o se parecer com mais ningu\u00e9m, devido \u00e0 cor da sua pele ou \u00e0s suas cren\u00e7as ou tradi\u00e7\u00f5es, todos ir\u00e3o querer que eles\u2026 saiam.\u201d<br \/>\n\u201cCom o brutalismo dos anos 1950, enquanto as pessoas erguiam aqueles monumentos, muitas pessoas os derrubavam imediatamente\u2026 A arquitetura brutalista representa algo que as pessoas n\u00e3o entendem e querem ver derrubado e arrancado dali.\u201d<br \/>\nA abertura do filme mostra o personagem L\u00e1szl\u00f3 Toth (Adrien Brody) chegando aos Estados Unidos de navio, em meio a um grupo de imigrantes judeus<br \/>\nUniversal Pictures<br \/>\nA arquitetura brutalista se originou no Reino Unido, nos anos 1950. Ela \u00e9 famosa pelas suas estruturas de concreto, texturas \u00e1speras e \u00e2ngulos geom\u00e9tricos.<br \/>\nO brutalismo inspirou Corbet e Fastvold para criar o imigrante judeu L\u00e1szl\u00f3 Toth. O personagem concentra toda a sua dor do Holocausto para tentar construir um monumento imenso em uma nova terra onde ele n\u00e3o \u00e9 bem-vindo.<br \/>\nCorbet acredita que exista uma liga\u00e7\u00e3o entre a psicologia e a arquitetura do p\u00f3s-guerra ap\u00f3s 1945.<br \/>\n\u201cEu pensei, \u2018acho que est\u00e1 na hora de um filme sobre o brutalismo&#8217;\u201d, declarou ele \u00e0 BBC.<br \/>\n\u201cLi muito sobre o assunto e existe um livro extraordin\u00e1rio chamado Architecture and Uniform [\u2018Arquitetura e Uniforme\u2019, em tradu\u00e7\u00e3o livre], do acad\u00eamico Jean-Louis Cohen, que realmente examina a rela\u00e7\u00e3o entre a psicologia do p\u00f3s-guerra e a arquitetura do p\u00f3s-guerra e as eventuais formas de incorpora\u00e7\u00e3o de materiais desenvolvidos para a vida durante a guerra em muitas dessas constru\u00e7\u00f5es nos anos 1950.\u201d<br \/>\nTrauma geracional<br \/>\nCorbet \u00e9 descendente de judeus pelo lado da sua m\u00e3e. O jornal The Jewish Chronicle perguntou a ele se o filme seria uma reflex\u00e3o sobre o crescimento do antissemitismo.<br \/>\nCorbet respondeu que \u201co filme \u00e9 sobre traumas geracionais\u2026 a experi\u00eancia dos imigrantes \u00e9 praticamente universal. N\u00e3o conhe\u00e7o ningu\u00e9m que ela n\u00e3o tenha afetado, ou cuja fam\u00edlia n\u00e3o tenha sido afetada, de uma ou outra forma.\u201d<br \/>\nO motivo da decis\u00e3o de fazer esta hist\u00f3ria sobre um judeu h\u00fangaro, segundo ele, foi manter a fidelidade \u00e0 famosa escola Bauhaus, criada pelo arquiteto Walter Gropius (1883-1969) nos anos 1920, durante a Rep\u00fablica de Weimar (1919-1933) na Alemanha. Foi ali que surgiram muitas das ideias sobre a arquitetura brutalista.<br \/>\n\u201cOs estudantes da Bauhaus eram predominantemente judeus da Europa central e oriental, at\u00e9 que os nazistas a fecharam, em 1933\u201d, explica Corbet.<br \/>\nO diretor destaca que perguntou a Jean-Louis Cohen se havia um exemplo real de um arquiteto que refletisse a sobreviv\u00eancia de Toth na pris\u00e3o durante a ocupa\u00e7\u00e3o nazista.<br \/>\n\u201cMas, na verdade, n\u00e3o existem exemplos reais de ningu\u00e9m que tenha ficado preso nos p\u00e2ntanos da guerra, sobrevivido e conseguido estabelecer novamente sua carreira\u201d, ele conta.<br \/>\nNa verdade, L\u00e1szl\u00f3 Toth \u00e9 baseado em alguns artistas judeus importantes do movimento brutalista, que sa\u00edram da Europa antes da Segunda Guerra Mundial e, por isso, n\u00e3o enfrentaram o Holocausto.