{"id":40099,"date":"2025-07-28T06:00:24","date_gmt":"2025-07-28T09:00:24","guid":{"rendered":"https:\/\/www.farcomto.org\/diario-de-um-legendario-dia-3-retiro-masculino-vira-reality-show-com-suor-lama-e-teste-final-de-coragem\/"},"modified":"2025-07-28T06:00:24","modified_gmt":"2025-07-28T09:00:24","slug":"diario-de-um-legendario-dia-3-retiro-masculino-vira-reality-show-com-suor-lama-e-teste-final-de-coragem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/diario-de-um-legendario-dia-3-retiro-masculino-vira-reality-show-com-suor-lama-e-teste-final-de-coragem\/","title":{"rendered":"Di\u00e1rio de um Legend\u00e1rio, dia 3: retiro masculino vira \u2018reality show\u2019 com suor, lama e teste final de coragem"},"content":{"rendered":"<div>\n<div>\n<br \/>     Di\u00e1rio de um legend\u00e1rio, dia 3: suor, lama e teste final de coragem<br \/>\nA frase foi dita no momento mais f\u00edsico e tenso do terceiro dia da minha subida \u00e0 montanha com os Legend\u00e1rios \u2014 o retiro masculino e crist\u00e3o que ganhou fama nas redes sociais.<br \/>\nQuem leu os dois primeiros dias deste di\u00e1rio conhece o objetivo: eu, homem crist\u00e3o que cresceu em lar evang\u00e9lico e com interesse no assunto, subi a montanha para entender o que acontece, afinal, entre os Legend\u00e1rios.<br \/>\nSe no primeiro dia o cansa\u00e7o f\u00edsico e a disciplina militar deram o tom da experi\u00eancia, e no segundo foram as emo\u00e7\u00f5es \u00e0 flor da pele em torno das rela\u00e7\u00f5es familiares, o terceiro dia teve clima de prova de reality show.<br \/>\nMomentos de emo\u00e7\u00e3o, como um batismo no rio e conversas francas em \u201cfam\u00edlia\u201d (nome dos subgrupos em que os homens s\u00e3o divididos), foram sucedidos por desafios f\u00edsicos que culminaram em transformar o retiro em uma verdadeira arena, onde a coragem e a resist\u00eancia foram postas \u00e0 prova.<br \/>\nO g1 publica este Di\u00e1rio de um Legend\u00e1rio em quatro partes di\u00e1rias, entre s\u00e1bado (26) e ter\u00e7a-feira (29).<br \/>\nN\u00e3o levei gravador, c\u00e2mera, nem celular, que eram banidos. Mas tomei notas, que baseiam as ilustra\u00e7\u00f5es da equipe de arte do g1. E o que relato aqui \u00e9 o que vi, ouvi e vivi durante o retiro.<br \/>\n\u2018\u00c9 a minha merda\u2019<br \/>\nO s\u00e1bado nasceu nublado, menos frio que a sexta. Sa\u00edmos das barracas sob ordens e, como nos dois primeiros dias, recebemos o comando de nos alinharmos em batalh\u00e3o, l\u00edderes com bandeiras na frente, no mesmo descampado onde hav\u00edamos dormido. Alguns legend\u00e1rios de laranja aguardavam para falar \u2013n\u00f3s, os participantes, ainda n\u00e3o t\u00ednhamos nos graduado nem ganhado a \u201cfarda\u201d laranja e \u00e9ramos chamados de \u201csenderistas\u201d.<br \/>\nUma das falas veio de forma um tanto quanto gr\u00e1fica. Um legend\u00e1rio ergueu um saco pl\u00e1stico transparente com um conte\u00fado marrom e roli\u00e7o no fundo.<br \/>\nEra a introdu\u00e7\u00e3o para trazer a li\u00e7\u00e3o de que um homem de verdade \u00e9 \u201crespons\u00e1vel pelas pr\u00f3prias merdas\u201d, que um legend\u00e1rio cuida para se encarregar das consequ\u00eancias de suas a\u00e7\u00f5es.