{"id":39529,"date":"2025-05-07T09:01:17","date_gmt":"2025-05-07T12:01:17","guid":{"rendered":"https:\/\/www.farcomto.org\/alaide-costa-canta-a-dramatica-sinfonia-do-desamor-em-album-com-o-repertorio-menos-conhecido-de-dalva-de-oliveira\/"},"modified":"2025-05-07T09:01:17","modified_gmt":"2025-05-07T12:01:17","slug":"alaide-costa-canta-a-dramatica-sinfonia-do-desamor-em-album-com-o-repertorio-menos-conhecido-de-dalva-de-oliveira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/alaide-costa-canta-a-dramatica-sinfonia-do-desamor-em-album-com-o-repertorio-menos-conhecido-de-dalva-de-oliveira\/","title":{"rendered":"Ala\u00edde Costa canta a dram\u00e1tica sinfonia do desamor em \u00e1lbum com o repert\u00f3rio menos conhecido de Dalva de Oliveira"},"content":{"rendered":"<div>\n<div>\n<br \/>     Disco \u2018Uma estrela para Dalva\u2019 abre os festejos dos 90 anos da cantora carioca, plena no canto de sambas-can\u00e7\u00e3o embebidos em dores e ressentimentos. Ala\u00edde Costa (\u00e0 direita) faz invent\u00e1rio de dores de amores em \u00e1lbum em que joga luz sobre m\u00fasicas menos conhecidas do repert\u00f3rio de Dalva de Oliveira (1917 \u2013 1972)<br \/>\nReprodu\u00e7\u00e3o (Dalva de Oliveira) \/ Murilo Alvesso (Ala\u00edde Costa) \/ Montagem g1<br \/>\n\u266b OPINI\u00c3O SOBRE DISCO<br \/>\nT\u00edtulo: Uma estrela para Dalva<br \/>\nArtista: Ala\u00edde Costa<br \/>\nCota\u00e7\u00e3o: \u2605 \u2605 \u2605 \u2605 \u2605<br \/>\n\u266c O \u00e1lbum Uma estrela para Dalva reacende a alma musical de Ala\u00edde Costa sem o hype oportuno de discos recentes que ampliaram a visibilidade da artista carioca com repert\u00f3rio in\u00e9dito, mas nem sempre afinado com a cantora.<br \/>\n\u00c1lbum que abre os festejos dos 90 anos da cantora, a serem comemorados em 8 de dezembro, Uma estrela para Dalva \u00e9 em ess\u00eancia um disco de magoados sambas-can\u00e7\u00e3o em que Ala\u00edde faz o invent\u00e1rio de cicatrizes e dores de amores ao dar voz ao repert\u00f3rio de Dalva de Oliveira (5 de maio de 1917 \u2013 30 de agosto de 1972), estrela da era do r\u00e1dio cujos agudos irradiavam a agonia lancinante do abandono, do ci\u00fame e da trai\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u00c9 nesse universo aflitivo que as luminosidades de Ala\u00edde Costa e Dalva de Oliveira se afinam neste disco produzido com hero\u00edsmo e independ\u00eancia por Thiago Marques Luiz para realizar o desejo da pr\u00f3pria Ala\u00edde, amiga de Dalva nos anos 1950 e admiradora de um repert\u00f3rio que conhece a fundo.<br \/>\nA prop\u00f3sito, a sele\u00e7\u00e3o de repert\u00f3rio \u2013 feita pela pr\u00f3pria Ala\u00edde com colabora\u00e7\u00f5es de Herm\u00ednio Bello de Carvalho e Cervantes Sobrinho \u2013 contribui para dar relevo ao \u00e1lbum por extrapolar a seara dos sucessos.<br \/>\nH\u00e1, claro, m\u00fasicas conhecidas, caso de Errei, sim (Ataulfo Alves, 1950), revivida por Ala\u00edde com o toque apropriadamente dram\u00e1tico do piano de Antonio Adolfo. Mas h\u00e1, sobretudo, p\u00e9rolas raras que saem do ba\u00fa no canto denso de Ala\u00edde, caso de Tatuado (Klecius Caldas e Armando Cavalcanti, 1957) \u2013 samba-can\u00e7\u00e3o escolhido acertadamente para abrir o disco, em grava\u00e7\u00e3o que junta Ala\u00edde com o toque lapidar do piano de Z\u00e9 Manoel \u2013 porque contabiliza as marcas de dor espalhadas no corpo e na alma de quem sofreu a vida toda por amar sem ser amado na mesma propor\u00e7\u00e3o.