{"id":41074,"date":"2025-08-18T09:01:23","date_gmt":"2025-08-18T12:01:23","guid":{"rendered":"https:\/\/www.farcomto.org\/pele-de-peixe-gigante-da-amazonia-vira-bolsa-de-luxo-mas-ganho-nao-chega-a-pescadores\/"},"modified":"2025-08-18T09:01:23","modified_gmt":"2025-08-18T12:01:23","slug":"pele-de-peixe-gigante-da-amazonia-vira-bolsa-de-luxo-mas-ganho-nao-chega-a-pescadores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/pele-de-peixe-gigante-da-amazonia-vira-bolsa-de-luxo-mas-ganho-nao-chega-a-pescadores\/","title":{"rendered":"Pele de peixe gigante da Amaz\u00f4nia vira bolsa de luxo, mas ganho n\u00e3o chega a pescadores"},"content":{"rendered":"<div>\n<div>\n<br \/>     Um pescador carrega um pirarucu na Reserva de Desenvolvimento Sustent\u00e1vel (RDS) Mamirau\u00e1, em Fonte Boa, estado do Amazonas<br \/>\nAFP via Getty Images\/BBC<br \/>\nBolsas de luxo e acess\u00f3rios de couro que chegam a custar milhares de reais, no Brasil e em lojas nos Estados Unidos.<br \/>\nO uso da pele espessa e resistente do pirarucu, peixe que j\u00e1 foi considerado amea\u00e7ado de extin\u00e7\u00e3o e tem hoje sua pesca e com\u00e9rcio controlados, recebe apoio tanto da ind\u00fastria da moda quanto de autoridades ambientais.<br \/>\nA pesca da esp\u00e9cie j\u00e1 foi proibida por causa da explora\u00e7\u00e3o predat\u00f3ria, mas hoje \u00e9 vista como exemplo de manejo sustent\u00e1vel: o modelo atual envolve a contagem dos animais e a autoriza\u00e7\u00e3o da captura de apenas uma parte, garantindo a conserva\u00e7\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es e remunera\u00e7\u00e3o para comunidades ind\u00edgenas e ribeirinhas.<br \/>\nMarcas nacionais e internacionais enfatizam esses ganhos socioambientais a seus clientes. A Osklen, pioneira neste mercado, diz em seu site que a iniciativa colabora com a economia circular, \u201cgerando renda para as popula\u00e7\u00f5es ribeirinhas e contribuindo para a preserva\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia.\u201d<br \/>\nA americana Piper &amp; Skye se define como uma marca criada para unir luxo e sustentabilidade.<br \/>\nMas representantes de comunidades envolvidas no manejo e especialistas ouvidos pela BBC News Brasil afirmam que, embora defendam que o modelo de fato ajudou a recuperar a popula\u00e7\u00e3o do peixe, a maior parte do dinheiro recebida com esse com\u00e9rcio da pele n\u00e3o chega a quem garante essa preserva\u00e7\u00e3o.<br \/>\nO pescador amazonense e vice-presidente da Federa\u00e7\u00e3o dos Manejadores e Manejadoras de Pirarucu de Mamirau\u00e1 (Femapam) Pedro Can\u00edzio diz que se assustou ao ver o pre\u00e7o de um desses itens de luxo \u00e0 venda, pela primeira vez, em uma viagem que fez ao Rio de Janeiro h\u00e1 alguns anos.<br \/>\n\u201cO manejador [aquele que participa do plano de manejo do pirarucu] n\u00e3o chega nem perto de comprar um produto desse, porque \u00e9 muito caro. Pescadores t\u00eam muito trabalho, mas o quilo do pirarucu [inteiro] \u00e9 vendido por aqui, no maior valor, a R$ 11\u201d, diz Can\u00edzio.<br \/>\nA consultora Fernanda Alvarenga, autora de um estudo sobre o mercado do couro do pirarucu, diz que esse \u00e9 um problema comum entre os produtos da Amaz\u00f4nia.