<br \/>\nAlguns destes arquitetos s\u00e3o o estoniano Louis Kahn (1901-1974), que emigrou para os Estados Unidos quando era crian\u00e7a, nos anos 1900; o alem\u00e3o Mies van der Rohe (1886-1969), que chegou aos Estados Unidos nos anos 1930; e, especialmente, Marcel Breuer (1902-1981), nascido na Hungria, que projetou o Museu Met Breuer, em Nova York, nos Estados Unidos.<br \/>\nCorbet conta \u00e0 BBC que Breuer recebeu ajuda de Gropius em 1937, nos Estados Unidos, \u201cmas muitos outros n\u00e3o tiveram a mesma sorte\u201d.<br \/>\nMuitas das ideias da arquitetura brutalista surgiram na escola Bauhaus, fundada por Walter Gropius na Alemanha, nos anos 1920<br \/>\nGetty Images<br \/>\nEspecialistas em arquitetura examinaram as similaridades entre Toth e Breuer, incluindo a luta de Breuer na vida real para construir uma igreja brutalista, a Abadia de S\u00e3o Jo\u00e3o, no Estado americano de Minnesota. Esta pode ter sido a inspira\u00e7\u00e3o para a igreja crist\u00e3 e o centro comunit\u00e1rio encomendados por Van Buren para Toth na Pensilv\u00e2nia, em O Brutalista.<br \/>\nO filme recebeu severas cr\u00edticas de alguns arquitetos por n\u00e3o ser realista. Eles destacam que estes arquitetos judeus que migraram para os Estados Unidos \u201cconstru\u00edram carreiras muito bem sucedidas, foram reitores de universidades importantes e definiram a arquitetura moderna do s\u00e9culo seguinte. Nenhum deles ficou na fila do p\u00e3o\u201d, como Toth em O Brutalista.<br \/>\nMas nenhum filme de Corbet at\u00e9 aqui apresentou protagonistas da vida real.<br \/>\nA Inf\u00e2ncia de um L\u00edder (2015), por exemplo, conta a inf\u00e2ncia de um ditador fascista fict\u00edcio. E a protagonista de Vox Lux: O Pre\u00e7o da Fama (2018) \u00e9 uma estrela do pop criada para o filme.<br \/>\nO diretor declarou \u00e0 BBC que O Brutalista tamb\u00e9m \u00e9 \u201cuma hist\u00f3ria virtual\u201d. Ele conta que quis homenagear aqueles que tiveram seu trabalho perdido com o Holocausto.<br \/>\n\u201cMinha diretora de arte, Judy Becker, e eu observamos muitos projetos n\u00e3o realizados de designers formados pela Bauhaus que n\u00e3o viveram o suficiente para ver seus edif\u00edcios constru\u00eddos\u201d, ele conta. \u201cPensamos no filme como um monumento para eles e os fantasmas do seu trabalho n\u00e3o conclu\u00eddo.\u201d<br \/>\nO professor de hist\u00f3ria judaica moderna Michael Berkowitz, do University College de Londres, \u00e9 o autor do livro Hollywood\u2019s Unofficial Film Corps (\u201cO Ex\u00e9rcito Cinematogr\u00e1fico N\u00e3o Oficial de Hollywood\u201d, em tradu\u00e7\u00e3o livre), sobre os cineastas judeus na \u00e9poca da Segunda Guerra Mundial. Ele descreve O Brutalista como \u201cde certa forma, mais hist\u00f3rico como obra de fic\u00e7\u00e3o do que muitas outras narrativas supostamente factuais\u201d.<br \/>\n\u201cO que eu achei mais impressionante sobre O Brutalista \u2014 algo um tanto triste de se dizer \u2014 \u00e9 como Toth era infeliz\u201d, conta ele \u00e0 BBC.<br \/>\n\u201cE que ele realmente passou por tempos dif\u00edceis para encontrar uma sa\u00edda profissional e como ele dependia do apadrinhamento. Neste particular, achei o filme revigorantemente honesto.\u201d<br \/>\nNo filme, a esposa de Toth, Erzs\u00e9bet (Felicity Jones) luta por muito tempo para ir para os Estados Unidos, mostrando a experi\u00eancia de muitos imigrantes da vida real<br \/>\nUniversal Pictures<br \/>\nBerkowitz destaca que a arquitetura j\u00e1 era uma profiss\u00e3o estabelecida nos Estados Unidos no in\u00edcio do s\u00e9culo 20 \u2014 e que as minorias ou imigrantes teriam lutado para entrar na profiss\u00e3o.