{"id":35886,"date":"2025-02-26T06:02:19","date_gmt":"2025-02-26T09:02:19","guid":{"rendered":"https:\/\/www.farcomto.org\/o-que-significa-cardeal-in-pectore-que-tem-papel-central-no-filme-conclave\/"},"modified":"2025-02-26T06:02:19","modified_gmt":"2025-02-26T09:02:19","slug":"o-que-significa-cardeal-in-pectore-que-tem-papel-central-no-filme-conclave","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/o-que-significa-cardeal-in-pectore-que-tem-papel-central-no-filme-conclave\/","title":{"rendered":"O que significa cardeal \u2018in pectore\u2019, que tem papel central no filme \u2018Conclave\u2019"},"content":{"rendered":"<div>\n<div>\n<br \/>     Um dos favoritos \u00e0 disputa do Oscar ganha destaque coincidentemente em um momento de rumores acerca de uma eventual sucess\u00e3o no Vaticano. Filme Conclave despertou interesse do p\u00fablico sobre cardeais nomeados em segredo pelo papa<br \/>\nDivulga\u00e7\u00e3o<br \/>\nNo imagin\u00e1rio popular que gravita em torno do Vaticano, \u00e9 uma figura sempre associada a uma aura de mist\u00e9rio: um cardeal nomeado em segredo pelo papa. Um dos favoritos \u00e0 disputa do Oscar deste ano, o filme Conclave, de Edward Berger, traz este personagem \u00e0 tona \u2014 coincidentemente em um momento de rumores acerca de uma eventual sucess\u00e3o na c\u00fapula da Igreja, com a sa\u00fade fragilizada do papa Francisco.<br \/>\nBaseado no livro hom\u00f4nimo escrito pelo ingl\u00eas Robert Harris, o filme tem em sua trama um religioso filipino, Vincent Ben\u00edtez, que chega ao conclave com um documento que comprova que ele teria sido nomeado in pectore pelo papa que havia acabado de morrer. A pel\u00edcula n\u00e3o entra em detalhes sobre o significado dessa condi\u00e7\u00e3o.<br \/>\nIn pectore \u00e9 uma express\u00e3o latina que significa literalmente \u201cno peito\u201d. Nesse contexto, significa que o cardeal foi nomeado de forma confidencial pelo papa \u2014 normalmente, o an\u00fancio de novos cardeais \u00e9 um evento p\u00fablico.<br \/>\nNa vida real, esse dispositivo \u00e9 usado quando a nomea\u00e7\u00e3o precisa ser \u201cmantida em segredo\u201d, explica \u00e0 BBC News Brasil o te\u00f3logo e padre Dayvid da Silva, professor na Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica de S\u00e3o Paulo (PUC-SP) e pesquisador no grupo Literatura, Religi\u00e3o e Teologia (Lerte). \u201c\u00c9 o que acontece com o caso de um cardeal escolhido pelo papa, mas que n\u00e3o tem seu nome divulgado\u201d, esclarece.<br \/>\n\u201cGeralmente, se mantem em segredo por conta de alguma situa\u00e7\u00e3o que possa trazer riscos \u00e0 pessoa nomeada, ou \u00e0 igreja da regi\u00e3o. Mas o papa pode tornar p\u00fablico o nome quando achar que deve\u201d, diz Silva.<br \/>\nEm termos hier\u00e1rquicos, nada muda. \u201cO cardeal in pectore \u00e9 uma pessoa que tem a mesma autoridade, peso, tr\u00e2nsito e proximidade com o papa do que qualquer outro cardeal. S\u00f3 que n\u00e3o tem esse t\u00edtulo reconhecido publicamente\u201d, afirma \u00e0 BBC News Brasil o vaticanista Filipe Domingues, professor na Pontif\u00edcia Universidade Gregoriana, em Roma, e diretor do Lay Centre, tamb\u00e9m em Roma.