<br \/>\n\u201cA maioria dessas rela\u00e7\u00f5es [da cadeia produtiva] s\u00e3o question\u00e1veis\u201d, diz Alvarenga.<br \/>\n\u201cBrincamos que, se o manejo do pirarucu n\u00e3o der certo como estrat\u00e9gia de conserva\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia, nada vai. \u00c9 a atividade econ\u00f4mica mais redonda em termos de maior n\u00famero de benef\u00edcios socioambientais\u201d, continua a consultora.<br \/>\n\u201c\u00c9 importante que isso venha \u00e0 tona n\u00e3o como uma maneira de destruir rela\u00e7\u00f5es comerciais, mas de ter um olhar mais cuidadoso e consciente sobre a import\u00e2ncia dessa atividade econ\u00f4mica como estrat\u00e9gia de conserva\u00e7\u00e3o.\u201d<br \/>\nEmpresas do setor ouvidas pela BBC News Brasil dizem que reconhecem os desafios, mas que buscam ativamente o fortalecimento dessas comunidades.<br \/>\nAfirmam tamb\u00e9m que o mercado de luxo representa s\u00f3 uma pequena parte da demanda e que o segmento teve papel fundamental como vitrine internacional do pirarucu (mais detalhes abaixo).<br \/>\nAcess\u00f3rios com couro de pirarucu que custam milhares de reais s\u00e3o anunciados no site da marca Osklen<br \/>\nOsklen\/Reprodu\u00e7\u00e3o\/BBC<br \/>\nUm couro ex\u00f3tico e sustent\u00e1vel<br \/>\nO couro do pirarucu cumpre um papel considerado importante no mercado da moda, por passar essa mensagem de prote\u00e7\u00e3o ao meio ambiente.<br \/>\nCouros, em geral, s\u00e3o celebrados por sua durabilidade e tamb\u00e9m por uma quest\u00e3o cultural ligada \u00e0 ancestralidade, diz Lilyan Berlim, especialista em sustentabilidade na moda e professora de gest\u00e3o de luxo na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).<br \/>\n\u201cFoi uma das primeiras formas de roupa que tivemos. H\u00e1 uma associa\u00e7\u00e3o com qualidade e efici\u00eancia.\u201d<br \/>\nMas a liga\u00e7\u00e3o com danos ao meio ambiente tem feito com que a ind\u00fastria virasse alvo constante de cr\u00edticas.<br \/>\nO pirarucu entrou como uma exce\u00e7\u00e3o. \u201cTem toda uma quest\u00e3o cultural. Ele \u00e9 alimento das comunidades ribeirinhas da Amaz\u00f4nia. Quando voc\u00ea usa o couro do pirarucu, de certa forma est\u00e1 gerando renda para as comunidades\u201d, diz a professora.<br \/>\nNovas marcas surgem neste mercado a cada ano, sempre incorporando a ideia de sustentabilidade ao discurso.<br \/>\nCouro de pirarucu \u00e9 usado por marcas de luxo, no Brasil e no exterior, para fazer acess\u00f3rios como bolsas e botas<br \/>\nBernardo Oliveira\/Asproc\/Divulga\u00e7\u00e3o\/BBC<br \/>\n\u201cPensamos em um modelo de neg\u00f3cio que n\u00e3o fosse s\u00f3 sobre o couro, mas sobre sustentabilidade e impacto ambiental\u201d, diz Bruna Freitas, fundadora de uma dessas novas marcas no mercado nacional, a Yara Couro, baseada em Macap\u00e1 (AP).<br \/>\nA ideia surgiu depois de ter tomado conhecimento da grande quantidade de res\u00edduos da pesca em sua regi\u00e3o. \u201cN\u00e3o h\u00e1 um aproveitamento t\u00e3o grande da cadeia do pescado como j\u00e1 h\u00e1 na bovina\u201d, diz.<br \/>\nNo caso do pirarucu, o peixe \u00e9 consumido como alimento. At\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s, sua pele era descartada. Com o crescimento desse mercado, essa parte do animal passou a ser reaproveitada.