<br \/>\nArco-\u00edris<br \/>\nO tempo foi se abrindo e um imenso arco-\u00edris se formou no c\u00e9u, \u00e0 esquerda dos senderistas, que foram percebendo aos poucos o desenho no alto.<br \/>\nO contraste foi ficando cada vez mais forte, em uma daquelas cenas que podem encher de magia o imagin\u00e1rio de um crist\u00e3o.<br \/>\nNo livro de G\u00eanesis, o primeiro da B\u00edblia, \u00e9 dito que Deus criou o primeiro arco-\u00edris logo ap\u00f3s o dil\u00favio, na hist\u00f3ria da arca de No\u00e9. E fez isso como sinal de sua alian\u00e7a com a humanidade, prometendo nunca mais castigar a Terra com um dil\u00favio como aquele.<br \/>\nPrimeiro \u2018banho\u2019, batismo e novos crist\u00e3os<br \/>\nRecebemos com festa a not\u00edcia de que, pras atividades do dia, precisar\u00edamos levar s\u00f3 uma mochila por fam\u00edlia (nome dado aos grupos em que fomos subdivididos desde o in\u00edcio). Ap\u00f3s uma breve caminhada, chegamos a uma pequena represa. Ordenaram que fic\u00e1ssemos despidos da cintura pra cima, mantendo as botas cal\u00e7adas.<br \/>\nEntramos na \u00e1gua e ficamos cobertos acima da linha do umbigo; o frio da \u00e1gua era intenso, mas o desconforto n\u00e3o era nada comparado \u00e0 alegria de \u201ctomar um banho\u201d pela primeira vez em tr\u00eas dias.<br \/>\nA orienta\u00e7\u00e3o ent\u00e3o foi que pens\u00e1ssemos no que quer\u00edamos deixar para tr\u00e1s a partir daquele momento, coisas que faziam parte do homem de antes e que n\u00e3o levar\u00edamos em nosso retorno como legend\u00e1rios. Da\u00ed foram sete mergulhos com essas coisas em mente, sendo contados em coro cada vez que volt\u00e1vamos \u00e0 tona.<br \/>\nDepois, com as cal\u00e7as e botas molhados, caminhamos mais um pouco e chegamos diante de um po\u00e7o alimentado por um fio d\u2019\u00e1gua vindo da dire\u00e7\u00e3o da barragem, que descia por uma superf\u00edcie rochosa. Era o momento do batismo.<br \/>\nDois senderistas levantaram as m\u00e3os quando um legend\u00e1rio perguntou se algu\u00e9m ali gostaria de aceitar Jesus e se batizar pela primeira vez.<br \/>\nOs demais, j\u00e1 batizados, pudemos fazer uma esp\u00e9cie de batismo de renova\u00e7\u00e3o. Assim como a noite anterior, foi um momento de como\u00e7\u00e3o para diversos homens ali.<br \/>\nO ato verbal de \u201caceitar Jesus\u201d \u00e9 natural do meio evang\u00e9lico e significa se converter \u00e0quela f\u00e9 ap\u00f3s reconhecer Jesus Cristo como senhor e salvador de sua vida. \u00c9 sempre visto como um momento importante na igreja, muito celebrado.<br \/>\nNo Catolicismo, por exemplo, o entendimento da aceita\u00e7\u00e3o \u00e9 diferente e mais ligado aos sacramentos (batismo, primeira comunh\u00e3o e crisma).<br \/>\nIsso n\u00e3o limita o Legend\u00e1rios a um movimento estritamente evang\u00e9lico. Conheci dois ou tr\u00eas homens cat\u00f3licos no retiro, entre senderistas e legend\u00e1rios. A predomin\u00e2ncia de evang\u00e9licos, no entanto, \u00e9 evidente.