<br \/>\nEsse sigilo pode ser tempor\u00e1rio. \u201cEsse termo latino \u00e9 empregado para designar um cardeal que o papa nomeou mas cuja identidade, ainda que por algum tempo, permanece, por alguma raz\u00e3o, resguardada\u201d, acrescenta  \u00e0 BBC News Brasil o te\u00f3logo e padre Reuberson Rodrigues Ferreira, professor na PUC-SP e pesquisador de hist\u00f3ria do catolicismo. \u201cAs raz\u00f5es para essa postura decorrem da necessidade de proteger o nomeado ou evitar conflitos pol\u00edticos e religi\u00f5es, especialmente em regi\u00f5es onde a Igreja enfrenta persegui\u00e7\u00e3o.\u201d<br \/>\nApesar de soar como um expediente ins\u00f3lito, do tipo que suscita teorias da conspira\u00e7\u00e3o, \u00e9 um tipo de nomea\u00e7\u00e3o que n\u00e3o foge da normalidade da Santa S\u00e9. \u201cEssa pr\u00e1tica, a de nomear cardeais in pectore, \u00e9 relativamente comum na hist\u00f3ria da Igreja, principalmente em casos de bispos que podem correr algum risco. O papa, ent\u00e3o, pode decidir faz\u00ea-lo cardeal de forma secreta, evitando algum tipo de persegui\u00e7\u00e3o\u201d, salienta \u00e0 BBC News Brasil o soci\u00f3logo Francisco Borba Ribeiro Neto, ex-coordenador do N\u00facleo F\u00e9 e Cultura da PUC-SP e editor do jornal O S\u00e3o Paulo, da Arquidiocese de S\u00e3o Paulo.<br \/>\nFun\u00e7\u00e3o<br \/>\nMas se \u00e9 um dispositivo secreto, para que serve um cardeal in pectore? Pensando de forma apenas pragm\u00e1tica, realmente sua fun\u00e7\u00e3o pode ser um tanto limitada no dia a dia do Vaticano. Muitas vezes, o papa faz isso em reconhecimento por determinada pessoa, sabendo que haver\u00e1 uma limita\u00e7\u00e3o no exerc\u00edcio do cardinalato.<br \/>\nDomingues explica que h\u00e1 casos em que a nomea\u00e7\u00e3o s\u00f3 \u00e9 sabida pelo pr\u00f3prio pont\u00edfice e pelo religioso escolhido. Em outros, assessores pr\u00f3ximos tamb\u00e9m tomam conhecimento.<br \/>\n\u201cEle [o cardeal in pectore] tem acesso direto ao papa, vai ser consultado em quest\u00f5es relevantes, pode ser envolvido nos dicast\u00e9rios de alguma forma, seja como membro, seja como consultor, e pode ajudar na reda\u00e7\u00e3o de documentos, de discursos, de livros, de enc\u00edclicas. Pode fazer uma s\u00e9rie de coisas\u201d, pontua. \u201cAlguns assessores podem saber disso discretamente e ele ter acesso ao papa.\u201d<br \/>\nAo contr\u00e1rio da fic\u00e7\u00e3o, contudo, n\u00e3o \u00e9 de se esperar que uma figura assim surpreenda a todos participando de uma elei\u00e7\u00e3o papal de uma hora para outra. \u201c\u00c9 bastante improv\u00e1vel que um deles simplesmente surja em um conclave, sem que ningu\u00e9m soubesse de sua exist\u00eancia. Neste ponto, a fic\u00e7\u00e3o se reserva ao direito de ser mirabolante\u201d, comenta Ribeiro Neto.<br \/>\nSe um cardeal foi nomeado in pectore e ningu\u00e9m sabe disso, ele n\u00e3o tem como legitimar uma participa\u00e7\u00e3o em um conclave, conforme explica Domingues. O filme do momento tenta resolver esse ponto fazendo com que o personagem tenha um documento assinado pelo papa reconhecendo-o como cardeal.<br \/>\nSilva lembra que o filme traz essa discuss\u00e3o: \u201ca lei can\u00f4nica reza que \u00e9 o papa quem deve publicar seu nome\u201d e, no caso, com o papa morto o fato de portar um documento j\u00e1 autorizaria o cardeal em quest\u00e3o a ter o privil\u00e9gio de participar do conclave? \u201cQuando o papa morre sem deixar p\u00fablico o nome do cardeal in pectore, essa nomea\u00e7\u00e3o perderia automaticamente o efeito\u201d, entende o te\u00f3logo.