<br \/>\nFreitas diz que o pirarucu se destaca por possuir uma pele com um padr\u00e3o dif\u00edcil de ser imitado, al\u00e9m de ser um s\u00edmbolo da Amaz\u00f4nia. \u201c\u00c9 um peixe que sobreviveu a muitas quest\u00f5es ambientais.\u201d<br \/>\nPara Pedro Can\u00edzio, falta valoriza\u00e7\u00e3o dos manejadores do pirarucu<br \/>\nArquivo pessoal via BBC<br \/>\nDo manejo \u00e0s vitrines<br \/>\nA pesca do pirarucu ocorre em per\u00edodo fixo do ano nas chamadas \u00e1reas de manejo, no estado do Amazonas, e s\u00f3 30\u202f% dos adultos podem ser capturados; o restante fica para manter os estoques. O controle \u00e9 do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renov\u00e1veis (Ibama).<br \/>\nNo sistema de manejo, as pr\u00f3prias comunidades ficam respons\u00e1veis por vigiar e proteger os lagos nas \u00e1reas em que vivem para evitar invas\u00f5es. Com isso, tamb\u00e9m complementam suas rendas.<br \/>\nA esp\u00e9cie j\u00e1 esteve entre as amea\u00e7adas com risco de extin\u00e7\u00e3o e, por isso, sua pesca extrativa foi proibida no Amazonas nos anos 1990. Com o desenvolvimento dos projetos de manejo, a popula\u00e7\u00e3o de peixes voltou a crescer.<br \/>\nDepois da autoriza\u00e7\u00e3o do Ibama, as comunidades se re\u00fanem para organizar a pesca e a comercializa\u00e7\u00e3o por associa\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias das \u00e1reas de manejo.<br \/>\nVista a\u00e9rea de barcos de pesca na Reserva de Desenvolvimento Sustent\u00e1vel (RDS) Mamirau\u00e1, em Fonte Boa, estado do Amazonas, Brasil<br \/>\nAFP via Getty Images\/BBC<br \/>\n\u2018Falta o reconhecimento do pescador\u2019<br \/>\nDepois da pesca, a maior parcela do pirarucu vai para frigor\u00edficos, onde pele e carne s\u00e3o separadas. S\u00f3 ent\u00e3o essas peles podem seguir para curtumes, onde s\u00e3o transformadas em couro para fabricantes de cal\u00e7ados, bolsas e outros acess\u00f3rios.<br \/>\n\u00c9 nesta \u00faltima etapa que h\u00e1 a maior valora\u00e7\u00e3o do produto, segundo uma pesquisa conduzida pela organiza\u00e7\u00e3o sem fins lucrativos Opera\u00e7\u00e3o Amaz\u00f4nia Nativa (Opan) e publicada em 2018.<br \/>\nO estudo explica que o processamento da pele \u00e9 complexo e envolve v\u00e1rias etapas, como lavagem, molhos e banhos, retirada de escama, epiderme e gorduras, tingimento, secagem, recorte e costura. Tamb\u00e9m h\u00e1 uma s\u00e9rie de exig\u00eancias legais. Da\u00ed a dificuldade em se implementar a confec\u00e7\u00e3o desse material diretamente nas comunidades.<br \/>\nA pesquisa identificou uma concentra\u00e7\u00e3o de mercado: 95% das peles foram comercializadas por sete frigor\u00edficos e s\u00f3 5% pelas associa\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias.<br \/>\n\u201cO trabalho com as peles \u00e9 dif\u00edcil de aprender. Os manejadores est\u00e3o aprendendo como fazer o corte. \u00c9 um trabalho com muita tecnologia envolvida\u201d, diz Cristina Isis Buck Silva, respons\u00e1vel pela coordena\u00e7\u00e3o de uso sustent\u00e1vel da fauna e da biodiversidade do Ibama.