<br \/>\n\u201cN\u00e3o era o tipo de campo que teria atra\u00eddo os judeus em geral, pois era algo considerado terrivelmente inacess\u00edvel\u201d, explica ele. \u201c\u00c9 f\u00e1cil falar no antissemitismo [como causa], mas \u00e9 algo mais complexo do que isso.\u201d<br \/>\n\u201cDevido \u00e0 forma de recrutamento das universidades, as mulheres tamb\u00e9m s\u00f3 entraram neste campo muito tempo depois. E existe apenas um pequeno n\u00famero de arquitetos provenientes de minorias. Definir quem pode construir edif\u00edcios e quem tem os recursos para isso \u00e9 parte profunda da nossa cultura at\u00e9 hoje.\u201d<br \/>\nBerkowitz acredita que o pr\u00f3prio sucesso de Marcel Breuer contou com o apoio \u201cmuito importante\u201d de Walter Gropius, que n\u00e3o era judeu e o ajudou a conseguir cargos nos Estados Unidos.<br \/>\nEle tamb\u00e9m destaca que Louis Kahn chegou aos Estados Unidos quando era crian\u00e7a e \u201cestudou na Universidade da Pensilv\u00e2nia, uma institui\u00e7\u00e3o de elite que, justamente, era mais aberta para estudantes judeus nos Estados Unidos do que muitas outras escolas\u201d.<br \/>\n\u201cEle, com certeza, n\u00e3o estava em um campo de concentra\u00e7\u00e3o. Sua experi\u00eancia n\u00e3o podia ter sido mais diferente.\u201d<br \/>\nAntissemitismo nos EUA dos anos 1940<br \/>\nNos Estados Unidos dos anos 1940, muitas universidades americanas importantes ainda restringiam o ingresso de estudantes judeus. Alguns hot\u00e9is, al\u00e9m de discriminarem os negros americanos, tamb\u00e9m exerciam uma pol\u00edtica de \u201cjudeus, n\u00e3o\u201d.<br \/>\nExistem tamb\u00e9m evid\u00eancias de ataques violentos ao povo judeu nos Estados Unidos por um grupo cat\u00f3lico irland\u00eas de extrema direita chamado Frente Crist\u00e3, especialmente em Boston e em Nova York, durante a Segunda Guerra Mundial.<br \/>\nEm 1939, uma organiza\u00e7\u00e3o pr\u00f3-Hitler chamada Alian\u00e7a Teuto-Americana promoveu um protesto com 20 mil pessoas no Madison Square Garden, em Nova York. Na ocasi\u00e3o, su\u00e1sticas nazistas rodearam um enorme retrato do primeiro presidente americano, George Washington (1732-1799).<br \/>\nCerta vez, o lend\u00e1rio diretor de cinema Stanley Kubrick (1928-1999), nascido no Bronx, em Nova York, foi impedido de ocupar a mesa de um restaurante devido \u00e0s suas origens judaicas, segundo o professor, historiador, acad\u00eamico e bi\u00f3grafo de Kubrick, Nathan Abrams.<br \/>\nJ\u00e1 o aviador americano Charles Lindbergh (1902-1974) acusou o povo judeu de controlar a imprensa americana, em um infame discurso em 1941.<br \/>\nAbrams defende que a ent\u00e3o nascente ind\u00fastria cinematogr\u00e1fica de Hollywood, fundada principalmente por imigrantes judeus (sete dos oito est\u00fadios originais foram criados por judeus do leste europeu) foi uma anomalia em termos de influ\u00eancia.<br \/>\n\u201cHollywood permitia o progresso dos judeus em um setor onde eles n\u00e3o teriam oportunidade de outra forma\u201d, conta Abrams \u00e0 BBC. \u201cO setor estava disposto a aceit\u00e1-los porque, originalmente, era considerado t\u00e3o novo e passageiro que n\u00e3o iria durar muito tempo.\u201d<br \/>\nToth e sua fam\u00edlia certamente sofrem antissemitismo em O Brutalista, tanto aberta quanto veladamente. Seu estado de esp\u00edrito \u00e9 despeda\u00e7ado constantemente ao longo do filme.<br \/>\nEle chega aos Estados Unidos esperan\u00e7oso sobre seu futuro e dorme no dep\u00f3sito da mercearia do seu primo judeu. Mas a esposa cat\u00f3lica do primo n\u00e3o o tolera.