{"id":41230,"date":"2025-08-21T12:03:19","date_gmt":"2025-08-21T15:03:19","guid":{"rendered":"https:\/\/www.farcomto.org\/album-que-deu-voz-a-joao-bosco-faz-50-anos-como-cronica-afiada-da-violencia-social-e-politica-do-brasil-dos-anos-1970\/"},"modified":"2025-08-21T12:03:19","modified_gmt":"2025-08-21T15:03:19","slug":"album-que-deu-voz-a-joao-bosco-faz-50-anos-como-cronica-afiada-da-violencia-social-e-politica-do-brasil-dos-anos-1970","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/album-que-deu-voz-a-joao-bosco-faz-50-anos-como-cronica-afiada-da-violencia-social-e-politica-do-brasil-dos-anos-1970\/","title":{"rendered":"\u00c1lbum que deu voz a Jo\u00e3o Bosco faz 50 anos como cr\u00f4nica afiada da viol\u00eancia social e pol\u00edtica do Brasil dos anos 1970"},"content":{"rendered":"<div>\n<div>\n<br \/>     Capa do \u00e1lbum \u2018Ca\u00e7a \u00e0 raposa\u2019 (1975), de Jo\u00e3o Bosco<br \/>\nIlustra\u00e7\u00e3o de Glauco Rodrigues<br \/>\n\u266b MEM\u00d3RIA<br \/>\n\u266b Mineiro de Ponte Nova (MG), onde nasceu 13 de julho de 1946, filho de liban\u00eas com mineira, Jo\u00e3o Bosco teve pr\u00e9-hist\u00f3ria musical no estado natal com direito \u00e0 breve parceria com o ent\u00e3o j\u00e1 consagrado Vinicius de Moraes (1913 \u2013 1980), firmada em 1967 em Ouro Preto (MG), cidade hist\u00f3rica onde Bosco procurou o poeta com dois sambas, Rosa dos ventos e Samba do pouso, as primeiras m\u00fasicas que Bosco fez na vida e que ganharam versos de Vinicius.<br \/>\nContudo, foi com outro parceiro, o bardo carioca Aldir Blanc (2 de setembro de 1946 \u2013 4 de maio de 2020), letrista de sintaxe singular na MPB, que Jo\u00e3o Bosco de Freitas Mucci fez nome e hist\u00f3ria na MPB a partir dos anos 1970, no Rio de Janeiro (RJ), cidade onde se lan\u00e7ou como cantor e compositor, apresentado no Disco de bolso do jornal O Pasquim em 1972, ano em que o mineiro decidiu fixar resid\u00eancia no Rio.<br \/>\nO reconhecimento como compositor, celebrado pela obra em parceria com Aldir, foi imediato. Avalista da dupla j\u00e1 na primeira hora, Elis Regina (1945 \u2013 1982) p\u00f4s a artilharia vocal a servi\u00e7o do samba Bala com bala em grava\u00e7\u00e3o feita para o \u00e1lbum Elis (1972).<br \/>\nBala com bala ganhou a voz de Jo\u00e3o Bosco em 1973, ano em que o cantor \u2013 contratado pela gravadora RCA \u2013 gravou e lan\u00e7ou o primeiro \u00e1lbum. Produzido por Rildo Hora, esse disco de 1973 nunca ecoou entre o p\u00fablico, talvez pela arquitetura intrincada. Bosco precisou esperar dois anos para se tornar um cantor popular e ter voz ativa como int\u00e9rprete da pr\u00f3pria obra.<br \/>\nLan\u00e7ado em 1975, o \u00e1lbum que deu voz a Jo\u00e3o Bosco, Ca\u00e7a \u00e0 raposa, completa 50 anos em 2025 como cr\u00f4nica afiada da viol\u00eancia social e pol\u00edtica no Brasil urbano dos anos 1970. Rildo Hora aparece creditado na ficha t\u00e9cnica pela coordena\u00e7\u00e3o art\u00edstica e dire\u00e7\u00e3o de est\u00fadio \u2013 no caso, o est\u00fadio da RCA Victor no Rio de Janeiro (RJ), onde o disco foi gravado e mixado em 16 canais, um luxo na \u00e9poca.