<br \/>\nPedro Can\u00edzio, da Federa\u00e7\u00e3o dos Manejadores e Manejadoras de Pirarucu de Mamirau\u00e1, diz que consideraria um sistema mais justo no qual os manejadores recebessem uma parte do que \u00e9 ganho com a venda das peles.<br \/>\n\u201cMas, hoje, a gente n\u00e3o consegue. Com o pouco que lucramos com o manejo fazemos a vigil\u00e2ncia [dos lagos]\u201d, afirma Can\u00edzio.<br \/>\n\u201cO manejo do pirarucu deu certo. Falta o reconhecimento do pescador, tanto na venda da carne como dos subprodutos, como a pele. Para que as comunidades tenham qualidade de vida.\u201d<br \/>\nComunidade cria marca pr\u00f3pria, mas faltam recursos para processar couro<br \/>\nH\u00e1 tentativas de fazer o processamento do couro de forma mais pr\u00f3xima \u00e0s comunidades, mas os envolvidos dizem que faltam recursos.<br \/>\n\u201c\u00c9 uma ind\u00fastria cara, seria um novo neg\u00f3cio. No futuro, talvez, al\u00e9m de vender a carne do peixe, tamb\u00e9m possamos processar o couro\u201d, diz Ana Alice Oliveira de Britto, da Associa\u00e7\u00e3o dos Produtores Rurais de Carauari (Asproc), organiza\u00e7\u00e3o que representa 800 fam\u00edlias em 55 comunidades ribeirinhas.<br \/>\nUma das formas de fomentar e valorizar o trabalho dos manejadores foi a cria\u00e7\u00e3o do Coletivo do Pirarucu, em 2018, que re\u00fane comunidades locais, institutos de pesquisa e organiza\u00e7\u00f5es governamentais, como o pr\u00f3prio Ibama.<br \/>\nO grupo lan\u00e7ou a marca Gosto da Amaz\u00f4nia, gerida pela Asproc, com venda para outras regi\u00f5es do pa\u00eds, como sul e sudeste, mas com foco na carne.<br \/>\n\u201cO pescador chega a receber 40\u202f% a mais pelo peixe do que a m\u00e9dia comercializada na regi\u00e3o\u201d, diz Britto, da Asproc.<br \/>\nA entidade quer que futuramente esse modelo seja replicado para a pele do peixe. Para isso, Britto acredita que s\u00e3o necess\u00e1rias pol\u00edticas p\u00fablicas que invistam no setor, que ajudem os pr\u00f3prios pescadores a desenvolver tecnologia para fazer a convers\u00e3o em couro.<br \/>\n\u201cSe essa atividade n\u00e3o remunerar com justi\u00e7a e deixar de ser atraentes aos manejadores, a sociedade pode perder um importante aliado na conserva\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio amaz\u00f4nico, que poder\u00e1 migrar pra outras atividades mais danosas ao meio ambiente pra sustentar suas fam\u00edlias.\u201d<br \/>\nReuni\u00e3o do Coletivo do Pirarucu, em Manaus (AM)<br \/>\nIbama via BBC<br \/>\n\u2018N\u00e3o compramos peixe diretamente de pescadores nem definimos pre\u00e7os do peixe ou das peles\u2019<br \/>\nCouro de pirarucu \u00e9 usado por marcas de luxo, no Brasil e no exterior, para fazer acess\u00f3rios como bolsas e botas<br \/>\nGetty Images via BBC<br \/>\nUma empresa brasileira, a Nova Kaeru, domina o mercado do couro de pirarucu.<br \/>\nDados da plataforma Panjiva, que cont\u00e9m informa\u00e7\u00f5es sobre exporta\u00e7\u00f5es, obtidos pela BBC News Brasil, mostram que 70% do valor exportado de pirarucu e seus derivados em 2024 e 2025 estava concentrado nesta empresa.<br \/>\nUm outro estudo, com dados do Ibama de 2011 a 2018, chegou a um n\u00famero semelhante, de 68% das exporta\u00e7\u00f5es.