<br \/>\nO fundador, Chepe Putzu, explicou em entrevista ao g1 que se trata de um movimento crist\u00e3o n\u00e3o ligado a nenhuma denomina\u00e7\u00e3o ou igreja espec\u00edfica.<br \/>\nTentados como Jesus no deserto<br \/>\nO dia de trilha bem mais leve tamb\u00e9m foi permeado por algumas micropalestras. Numa dessas, um legend\u00e1rio nos aguardava sobre um piso de rochedos, \u00e0 sombra das \u00e1rvores, e pediu que ocup\u00e1ssemos o espa\u00e7o ao redor dele em meia lua.<br \/>\nDe forma quase teatral, diferente do tom militar de outras falas, ele nos parabenizou por chegarmos at\u00e9 ali, disse que agora j\u00e1 t\u00ednhamos conquistado muita coisa, mas que ele tinha algo especial a nos oferecer.<br \/>\nEra um saco extra de comida, igual aos que ganhamos no in\u00edcio do retiro (que deveriam durar tr\u00eas dias, sem fartura, e j\u00e1 estavam no fim). Qualquer um de n\u00f3s poderia ganh\u00e1-lo, ele disse. Bastava ir \u00e0 frente, se ajoelhar diante do legend\u00e1rio e ador\u00e1-lo.<br \/>\nQualquer crist\u00e3o com mais bagagem imediatamente entende que havia ali uma refer\u00eancia a Jesus no deserto, e que a postura correta \u00e9 recusar a oferta.<br \/>\nA B\u00edblia narra que Jesus passou 40 dias jejuando no deserto ap\u00f3s ser batizado por Jo\u00e3o Batista, e l\u00e1 foi tentado tr\u00eas vezes por Satan\u00e1s \u2014 uma delas usando a fome. Assim como o legend\u00e1rio, tudo que o diabo pedia era que fosse adorado.<br \/>\nFomos parabenizados pela escolha de recusar a tenta\u00e7\u00e3o e orientados a seguir.<br \/>\nO lama\u00e7al e a disputa<br \/>\nDepois de uma longa pausa para almo\u00e7o e confraterniza\u00e7\u00e3o com o grupo todo, continuamos a caminhada. Paramos num local e nos sentamos para conversar, dessa vez s\u00f3 entre fam\u00edlia, cada um sendo estimulado pelo l\u00edder (sob orienta\u00e7\u00e3o de um legend\u00e1rio) a falar sobre quest\u00f5es pessoais que esperavam curar com a ajuda do retiro.<br \/>\nEnt\u00e3o, mais caminhada at\u00e9 chegar a\u2026 um lama\u00e7al. Era o fim da tarde, e se o dia vinha um tanto quanto leve at\u00e9 ali, era a hora do \u00faltimo grande choque no sentido oposto. Para mim, o maior deles.<br \/>\nTivemos que nos despir de novo da cintura pra cima, dessa vez tirando tamb\u00e9m qualquer acess\u00f3rio como correntes e \u00f3culos, e entramos na \u00e1gua barrenta. Devia ter entre um e dois palmos de profundidade nos pontos mais fundos.<br \/>\nSentamos em c\u00edrculos na lama, organizados por fam\u00edlia, bem pr\u00f3ximas umas das outras.<br \/>\nO \u201cVoice\u201d (legend\u00e1rio com a principal voz de comando) indicava atividades, que foram desde se deitar na lama at\u00e9 eleger o membro mais fraco da fam\u00edlia, coloc\u00e1-lo no centro do c\u00edrculo e empurr\u00e1-lo com for\u00e7a, um irm\u00e3o por vez, com a inten\u00e7\u00e3o de derrub\u00e1-lo. Alinhados ombro a ombro, os outros deveriam ampar\u00e1-lo sem usar os bra\u00e7os, evitando que ele ca\u00edsse.