<br \/>\nSaudoso da pr\u00f3pria esposa, ele n\u00e3o consegue traz\u00ea-la para o pa\u00eds, devido \u00e0s r\u00edgidas leis de imigra\u00e7\u00e3o. Toth ent\u00e3o recorre \u00e0 hero\u00edna em busca de al\u00edvio e se dedica, durante o dia, ao trabalho duro como oper\u00e1rio para sobreviver.<br \/>\n\u201cPor que um arquiteto estrangeiro bem sucedido escava carv\u00e3o na Filad\u00e9lfia?\u201d, pergunta a Toth o personagem de Guy Pearce, quando o encontra.<br \/>\nMesmo \u00e1vido para se assimilar e ter sucesso, Toth encontra uma realidade que destr\u00f3i a sua alma. Adrien Brody se identifica com esta situa\u00e7\u00e3o \u2014 ele ganhou o Oscar em 2003 por O Pianista, a hist\u00f3ria de um m\u00fasico judeu durante a Segunda Guerra Mundial.<br \/>\nSua fam\u00edlia sofreu na pr\u00f3pria pele a experi\u00eancia de fugir da persegui\u00e7\u00e3o. Brody \u00e9 filho da fot\u00f3grafa Sylvia Plachy, moradora de Nova York que nasceu na Hungria, filha de m\u00e3e judia e pai cat\u00f3lico.<br \/>\nEla chegou aos Estados Unidos quando era adolescente, ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o H\u00fangara de 1956. E o pai do ator, Elliot Brody, tem descend\u00eancia judaica polonesa.<br \/>\nO ator Adrien Brody \u00e9 filho da fot\u00f3grafa Sylvia Plachy, que chegou aos Estados Unidos quando era adolescente, ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o H\u00fangara de 1956<br \/>\nGetty Images<br \/>\n\u201cHavia muitas situa\u00e7\u00f5es com as quais eu podia me identificar pessoalmente, como as lutas dos meus av\u00f3s e da minha m\u00e3e para fugir das dificuldades da guerra e a imigra\u00e7\u00e3o para os Estados Unidos nos anos 1950\u201d, conta Adrien Brody \u00e0 BBC. \u201cE o anseio art\u00edstico de deixar algo de grande import\u00e2ncia com o meu trabalho.\u201d<br \/>\n\u201cExiste uma desconex\u00e3o entre as esperan\u00e7as e sonhos [de Toth] de fugir da opress\u00e3o e das dificuldades, chegando a uma terra com a f\u00e1bula sobre o que pode ser atingido, e a dura realidade.\u201d<br \/>\n\u201cAcho que a outra dificuldade \u00e9 o desejo de encontrar uma sensa\u00e7\u00e3o de pertencimento e de lar, especialmente quando voc\u00ea deixa um lugar porque sua casa foi retirada de voc\u00ea\u201d, prossegue Brody. \u201cE ainda trabalhar para colaborar e ajudar a construir uma na\u00e7\u00e3o e, mesmo assim, n\u00e3o ser tratado com o mesmo n\u00edvel de respeito e iguais valores? Acho que \u00e9 muita coisa.\u201d<br \/>\nBrody tamb\u00e9m relembra sua juventude. Ele cresceu \u201cno Queen\u2019s [distrito de Nova York], constru\u00eddo por imigrantes e repleto de pessoas que basicamente mant\u00eam [a cidade] viva e intacta\u201d.<br \/>\n\u201cCresci com a compreens\u00e3o da minha m\u00e3e, a jornada de uma artista e sua assimila\u00e7\u00e3o neste grande pa\u00eds, sendo estrangeira\u201d, ele conta. \u201cE meus av\u00f3s lutaram contra as barreiras do idioma e para encontrar um trabalho que fosse significativo. Fui criado perto deles e sua jornada foi mais dif\u00edcil [que a da minha m\u00e3e].\u201d<br \/>\nOs imigrantes judeus de primeira gera\u00e7\u00e3o que sobreviveram ao Holocausto costumavam enfrentar lutas internas, al\u00e9m das barreiras sociais, explica Berkowitz.<br \/>\nEle tamb\u00e9m \u00e9 o autor de outro livro \u2013 Jews and Photography in Britain (\u201cOs judeus e a fotografia na Gr\u00e3-Bretanha\u201d, em tradu\u00e7\u00e3o livre) \u2013 que analisa o relacionamento do povo judeu com a fotografia. E menciona o exemplo da fot\u00f3grafa Magda Szirtes (1924-1975), nascida na Rom\u00eania.