<br \/>\nA marca \u00e9 fornecedora da maior parte das empresas que fabricam os acess\u00f3rios com este tipo de couro. Em seu cat\u00e1logo est\u00e3o expostas pe\u00e7as de marcas de luxo como Giorgio Armani, Dolce &amp; Gabbana e Givenchy.<br \/>\nA Nova Kaeru surgiu a partir de uma inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica: Eduardo Filgueiras, um de seus fundadores, criou uma t\u00e9cnica para que diferentes tipos de materiais ou couros fossem soldados, criando superf\u00edcies amplas e cont\u00ednuas.<br \/>\n\u201cEle \u00e9 desses cientistas que transformam e criam coisas verdadeiramente novas\u201d, diz o gerente de marketing Andr\u00e9 de Castro. \u201cO pirarucu j\u00e1 \u00e9 um couro grande por si, mas conseguimos fazer algo \u00fanico, de transformar v\u00e1rias pe\u00e7as em uma superf\u00edcie muito maior.\u201d<br \/>\nA inova\u00e7\u00e3o, diz Castro, \u00e9 o que explica esse pioneirismo. \u201cO mercado demorou pra entrar no pirarucu, at\u00e9 por ser uma tecnologia que n\u00e3o existia.\u201d<br \/>\nA maior parte da produ\u00e7\u00e3o da Nova Kaeru \u00e9 voltada \u00e0 exporta\u00e7\u00e3o, tendo como maiores clientes os EUA e o M\u00e9xico, onde s\u00e3o fabricadas botas do estilo country para o consumidor americano. O mercado de luxo, afirmam, representa s\u00f3 5% da demanda.<br \/>\nEssa concentra\u00e7\u00e3o de mercado \u00e9 vista com ressalvas. Um dos cr\u00edticos \u00e9 Adevaldo Dias, presidente do Memorial Chico Mendes, organiza\u00e7\u00e3o sediada em Manaus (AM) que atua no apoio aos manejadores.<br \/>\n\u201cO que mais nos incomoda no mercado da pele do pirarucu \u00e9 a n\u00e3o concorr\u00eancia\u201d, afirma Dias.<br \/>\n\u201cTem casos em que a pele \u00e9 entregue e leva mais de seis meses para receber o pagamento. E n\u00e3o h\u00e1 outra op\u00e7\u00e3o. \u00c9 um mercado pouco aquecido.\u201d<br \/>\nEle acredita que, para que as empresas fa\u00e7am uso da imagem de sustentabilidade e responsabilidade social, devem dar maior visibilidade \u00e0s demandas das comunidades.<br \/>\n\u201cSe h\u00e1 uma comunica\u00e7\u00e3o sobre uma rela\u00e7\u00e3o justa com a comunidade, essa rela\u00e7\u00e3o deveria, de fato, acontecer. As empresas precisam acompanhar o que acontece em toda a cadeia produtiva.\u201d<br \/>\nUm dos fundadores da Nova Kaeru, Andr\u00e9 Filgueiras<br \/>\nNova Kaeru\/Divulga\u00e7\u00e3o via BBC<br \/>\n\u2018Nosso papel n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 comprar a pele, mas investir na Amaz\u00f4nia\u2019<br \/>\nJos\u00e9 Leal Marques, diretor comercial da Nova Kaeru na Amaz\u00f4nia, diz que a empresa iniciou, na d\u00e9cada passada, o processo de aproveitamento da pele, antes descartada. E que as comunidades ainda n\u00e3o t\u00eam capacidade t\u00e9cnica para fazer essa separa\u00e7\u00e3o, algo que esperam viabilizar no futuro, permitindo compras diretas.<br \/>\n\u201cNosso papel n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 comprar a pele, mas investir na Amaz\u00f4nia, na qualifica\u00e7\u00e3o de m\u00e3o de obra, na pesca e captura do pirarucu\u201d, diz.<br \/>\nEle ressalta que retirar a mat\u00e9ria-prima no Amazonas, transport\u00e1-la e transform\u00e1-la \u00e9 um processo demorado e caro, envolvendo semanas de transporte e at\u00e9 seis meses de produ\u00e7\u00e3o antes de gerar retorno financeiro. Segundo ele, diante desses custos, o pre\u00e7o pago pela Nova Kaeru \u00e9 alto em compara\u00e7\u00e3o a outros couros e peles no mercado.