<br \/>\n\u201cComo afirma o texto do C\u00f3digo de Direito Can\u00f4nico, o cardeal in pectore s\u00f3 possui autoridade de cardeal a partir da publica\u00e7\u00e3o de seu nome pelo romano pont\u00edfice\u201d, contextualiza \u201cAntes disso, ele fica desobrigado dos deveres dos cardeais e n\u00e3o goza de seu direito, como, por exemplo, participar de um conclave.\u201d<br \/>\nHist\u00f3ria<br \/>\nSegundo pesquisa de Ferreira, a pr\u00e1tica existe na Santa S\u00e9 desde o s\u00e9culo 16. \u201cMas foi consolidada no s\u00e9culo 17\u201d, pondera. \u201cA atual base jur\u00eddica da Igreja para tal pr\u00e1tica est\u00e1 no C\u00f3digo de Direito Can\u00f4nico vigente, de 1983, [\u2026] que afirma que o papa pode reservar a si o direito de nomear cardeais in pectore.\u201d<br \/>\n\u201cO eleito, todavia, s\u00f3 passa a gozar de direitos e deveres de um cardeal quando revelada a sua nomea\u00e7\u00e3o, embora seja contado como cardeal desde a data em que o papa, in pectore, o nomeou.\u201d<br \/>\nOu seja: se for um segredo entre papa e cardeal, ele n\u00e3o tem o direito de participar de eventos como um conclave. Mas uma vez revelado publicamente, a data de nomea\u00e7\u00e3o in pectore pode ser relevante porque algumas fun\u00e7\u00f5es dentro do grupo s\u00e3o hierarquizadas pelo \u201ctempo de casa\u201d.<br \/>\nFerreira atenta que documentos antigos, como a constitui\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica publicada em 1604 pelo papa Clemente 8\u00ba (1536-1605) \u201cj\u00e1 previa a nomea\u00e7\u00e3o de cardeais in pectore\u201d.<br \/>\nA pedido da reportagem, ele levantou diversos casos de in pectore que, depois se tornaram p\u00fablicos.<br \/>\nNo s\u00e9culo 15, o papa Martinho 5\u00ba (1369-1431) nomeou dois cardeais in pectore: o espanhol Domingo Ram y Lanaja (?-1445) e o italiano Domenico Capranica (1400-1458).<br \/>\n\u201cSuas identidades foram reveladas cerca de sete anos depois [da nomea\u00e7\u00e3o]. Talvez este seja um dos primeiros registros de nomea\u00e7\u00e3o in pectore\u201d, salienta ele.<br \/>\nMais tarde, Clemente 8\u00ba nomeou pelo mesmo dispositivo o italiano Antonio Maria Gallo (1553-1620). Em 1771, Clemente 13 (1693-1769) fez de Antonio Eugenio Visconti (1713-1788) um cardeal \u2014 mas s\u00f3 tornou a informa\u00e7\u00e3o p\u00fablica dois anos depois.<br \/>\nNos pontificados mais recentes tamb\u00e9m h\u00e1 exemplos. Sabe-se que pelo menos Pio 12 (1876-1958), Paulo 6\u00ba (1897-1978) e Jo\u00e3o Paulo 2\u00ba (1920-2005). O primeiro nomeou o italiano Federico Tedeschini (1873-1959) em 1933 \u2014 mas s\u00f3 publicou em 1935.<br \/>\nPrimeiro cardeal vietnamita da hist\u00f3ria Joseph-Marie Tr\u1ecbnh Nh\u01b0 Khu\u00ea (1898-1978) foi elevado ao cargo por Paulo 6\u00ba em 1976, mas permaneceu na condi\u00e7\u00e3o in pectore por um m\u00eas.<br \/>\nJo\u00e3o Paulo 2\u00ba lan\u00e7ou-m\u00e3o do dispositivo em pelo menos tr\u00eas situa\u00e7\u00f5es. Em 1979, ele nomeou in pectore o chin\u00eas Ignatius Kung Pin-mei  (1901-2000). Ele s\u00f3 divulgou o fato em 1991, quando o religioso havia, nas palavras de Ferreira, \u201csobrevivido \u00e0 persegui\u00e7\u00e3o do governo chin\u00eas\u201d.<br \/>\nOutros dois casos desse pontificado foram a nomea\u00e7\u00e3o do ucraniano Marian Jaworski (1926-2020) e do let\u00e3o J\u0101nis Puj\u0101ts, atualmente com 94 anos. \u201cAmbos foram publicados no consist\u00f3rio de 2000, mas haviam sido nomeados em 1998\u201d, pontua.