<br \/>\nNo mundo a partir de sexta-feira, 9 de maio, em edi\u00e7\u00e3o da gravadora Deck, Uma estrela para Dalva \u00e9 \u00e1lbum vocacionado para Ala\u00edde Costa porque, embora a cantora tamb\u00e9m seja associada \u00e0 suavidade da bossa nova, Ala\u00edde \u00e9 uma int\u00e9rprete que, a julgar pelo repert\u00f3rio, veio andando sozinha, cheia de m\u00e1goa, pelas estradas de um caminho sem fim.<br \/>\nN\u00e3o, ningu\u00e9m chega a morrer de amor no cancioneiro reabilitado pela cantora ao longo das 17 faixas deste disco longo, mas sem firulas, que junta a int\u00e9rprete com um grande instrumentista diferente \u2013 geralmente um pianista ou um violonista \u2013 a cada uma dessas 17 faixas que soam sem erros, unificadas pelo canto e a alma da artista.<br \/>\nS\u00f3 que a morte acontece em vida, corro\u00edda pelo ressentimento e o \u00f3dio motivados pela trai\u00e7\u00e3o, assunto de H\u00e1 um Deus (Lupic\u00ednio Rodrigues, 1957), m\u00fasica cantada por Ala\u00edde com o piano de Vitor Ara\u00fajo.<br \/>\nSe Segundo andar (Alvarenga e Ranchinho, 1950) arranha o c\u00e9u do sofrimento com o moralismo rom\u00e2ntico que associa pobreza \u00e0 felicidade, em grava\u00e7\u00e3o que une a cantora com Fil\u00f3 Machado (viol\u00e3o) e L\u00e9a Freire (flauta), o samba-can\u00e7\u00e3o Bom dia (Herivelto Martins e Aldo Cabral, 1942) cumprimenta a tristeza pela partida sem aviso pr\u00e9vio do ser amado em registro que marca o reencontro de Ala\u00edde com Guinga, grandioso ao viol\u00e3o na grava\u00e7\u00e3o que ultrapassa seis minutos e que inclui solo do m\u00fasico.<br \/>\nNesse mosaico de amores-quase-trag\u00e9dias como o de Fim de com\u00e9dia (Ataulfo Alves, 1952), faixa que tem o toque preciso do pianista Andr\u00e9 Mehmari, paira monstruosa em Teus ci\u00fames (Lacy Martins e Aldo Cabral, 1935) a sombra de um cora\u00e7\u00e3o dilacerado pelo sentimento de posse que move o samba-can\u00e7\u00e3o em grava\u00e7\u00e3o que une a cantora com o pianista Cristov\u00e3o Bastos.<br \/>\nSe o \u00e1lbum fosse editado em LP (formato ao qual dever\u00e1 chegar no segundo semestre com 12 das 17 faixas), as dores seriam suavizadas no lado A somente pela ora\u00e7\u00e3o terna feita por Ala\u00edde com Maria Beth\u00e2nia em Ave Maria no morro (Herivelto Martins, 1942) e com as sagradas sete cordas do viol\u00e3o de Jo\u00e3o Camarero.<br \/>\nPara al\u00e9m da perfei\u00e7\u00e3o art\u00edstica de Uma estrela para Dalva, \u00e9 justo elogiar a mixagem de Vitor Farias e a masteriza\u00e7\u00e3o de F\u00e1bio Roberto, ambas exemplares e importantes para que o som do disco soasse l\u00edmpido com o canto de Ala\u00edde Costa e os toques dos m\u00fasicos.<br \/>\nEssa precis\u00e3o t\u00e9cnica \u00e9 fundamental para a aprecia\u00e7\u00e3o de faixas como El dia que me quieras (Carlos Gardel e Alfredo Le Pera, 1934), standard portenho que Ala\u00edde canta como tango \u2013 no (com)passo inventivo do fraseado do piano de Amaro Freitas \u2013 com fidelidade ao esp\u00edrito do registro original, e n\u00e3o na habitual cad\u00eancia do bolero em que foi transformado o tema argentino.