<br \/>\nMarques avalia que h\u00e1 sim concorr\u00eancia, mas que ela vem do exterior: \u201cA Bol\u00edvia hoje pesca o ano todo, porque l\u00e1 o pirarucu \u00e9 considerado um peixe invasor [um organismo introduzido fora de sua \u00e1rea natural]\u201d.<br \/>\n\u201cEles concorrem conosco no mercado internacional com pre\u00e7os abaixo do que trabalhamos. Mesmo assim continuamos mantendo nosso pre\u00e7o de compra.\u201d<br \/>\nA Nova Kaeru tamb\u00e9m enviou, por e-mail, duas notas em que diz que n\u00e3o define pre\u00e7os do peixe ou das peles, e que os valores \u201cs\u00e3o negociados localmente entre associa\u00e7\u00f5es de pescadores e unidades de processamento.\u201d<br \/>\nO posicionamento da empresa \u00e0 BBC News Brasil tamb\u00e9m destacou os seguintes pontos:<br \/>\nSempre defendeu a remunera\u00e7\u00e3o justa em toda a cadeia produtiva. \u201cO pre\u00e7o da pele, quilo por quilo, \u00e9 superior ao da carne, o que representou ganho real de renda para as comunidades envolvidas no manejo.\u201d<br \/>\nA empresa compra peles h\u00e1 mais de uma d\u00e9cada, antes de haver demanda, investindo em processamento e mercado.<br \/>\nDestaca que n\u00e3o v\u00ea monop\u00f3lio no mercado e que outros curtumes processam pirarucu, mas que a empresa se destaca pelo pioneirismo e qualidade.<br \/>\nProcesso envolve custos altos com log\u00edstica, insumos importados, marketing e trabalho artesanal local.<br \/>\nSegmento de moda de luxo representa menos de 5% da demanda do pirarucu. A maior parte vai para as botas do segmento country nos EUA, e que o pre\u00e7o de venda do couro \u00e9 o mesmo em ambas as situa\u00e7\u00f5es. \u201cOs pre\u00e7os mais elevados do mercado de luxo n\u00e3o refletem qualquer diferen\u00e7a no valor recebido pela Nova Kaeru\u201d<br \/>\nMercado de moda de luxo teve papel fundamental como vitrine internacional do pirarucu<br \/>\n\u2018Cadeias complexas exigem a\u00e7\u00f5es coletivas\u2019<br \/>\nJ\u00e1 a Osklen e o Instituto-E, organiza\u00e7\u00e3o sem fins lucrativos parceira da marca, disseram que atuam h\u00e1 mais de 20 anos em diferentes cadeias produtivas sustent\u00e1veis. A empresa, pioneira na utiliza\u00e7\u00e3o do couro do pirarucu, destacou que marcas como Rick Owens, Burberry, Giorgio Armani hoje utilizam essa mat\u00e9ria prima, al\u00e9m das  nacionais.<br \/>\nAssim como a Nova Kaeru, a empresa destaca a complexidade do processo log\u00edstico e cita tamb\u00e9m os custos desenvolvimento, design, manufatura especializada, log\u00edstica, dentre outros, para justificar o valor final do produto que \u00e9 comercializado.<br \/>\nDiz ainda que reconhece que ainda existem \u201cgrandes desafios\u201d e que procura fortalecer projetos que atuem na transpar\u00eancia da cadeia produtiva.<br \/>\nDestacou ainda que cadeias complexas como a do pirarucu precisam de \u201ca\u00e7\u00f5es coletivas, que unam institui\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais, poder p\u00fablico, pesquisas cient\u00edficas e investimentos.