<br \/>\nDiretor musical de Elis, C\u00e9sar Camargo Mariano tocou teclados e fez os arranjos e reg\u00eancias do \u00e1lbum Ca\u00e7a \u00e0 raposa, cuja capa exp\u00f4s ilustra\u00e7\u00e3o de Glauco Rodrigues.<br \/>\nOs arranjos de Mariano fizeram a diferen\u00e7a, inclusive porque foram executados por banda de sonhos. Dino Sete Cordas (1918 \u2013 2006) tocou viol\u00e3o. O baixo foi o de Luiz\u00e3o Maia (1949 \u2013 2005). Pascoal Meirelles assumiu a bateria enquanto o cavaquinho ficou com Daudeth Azevedo (1932 \u2013 2009), m\u00fasico creditado na ficha t\u00e9cnica com o apelido Neco. Chico Batera, Everaldo Ferreira, Gilberto D\u2019\u00c1vila (j\u00e1 falecido, mas \u00e0 \u00e9poca reverenciado entre os m\u00fasicos pela levada particular do pandeiro) e um m\u00fasico creditado como Doutor tocaram as percuss\u00f5es. J\u00e1 as guitarras foram divididas entre H\u00e9lio Delmiro (1947 \u2013 2025) e Toninho Horta.<br \/>\nEm que pese o time luxuoso de m\u00fasicos, o instrumento principal do \u00e1lbum Ca\u00e7a \u00e0 raposa \u2013 e a rigor de todos os discos de Jo\u00e3o Bosco \u2013 foi mesmo o viol\u00e3o em que Bosco faz baixarias enquanto embute refer\u00eancias do mundo, partindo da \u00c1frica e passando pelo barroco mineiro, pelo universo \u00e1rabe, pela m\u00fasica ib\u00e9rica, pela na\u00e7\u00e3o nordestina e pelo molejo carioca com personal\u00edssima destreza r\u00edtmica.<br \/>\nNo \u00e1lbum Ca\u00e7a \u00e0 raposa, todo esse arsenal instrumental valorizou repert\u00f3rio de excelente n\u00edvel, composto por dez m\u00fasicas assinadas por Jo\u00e3o Bosco com Aldir Blanc, algumas (as mais conhecidas) j\u00e1 apresentadas nas vozes de cantoras entre 1973 e 1974. Iniciada em Ponte Nova (MG) em 1969 e desenvolvida no Rio de Janeiro (RJ) a partir de 1970, a parceria de Jo\u00e3o e Aldir estava no auge.<br \/>\nLan\u00e7ado na voz de Elis em 1974, o samba-enredo O mestre-sala dos mares desfila majestoso na abertura do \u00e1lbum. De tom pol\u00edtico, o samba exalta Jo\u00e3o C\u00e2ndido (1880 \u2013 1969), militar ga\u00facho que, em novembro de 1910, comandou luta para abolir a chibata e a escravid\u00e3o na Marinha do Brasil, entrando para a Hist\u00f3ria como o Almirante Negro, s\u00edmbolo de resist\u00eancia contra o racismo.<br \/>\nNa sequ\u00eancia do disco, Bosco posiciona De frente por crime (1974), samba em que faz a cr\u00f4nica da viol\u00eancia urbana carioca com versos imag\u00e9ticos apresentados ao Brasil na voz de Simone no mesmo \u00e1lbum, Quatro paredes (1974), em que a cantora lan\u00e7ou Bodas de prata (1974), can\u00e7\u00e3o densa sobre os descompassos e as tra\u00e7as que roem os relacionamentos conjugais.<br \/>\nAp\u00f3s De frente pro crime, vem o bolero Dois pra l\u00e1, dois pra c\u00e1 (1974), lan\u00e7ado por Elis no ano anterior. O arranjo preciso de C\u00e9sar Camargo Mariano ambienta o bolero em apropriada atmosfera noturna, \u00edntima e sensual.<br \/>\nPrimeira m\u00fasica in\u00e9dita na disposi\u00e7\u00e3o do repert\u00f3rio no disco, Jardins de inf\u00e2ncia (1975) \u2013 composi\u00e7\u00e3o que seria gravada por Elis no ano seguinte no \u00e1lbum Falso brilhante (1976) \u2013 parte de universo l\u00fadico das brincadeiras de crian\u00e7as para dar o recado da dureza da vida adulta que nunca foi conto de fadas, sobretudo na \u00e9poca da ditadura. \u201cOlha o bobo na berlinda \/ Olha o pau no gato, pol\u00edcia e ladr\u00e3o \/ Tem carni\u00e7a e palmat\u00f3ria bem no teu port\u00e3o\u201d, alertava Bosco atr\u00e1s dos versos de Aldir.