<br \/>\nCorpos estranhos na arquitetura camer\u00edstica do disco, as programa\u00e7\u00f5es inseridas por Yuri Queiroga no registro do samba Sebastiana da Silva (R\u00f4mulo Paes, 1951) quebram o clima dram\u00e1tico em grava\u00e7\u00e3o na qual aparece a \u00fanica guitarra do \u00e1lbum, tocada por Roberto Menescal na faixa encerrada com sagaz cita\u00e7\u00e3o vocal da marcha-rancho M\u00e1scara negra (Z\u00e9 K\u00e9tti e Pereira Matos, 1967), sucesso da fase crepuscular da carreira de Dalva.<br \/>\nNa sequ\u00eancia, o medley com Tudo acabado (J. Piedade e Oswaldo Martins, 1950) e Neste mesmo lugar (Klecius Caldas e Armando Cavalcante, 1956) restabelece o tom dram\u00e1tico do \u00e1lbum em grava\u00e7\u00e3o que traz Roberto Sion ao piano e ao saxofone.<br \/>\nFaixa feita com o piano de Itamar Assiere, Estrela do mar (Marino Pinto e Paulo Soledade, 1952) ilumina a total afinidade entre o canto de Ala\u00edde e o repert\u00f3rio de Dalva de Oliveira. Afinidade at\u00e9 \u00f3bvia porque, a rigor, o universo musical das duas cantoras \u00e9 similar.<br \/>\nComo Ala\u00edde, poucas cantoras sabem dizer com autenticidade os versos de A grande verdade (Lu\u00eds Bittencourt e Marlene, 1951), faixa com o viol\u00e3o de Gabriel Deodato e o canto de Edson Cordeiro, h\u00e1bil na evoca\u00e7\u00e3o do canto de Dalva em breves e luxuosas interven\u00e7\u00f5es na faixa.<br \/>\nAssim como enfatiza o mart\u00edrio de Dist\u00e2ncia (Marino Pinto e M\u00e1rio Rossi, 1953), em grava\u00e7\u00e3o com o piano de Gilson Peranzzetta, Ala\u00edde Costa puxa a m\u00e1goa do fundo da rede de intrigas que impulsiona Segredo (Herivelto Martins e Marino Pinto, 1947) e Cal\u00fania (Marino Pinto e Paulo Soledade, 1951), m\u00fasicas reunidas em medley gravado com o pianista Alexandre Vianna.<br \/>\nNo canto mais fundo dessa rede de infelicidade, o cora\u00e7\u00e3o palpita desiludido pela dor de Mentira de amor (Lourival Faissal e Gustavo de Carvalho, 1950), m\u00fasica gravada por Ala\u00edde com o piano de Jos\u00e9 Miguel Wisnik.<br \/>\nE, no fim, vem o cessar-fogo amoroso. \u00c9 quando Ala\u00edde Costa hasteia Bandeira branca (Max Nunes e La\u00e9rcio Alves, 1969), pedindo paz no compasso dessa marcha lenta e do\u00edda em que reaparece o piano de Amaro Freitas, dando o toque dram\u00e1tico que arremata Uma estrela para Dalva.<br \/>\n\u00c9  o fecho esteticamente feliz de \u00e1lbum em que a luminosidade de Ala\u00edde Costa se encontra com a eternidade de Dalva de Oliveira nesse songbook de valor perene que atravessar\u00e1 o tempo como o testemunho da grandeza dessas cantoras irmanadas na dram\u00e1tica sinfonia do desamor.<br \/>\nCapa do \u00e1lbum \u2018Uma estrela para Dalva\u2019, de Ala\u00edde Costa<br \/>\nMurilo Alvesso com arte de Leandro Arraes<\/div>\n<p>Fonte: <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/pop-arte\/musica\/blog\/mauro-ferreira\/post\/2025\/05\/07\/alaide-costa-canta-a-dramatica-sinfonia-do-desamor-em-album-com-o-repertorio-menos-conhecido-de-dalva-de-oliveira.ghtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">G1 Entretenimento<\/a><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Disco \u2018Uma estrela para Dalva\u2019 abre os festejos dos 90 anos da cantora carioca, plena no canto de sambas-can\u00e7\u00e3o embebidos em dores e ressentimentos. 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