<br \/>\nSzirtes sobreviveu ao campo de concentra\u00e7\u00e3o de Ravensbr\u00fcck, na Alemanha, e migrou para o Reino Unido ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o H\u00fangara de 1956. Ela viveu no pa\u00eds at\u00e9 cometer suic\u00eddio, aos 51 anos de idade.<br \/>\n\u201cSeu filho, George Szirtes, poeta e tradutor de sucesso, escreveu a biografia de sua m\u00e3e, The Photographer at Sixteen [\u201cA Fot\u00f3grafa de 16 anos\u201d, em tradu\u00e7\u00e3o livre], que era uma fot\u00f3grafa muito talentosa que nunca conseguiu reconstruir sua carreira. E, de algumas formas, a esp\u00e9cie de vida que ela teve \u00e9 similar a O Brutalista.\u201d<br \/>\n\u201cProvavelmente, a maior parte das mulheres fot\u00f3grafas judias de grande talento que estudei n\u00e3o conseguiu reconstruir a carreira depois da Guerra, nem nos Estados Unidos, nem na Gr\u00e3-Bretanha, com algumas exce\u00e7\u00f5es\u201d, conta Berkowitz.<br \/>\n\u2018Lenta mudan\u00e7a de comportamento\u2019<br \/>\nO professor destaca que, como muitos outros imigrantes que fogem de persegui\u00e7\u00e3o (incluindo o pr\u00f3prio personagem fict\u00edcio de O Brutalista, L\u00e1szl\u00f3 Toth), os sobreviventes do Holocausto da primeira gera\u00e7\u00e3o precisaram recome\u00e7ar na sociedade, muitas vezes vindo de baixo.<br \/>\n\u201cDentre os profissionais judeus da Europa central ou oriental que emigraram ap\u00f3s a guerra, muitos deles trabalharam como mordomos ou faxineiros\u201d, ele conta, \u201ce estas pessoas tinham forma\u00e7\u00e3o muito sofisticada.\u201d<br \/>\n\u201cN\u00f3s gostamos de ouvir hist\u00f3rias de sucesso, mas n\u00e3o ouvimos, por exemplo, sobre o tio de algu\u00e9m que era engenheiro e acabou limpando cozinhas.\u201d<br \/>\nO pr\u00f3prio escritor Elie Wiesel (1928-2016) \u2014 sobrevivente do Holocausto e ganhador do pr\u00eamio Nobel, que chegou aos Estados Unidos em 1956 \u2014 \u201cn\u00e3o foi ouvido nos primeiros dias e escreve sobre isso\u201d, segundo o professor Tony Kushner, especialista em estudos dos refugiados da Universidade de Southampton, no Reino Unido.<br \/>\n\u201cFoi uma lenta mudan\u00e7a de comportamento ap\u00f3s o final dos anos 1940\u201d, conta ele \u00e0 BBC. \u201cN\u00e3o existia este conceito que temos hoje de um sobrevivente do Holocausto como sendo algu\u00e9m com enorme import\u00e2ncia e significado. Era apenas \u2018siga adiante com a sua vida\u2019.\u201d<br \/>\nComo mostra O Brutalista pelo longo tempo que foi necess\u00e1rio para que Erzs\u00e9bet Toth conseguisse chegar aos Estados Unidos (o que s\u00f3 foi poss\u00edvel, no filme, gra\u00e7as \u00e0 influ\u00eancia da fam\u00edlia de Van Buren), muitos imigrantes judeus enfrentaram dificuldades para chegar ao pa\u00eds.<br \/>\nO Relat\u00f3rio Harrison de 1945, elaborado pelo governo americano para alertar sobre as condi\u00e7\u00f5es dos chamados campos de \u201cpessoas deslocadas\u201d (refugiados de guerra) na Europa, recomendava que as pessoas judias fossem reconectadas \u00e0s suas fam\u00edlias nos Estados Unidos, se tivessem alguma.<br \/>\nOs Estados Unidos receberam 400 mil pessoas entre 1945 e 1952, ap\u00f3s a promulga\u00e7\u00e3o da Lei das Pessoas Deslocadas de 1948. Destas, cerca de 80 mil eram judeus.<br \/>\nA obra-prima de Toth como arquiteto \u00e9 revelada no final do filme \u2013 um edif\u00edcio inspirado nos campos de concentra\u00e7\u00f5es nazistas onde ele e a esposa ficaram presos<br \/>\nUniversal Pictures<br \/>\n\u201cOs sobreviventes judeus representavam um quarto das pessoas nos campos de pessoas deslocadas na Europa, mas menos de um quarto das que conseguiram autoriza\u00e7\u00e3o de entrada\u201d, explica Kushner.