<br \/>\nCorta para o in\u00edcio da noite com todos de joelhos na lama, alinhados em filas por fam\u00edlia, sete fileiras de um lado imediatamente de frente para as outras sete do outro. As \u00fanicas fontes de luz eram as v\u00e1rias lanternas nas cabe\u00e7as dos legend\u00e1rios, emparedados quase ombro a ombro ao redor do lama\u00e7al.<br \/>\nUm legend\u00e1rio servia de juiz para cada fileira de lutas. Os dois senderistas \u00e0 frente deveriam tentar derrubar um ao outro, encostando apenas no tronco ou nas m\u00e3os do advers\u00e1rio. Qualquer movimento que resvalasse no pesco\u00e7o ou no rosto, por exemplo, era motivo de elimina\u00e7\u00e3o.<br \/>\nOs irm\u00e3os logo atr\u00e1s podiam ajudar sustentando ou empurrando as costas daquele \u00e0 sua frente. Eliminados eram encaminhados para o fundo e n\u00e3o voltavam \u00e0 batalha.<br \/>\nFam\u00edlias inteiras foram sendo eliminadas; as que sobravam vencedoras foram se enfrentando tamb\u00e9m, at\u00e9 ficar apenas uma fam\u00edlia de cada lado na disputa. Sob o comando de legend\u00e1rios, os que estavam de fora se aglomeraram em c\u00edrculo ao redor e passaram a torcer pela fam\u00edlia que representava seu lado inicial das batalhas.<br \/>\nDo lado de c\u00e1, os homens desanimados foram incentivados por legend\u00e1rios a bater palmas e reconhecer a derrota, e na sequ\u00eancia a gritar em coro por revanche.<br \/>\nO Voice concordou e ordenou que todos se reorganizassem de joelhos para outra rodada. Mas, quando ele estava prestes a dar o comando para a nova batalha, outro legend\u00e1rio do lado oposto da \u201carena\u201d ergueu a m\u00e3o e a voz, tomando a palavra para enfim passar a li\u00e7\u00e3o daquilo tudo.<br \/>\nPerguntou por que est\u00e1vamos lutando entre irm\u00e3os e disse que n\u00e3o havia sentido em batalhar contra nossos iguais. E refor\u00e7ou que as batalhas a serem travadas por homens de verdade s\u00e3o contra inimigos na vida l\u00e1 fora, no sentido de batalha espiritual.<br \/>\nA consagra\u00e7\u00e3o dos legend\u00e1rios<br \/>\nEncharcados de lama e sob o vento frio da noite, esperamos um bom tempo agrupados perto do lama\u00e7al at\u00e9 que um legend\u00e1rio se levantou para falar sobre o sacrif\u00edcio de Jesus na cruz \u2014 n\u00e3o uma morte simples, mas uma tortura p\u00fablica reservada aos marginalizados da sociedade.<br \/>\nEra o an\u00fancio do trecho final da jornada. Cada senderista carregaria uma tora de madeira, uma refer\u00eancia \u00e0 via-sacra, em que Jesus carregou sua pr\u00f3pria cruz para ser crucificado, e como s\u00edmbolo do peso que os futuros legend\u00e1rios escolhiam levar dali em diante.<br \/>\nAs toras estavam empilhadas, cada uma com cerca de um metro de comprimento. A minha n\u00e3o parecia mais pesada que meu mochil\u00e3o, mas o formato irregular incomodava. Seguimos por uma trilha curta, iluminada por tochas.<br \/>\n\u00c0s margens do caminho, entre arbustos, legend\u00e1rios liam repetidamente trechos b\u00edblicos do livro de Isa\u00edas, no Velho Testamento, que traz profecias sobre a vinda e o sacrif\u00edcio de Jesus, e de Mateus, no Novo, esses narrando momentos da via-sacra e da crucifica\u00e7\u00e3o.<br \/>\nNo fim do percurso, um gramado nos aguardava para um momento que lembrou em muito um culto evang\u00e9lico, assim como o da fogueira na noite anterior.