\u201d<br \/>\n\u201cAinda existe um grande gap que s\u00f3 poder\u00e1 ser ocupado de fato por pol\u00edticas p\u00fablicas para que os elos iniciais da cadeia consigam adquirir tecnologias de beneficiamentos e, dessa forma\u201d, finalizou.<br \/>\nEm nota, a Piper &amp; Skye disse que \u201cest\u00e1 profundamente comprometida com o fornecimento \u00e9tico, a gest\u00e3o ambiental e as parcerias justas\u201d. Ressaltou que  trabalha exclusivamente com fornecedores confi\u00e1veis, como a Nova Kaeru, \u201ccujas pr\u00e1ticas s\u00e3o monitoradas pelo \u00f3rg\u00e3o ambiental brasileiro e que t\u00eam demonstrado apoio de longa data \u00e0 pesca sustent\u00e1vel e \u00e0s comunidades locais.\u201d<br \/>\nA marca diz que n\u00e3o est\u00e1 envolvida em pre\u00e7os ou negocia\u00e7\u00f5es na cadeia de suprimentos, mas que apoia \u201cfirmemente nossos valores e a integridade de nossos parceiros, cujo compromisso com a inova\u00e7\u00e3o, a rastreabilidade e o fornecimento respons\u00e1vel reflete o tipo de colabora\u00e7\u00e3o em que acreditamos \u2014 uma colabora\u00e7\u00e3o que respeita as pessoas e o planeta.\u201d<br \/>\n\u201cA Piper &amp; Skye continua dedicada \u00e0 transpar\u00eancia, \u00e0 responsabilidade e aos mais altos padr\u00f5es de \u00e9tica nos neg\u00f3cios.\u201d<br \/>\nFiscaliza\u00e7\u00e3o ao contrabando admite falhas<br \/>\nPeixe pode pesar mais de 200 quilos<br \/>\nBernardo Oliveira\/Asproc\/Divulga\u00e7\u00e3o via BBC<br \/>\nOutro problema que preocupa especialistas, al\u00e9m das desigualdades de mercado, \u00e9 a falta de controle sobre o contrabando do pirarucu.<br \/>\nA investiga\u00e7\u00e3o sobre a pesca ilegal no Amazonas estava entre as motiva\u00e7\u00f5es do assassinato do jornalista brit\u00e2nico Dom Phillips e do indigenista Bruno Pereira, mortos em 5 de junho de 2022, na regi\u00e3o da Terra Ind\u00edgena Vale do Javari. O crime mirava as atividades de Pereira em defesa dos povos ind\u00edgenas para coibir viola\u00e7\u00f5es ambientais.<br \/>\nUm levantamento feito pela BBC News Brasil nos dados do Ibama identificou 1,1 mil multas ambientais relacionadas ao pirarucu desde os anos 2000 \u2014 70% delas no Amazonas.<br \/>\nOs casos mais comuns s\u00e3o relacionados \u00e0 pesca ilegal e transporte do peixe sem autoriza\u00e7\u00e3o, mas a BBC tamb\u00e9m encontrou infra\u00e7\u00f5es por com\u00e9rcio n\u00e3o autorizado do couro.<br \/>\nO chefe do N\u00facleo de Fiscaliza\u00e7\u00e3o da Atividade Pesqueira do Ibama, Igor de Brito, diz que essa \u00e1rea do crime contra Phillips e Pereira tem apreens\u00f5es constantes do peixe \u2014 uma opera\u00e7\u00e3o foi instaurada depois dos assassinatos para investigar a atividade pesqueira no local.<br \/>\n\u201cA gente tem feito opera\u00e7\u00e3o l\u00e1 todo ano e, praticamente em todas, apreende pirarucu, tanto no rio quanto no mercado local\u201d, afirma Brito.<br \/>\n\u201cEm uma das a\u00e7\u00f5es chegamos a recolher cerca de uma tonelada, num mercado relativamente pequeno.\u201d<br \/>\nEle reconhece que os n\u00fameros de apreens\u00f5es podem n\u00e3o ser representativos.<br \/>\n\u201cNos faltam pernas para poder combater toda a irregularidade. A falta de m\u00e3o de obra e de fiscais com certeza dificulta muito o enfrentamento efetivo. Queria, por exemplo, poder realizar uma opera\u00e7\u00e3o toda semana no mercado do peixe de Manaus. Mas n\u00e3o damos conta, dada a demanda.