<br \/>\n\u201cEntre os motivos que explicam as raz\u00f5es pelas quais os papas escolheram esse modus operandi est\u00e3o as conjunturas pol\u00edticas e religiosas\u201d, esclarece Ferreira.<br \/>\nPadre Silva atenta para o discurso de nomea\u00e7\u00e3o de novos cardeais realizado por Jo\u00e3o Paulo 2\u00ba em 28 de setembro de 2003. Em seu pronunciamento, ele cita 30 religiosos como novos cardeais a serem oficializados no m\u00eas seguinte. E encerra com esta informa\u00e7\u00e3o: \u201cPor  fim, comunico-vos  que  nomeei  cardeal outro benem\u00e9rito prelado, reservando-me o nome in pectore\u201d. Esse nome nunca foi revelado.<br \/>\nConclave n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica pe\u00e7a de fic\u00e7\u00e3o a retratar nomea\u00e7\u00f5es sigilosas do papa<br \/>\nDivulga\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u201cN\u00e3o h\u00e1 not\u00edcias de que o papa Francisco tenha nomeado nenhum cardeal in pectore\u201d, salienta Silva. Isso significa que n\u00e3o existe nenhum documento p\u00fablico ou declara\u00e7\u00e3o dele indicando o uso de tal dispositivo \u2014 mas, oficialmente, a possibilidade n\u00e3o pode ser completamente exclu\u00edda.<br \/>\nMas Domingues lembra de um caso emblem\u00e1tico. Em 13 de mar\u00e7o de 2013, no dia em que foi eleito papa e j\u00e1 sob o nome de Francisco, o argentino repetiu um gesto tradicional que estava em desuso pela Igreja: pegou o solid\u00e9u vermelho cardinal\u00edcio que lhe pertencia e colocou na cabe\u00e7a do colega que ent\u00e3o ocupava o posto de secret\u00e1rio-geral do conclave, no caso o italiano Lorenzo Baldisseri.<br \/>\nPara o vaticanista, em uma interpreta\u00e7\u00e3o compartilhada por muitos especialistas em catolicismo, o gesto significou uma nomea\u00e7\u00e3o in pectore de Baldisseri. \u201cFoi num gesto meio amb\u00edguo, porque em privado incialmente mas que passou a ser p\u00fablico\u201d, analisa. \u201cMas ele passou a ser cardeal in pectore, embora o papa n\u00e3o tenha falado dessa forma, quando recebeu o chap\u00e9u vermelho. Ele foi nomeado cardeal em privado.\u201d<br \/>\nA partir dali Baldisseri j\u00e1 fazia uso do solid\u00e9u vermelho, embora sua oficializa\u00e7\u00e3o como purpurado s\u00f3 tenha vindo em fevereiro de 2014, quase um ano depois.<br \/>\nNa fic\u00e7\u00e3o<br \/>\nO livro e o filme Conclave n\u00e3o s\u00e3o as primeiras obras de fic\u00e7\u00e3o a se utilizarem do dispositivo de nomea\u00e7\u00e3o secreta. Na obra As Sand\u00e1lias do Pescador, de 1963, o escritor australiano Morris West (1916-1999) criou um personagem ucraniano que foi nomeado cardeal in pectore.<br \/>\nEsse tipo de nomea\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m aparecem nos livros Vaticano: Um Romance, escrito pelo irland\u00eas Malachi Martin (1921-1999) e publicado em 1986, e em O Cardeal Secreto, obra de 2007 do norte-americano Tom Grace.<\/div>\n<p>Fonte: <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/pop-arte\/cinema\/noticia\/2025\/02\/26\/o-que-significa-cardeal-in-pectore-que-tem-papel-central-no-filme-conclave.ghtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">G1 Entretenimento<\/a><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um dos favoritos \u00e0 disputa do Oscar ganha destaque coincidentemente em um momento de rumores acerca de uma eventual sucess\u00e3o no Vaticano. 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