<br \/>\nUma grande cruz iluminada com LEDs chamava aten\u00e7\u00e3o bem no centro do espa\u00e7o, ladeada por duas cruzes escuras mais baixas \u2013como na B\u00edblia, em que Cristo foi crucificado entre as cruzes de dois ladr\u00f5es.<br \/>\n\u00c0 direita, dois legend\u00e1rios tocavam e cantavam louvores, e ao fundo havia cinco ton\u00e9is de metal onde toras de madeira ardiam em chamas. Os ton\u00e9is eram vazados, atrav\u00e9s de cada um dava pra ler uma letra, formando o nome JESUS.<br \/>\nA mensagem sobre o sacrif\u00edcio de Cristo foi tomada de como\u00e7\u00e3o, assim como na noite anterior, com muito choro, joelhos no ch\u00e3o, ora\u00e7\u00f5es e abra\u00e7os.<br \/>\nLogo adiante, em sil\u00eancio e forma\u00e7\u00e3o, paramos num local que lembrava as cercanias dos s\u00edtios do primeiro dia e aguardamos. Umas dezenas de metros \u00e0 frente, um letreiro se acendeu com a palavra LEGEND\u00c1RIOS.<br \/>\nUm grupo de homens com uniformes laranja estava tamb\u00e9m em forma\u00e7\u00e3o no espa\u00e7o entre n\u00f3s e o letreiro, e entoou o grito de guerra do movimento:<br \/>\nEntre n\u00f3s e o letreiro havia um grupamento de legend\u00e1rios tamb\u00e9m em forma\u00e7\u00e3o, que come\u00e7ou a gritar em coro algo que n\u00e3o hav\u00edamos ouvido at\u00e9 ali. Era o grito de guerra do Legend\u00e1rios.<br \/>\nUm deles perguntava, ao que todos os outros respondiam:<br \/>\n\u2014 Legend\u00e1rios!<br \/>\n\u2014 Sim, legend\u00e1rio!<br \/>\n\u2014 O que somos?<br \/>\n\u2014 Homens inquebrant\u00e1veis!<br \/>\n\u2014 Para que estamos aqui?<br \/>\n\u2014 Para fazer hist\u00f3ria!<br \/>\n\u2014 A servi\u00e7o de quem?<br \/>\n\u2014 Jesus!<br \/>\n\u2014 E o que vamos fazer?<br \/>\n\u2014 Dar a vida pelos nossos amigos! AHU! AHU! AHU!<br \/>\n(\u201cAHU\u201d \u00e9 sigla para Amor, Honra e Unidade, uma das express\u00f5es usadas pelo movimento.)<br \/>\nEra a recep\u00e7\u00e3o final. O momento em que, oficialmente, pass\u00e1vamos de senderistas a legend\u00e1rios. Agora \u00e9ramos de fato parte do grupo.<br \/>\nAo vencedor, as batatas (sem talher)<br \/>\nDe volta ao s\u00edtio da primeira noite, encontramos duas longas mesas preparadas para o jantar. Diante de cada lugar: \u00e1gua, refrigerante e, depois, uma sequ\u00eancia simples de comida \u2014 batata, p\u00e3o, lingui\u00e7a e carne, servidos sem talheres.<br \/>\nA batata parecia crua \u00e0 primeira vista e arrancou olhares desconfiados. \u201cTer\u00edamos que assar n\u00f3s mesmos?\u201d Mas, depois de tr\u00eas dias de pouqu\u00edssima comida de acampamento, a primeira mordida foi avassaladora. Era, de longe, a melhor batata assada na manteiga que j\u00e1 comi.<br \/>\nO clima era de confraterniza\u00e7\u00e3o plena. Quase 300 homens batendo papo em subgrupos, sentados ou em p\u00e9, durante um churrasc\u00e3o com zero teor alco\u00f3lico ao som do legend\u00e1rio que mandava hits do gospel na voz e viol\u00e3o.<br \/>\nParecia natural que daquele meio surgissem futuramente oportunidades de neg\u00f3cios, empregos e ajuda m\u00fatua, com tanta identifica\u00e7\u00e3o envolvida.