\u201d<br \/>\n\u2018Com tanto peixe ilegal sendo capturado, algu\u00e9m est\u00e1 recebendo\u2019<br \/>\nOpera\u00e7\u00e3o no Amazonas apreende toneladas de pescado ilegal na regi\u00e3o do M\u00e9dio Solim\u00f5es, a 360km da capital. Dentre eles estava o pirarucu<br \/>\nInstituto de Prote\u00e7\u00e3o Ambiental do Amazonas (Ipaam) via BBC<br \/>\nBrito, do Ibama, avalia que o controle da cadeia produtiva do pirarucu est\u00e1 \u201cmuito aqu\u00e9m\u201d do que o \u00f3rg\u00e3o gostaria. Um dos desafios \u00e9 ter um sistema que acompanhe toda a cadeia produtiva, de ponta a ponta.<br \/>\nEle explica que quando o peixe sai das \u00e1reas manejadas, acompanha uma guia de transporte e um lacre preso ao couro. O problema surge quando o pirarucu \u00e9 fracionado. \u201cQuando ele vira couro, carne ou l\u00edngua, perco esse controle. Essa diversidade de usos dificulta um acompanhamento amplo\u201d, diz Brito.<br \/>\nNa pr\u00e1tica, o trabalho vira uma investiga\u00e7\u00e3o por etapas, sem um sistema que concentre os dados. \u201cSe chego a uma loja, pergunto de onde veio o produto. Vou subindo: f\u00e1brica, distribuidor, at\u00e9 chegar ao pescador. \u00c9 um processo prec\u00e1rio, mas \u00e9 o que temos.\u201d<br \/>\nPara Fernanda Alvarenga, autora do estudo sobre o mercado do couro do pirarucu no Amazonas, n\u00e3o h\u00e1 seguran\u00e7a de que o couro comprado pelas empresas do setor vem exclusivamente do manejo legal. E alerta para a falta de fiscaliza\u00e7\u00e3o nos rios e nos frigor\u00edficos.<br \/>\n\u201cCom tanto peixe ilegal sendo capturado, algu\u00e9m est\u00e1 recebendo, processando, comprando esse peixe e essa pele\u201d.<br \/>\nCOP30 \u2013 O que est\u00e1 acontecendo com o gelo da Ant\u00e1rtida?<\/div>\n<p>Fonte: <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/meio-ambiente\/cop-30\/noticia\/2025\/08\/18\/pele-de-peixe-gigante-da-amazonia-vira-bolsa-de-luxo-mas-ganho-nao-chega-a-pescadores.ghtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">G1 Entretenimento<\/a><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um pescador carrega um pirarucu na Reserva de Desenvolvimento Sustent\u00e1vel (RDS) Mamirau\u00e1, em Fonte Boa, estado do Amazonas AFP via Getty Images\/BBC Bolsas de luxo e acess\u00f3rios de couro que chegam a custar milhares de reais, no Brasil e em lojas nos Estados Unidos. O uso da pele espessa e resistente do pirarucu, peixe que<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":41075,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-41074","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-entretenimento"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/41074","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=41074"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/41074\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/wp-json\/wp\/v2\/media\/41075"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=41074"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=41074"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=41074"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}