<br \/>\n\u201cHavia certas premissas e estere\u00f3tipos raciais a respeito deles, como a ideia de que os judeus s\u00e3o comerciantes, vendedores ambulantes, alfaiates, n\u00e3o conseguem ser agricultores nem trabalhar na terra. Basicamente, n\u00e3o s\u00e3o produtivos.\u201d<br \/>\n\u201cTamb\u00e9m continuou sendo um enorme problema preparar o tipo de papelada e mecanismos necess\u00e1rios para a entrada de uma pessoa\u201d, destaca Michael Berkowitz.<br \/>\n\u201cMinha fam\u00edlia tinha uma prima que era refugiada, primeiro no Reino Unido, e eles tentaram por muito tempo traz\u00ea-la para os Estados Unidos. Eles nunca conseguiram, nem mesmo traz\u00ea-la de Londres.\u201d<br \/>\n\u201cA fam\u00edlia n\u00e3o tinha conex\u00f5es\u201d, ele conta. \u201cSe voc\u00ea n\u00e3o tivesse condi\u00e7\u00f5es, n\u00e3o podia fazer, era quase imposs\u00edvel.\u201d<br \/>\nToth acaba revelando sua obra-prima nas encostas da Pensilv\u00e2nia.<br \/>\nUma constru\u00e7\u00e3o inspirada nos campos de concentra\u00e7\u00e3o nazistas onde ele e Erzs\u00e9bet ficaram presos mostra seus corredores aparentemente infinitos, representando a longa jornada dele para trazer a esposa para os Estados Unidos. Apesar de todo o horror das suas experi\u00eancias, ele se manteve fiel \u00e0 pureza da sua vis\u00e3o art\u00edstica.<br \/>\nBrady Corbet consegue se identificar com esta pureza. Depois de lutar por sete anos para produzir o filme que ele tanto queria, O Brutalista agora \u00e9 considerado favorito para ganhar o Oscar de melhor filme e melhor diretor.<br \/>\nE o filme, por si s\u00f3, j\u00e1 \u00e9 uma homenagem a um movimento nascido pela luta.<br \/>\nO Brutalista estreia nos cinemas brasileiros em 20 de fevereiro.<br \/>\nLeia a vers\u00e3o original desta reportagem (em ingl\u00eas) no site BBC Culture.<br \/>\nFernanda Torres indicada ao Oscar: veja os filmes e artistas mais cotados para o pr\u00eamio<br \/>\nDe \u2018Ainda Estou Aqui\u2019 a \u2018Wicked\u2019, por que Oscar 2025 \u00e9 o mais politizado de todos os tempos<br \/>\nFernanda Torres indicada ao Oscar: confira os filmes brasileiros premiados internacionalmente<\/div>\n<p>Fonte: <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/mundo\/noticia\/2025\/02\/15\/o-brutalista-e-real-o-que-e-verdade-sobre-vida-de-judeus-no-pos-guerra-nos-eua.ghtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">G1 Entretenimento<\/a><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A obra de fic\u00e7\u00e3o sobre as dificuldades de um sobrevivente do Holocausto nos Estados Unidos \u00e9 favorita para ganhar o Oscar de melhor filme deste ano. A obra de fic\u00e7\u00e3o sobre as dificuldades de um sobrevivente do Holocausto nos Estados Unidos \u00e9 favorita para ganhar o Oscar de melhor filme deste ano Universal Pictures Quando<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":35335,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-35334","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-entretenimento"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/35334","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=35334"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/35334\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/wp-json\/wp\/v2\/media\/35335"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=35334"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=35334"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=35334"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}