<br \/>\nCenas do 3\u00ba dia em um retiro dos Legend\u00e1rios, em ilustra\u00e7\u00f5es do g1<br \/>\nOt\u00e1vio Camargo, Bruna Azevedo e Thalita Ferraz<br \/>\n169 homens, dois chuveiros e o horizonte<br \/>\nFicamos livres para montar as barracas e tomar banho. Havia dois chuveiros ao ar livre para aqueles 169 participantes \u2013os legend\u00e1rios a servi\u00e7o tinham chuveiros separados.<br \/>\nDe banho tomado, entrei na tenda e passei um tempo escrevendo e pensando em como seria a volta daqueles homens para suas fam\u00edlias no dia seguinte.<br \/>\nA atmosfera dava a entender que todos haviam abra\u00e7ado o movimento por completo, sem ressalvas. Conclu\u00edram que o desgaste f\u00edsico, a priva\u00e7\u00e3o de sono e at\u00e9 mesmo as humilha\u00e7\u00f5es coletivas tinham fun\u00e7\u00e3o totalmente justificada no processo para se tornar um legend\u00e1rio. E concordo que, em alguns aspectos, muitos ali certamente voltariam melhores.<br \/>\nMas ouvi ao longo do retiro diversas li\u00e7\u00f5es e falas que refor\u00e7am o protagonismo e a lideran\u00e7a masculinas de forma que beirava o inquestion\u00e1vel, por exemplo. A mulher era respeitosamente tratada como parceira que vai seguir e apoiar as decis\u00f5es do homem, for\u00e7ada de forma \u201cantinatural\u201d a tomar as r\u00e9deas apenas quando o marido est\u00e1 longe de Deus.<br \/>\nOuvi que diversos participantes s\u00f3 entraram no legend\u00e1rios porque as mulheres fizeram a inscri\u00e7\u00e3o deles e praticamente os for\u00e7aram a ir. Muitas esposas fizeram as malas dos maridos. Tamb\u00e9m ouvi que uma fam\u00edlia n\u00e3o tem como funcionar sem um homem \u00e0 frente, e que cabe a ele inclusive a chefia espiritual do lar.<br \/>\nEsse tipo de pensamento \u00e9 a raiz de boa parte das cr\u00edticas que o movimento recebe. O motivo da revolta \u00e9 que estruturas como essas limitam o espa\u00e7o da mulher na sociedade, refor\u00e7am o machismo e, por tabela, invalidam quem foge \u00e0 regra, como a comunidade LGBTQIAPN+. Al\u00e9m de outras quest\u00f5es como o racismo religioso, que tamb\u00e9m ganham for\u00e7a com o discurso.<br \/>\nAinda havia um dia pela frente. A volta \u00e0 cidade de Salvador ainda tinha algumas surpresas reservadas para mim.<br \/>\n* O g1 publica este Di\u00e1rio de um Legend\u00e1rio em quatro partes di\u00e1rias, entre s\u00e1bado (26) e ter\u00e7a-feira (29).<\/div>\n<p>Fonte: <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/pop-arte\/noticia\/2025\/07\/28\/diario-de-um-legendario-dia-3-retiro-masculino-vira-reality-show-com-suor-lama-e-teste-final-de-coragem.ghtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">G1 Entretenimento<\/a><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Di\u00e1rio de um legend\u00e1rio, dia 3: suor, lama e teste final de coragem A frase foi dita no momento mais f\u00edsico e tenso do terceiro dia da minha subida \u00e0 montanha com os Legend\u00e1rios \u2014 o retiro masculino e crist\u00e3o que ganhou fama nas redes sociais. 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