<br \/>\nOutra in\u00e9dita da safra do \u00e1lbum Ca\u00e7a \u00e0 raposa, Jandira da Gandaia (1975) \u00e9 m\u00fasica nunca regravada, nem mesmo por Bosco. Na letra, Aldir versa em tons quase sombrios sobre a personagem-t\u00edtulo Jandira da Gandaia em mais uma cr\u00f4nica urbana sobre amor, crime, morte e viol\u00eancia, temas recorrentes nos versos do samba Escada da Penha (1975), ao qual Bosco voltaria em discos ao vivo de 1983, 1992 e 2006.<br \/>\n\u201cMeu samba \u00e9 casa de marimbondo \/ Tem sempre enxame para quem mexer\u201d, avisou Bosco nos versos de Casa de marimbondo (1975), samba que cai em suingue fren\u00e9tico, evidenciando o apuro instrumental do \u00e1lbum Ca\u00e7a \u00e0 raposa.<br \/>\nM\u00fasica menos sedutora no conjunto da obra, o que talvez explique o fato de ter ficado esquecida no disco, Nessa data (1975) reitera que o couro comia no mundo e a quentura da chapa se refletia na alta temperatura das letras de Aldir Blanc.<br \/>\nM\u00fasica lan\u00e7ada por Elis no ano anterior e reavivada por Jo\u00e3o Bosco no show da corrente turn\u00ea Boca cheia de frutas (2025), a faixa-t\u00edtulo Ca\u00e7a \u00e0 raposa (1974) acende o fogo dos eternos recome\u00e7os da odisseia humana.<br \/>\nSamba de breque que ganhara o Brasil no canto vivaz de Maria Alcina, em grava\u00e7\u00e3o lan\u00e7ada um ano antes do \u00e1lbum Ca\u00e7a \u00e0 raposa, Kid Cavaquinho (1974) resiste ao tempo como uma das m\u00fasicas mais populares da safra de Bosco e Blanc no bi\u00eanio 1974-1975.<br \/>\nNo arremate do disco, Bosco canta Violeta de Belfort Roxo (1975), perfilando a tristonha personagem-t\u00edtulo da m\u00fasica em que Aldir versa sobre a f\u00e9 popular com fina ironia no verso final. Violeta de Belfort Roxo ficaria (mais ou menos) conhecida na grava\u00e7\u00e3o de Elis Regina, lan\u00e7ada em 1979 em compila\u00e7\u00e3o de sobras de discos da cantora, editada \u00e0 revelia de Elis, mas o registro de Jo\u00e3o Bosco \u00e9 t\u00e3o bom quanto o da cantora.<br \/>\nE o fato \u00e9 que, a partir do \u00e1lbum Ca\u00e7a \u00e0 raposa, Jo\u00e3o Bosco nunca mais deixou de ter voz ativa, passando a gravar com regularidade e a ser reconhecido tanto como compositor quanto como int\u00e9rprete sagaz da pr\u00f3pria obra e tamb\u00e9m de m\u00fasicas alheias.<br \/>\nJo\u00e3o Bosco canta a m\u00fasica-titulo do \u00e1lbum de 1975,, \u2018Ca\u00e7a \u00e0 raposa\u2019, no show da corrente turn\u00ea \u2018Boca cheia de frutas\u2019<br \/>\nVictor Correa \/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/div>\n<p>Fonte: <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/pop-arte\/musica\/blog\/mauro-ferreira\/post\/2025\/08\/21\/album-que-deu-voz-a-joao-bosco-faz-50-anos-como-cronica-afiada-da-violencia-social-e-politica-do-brasil-dos-anos-1970.ghtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">G1 Entretenimento<\/a><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Capa do \u00e1lbum \u2018Ca\u00e7a \u00e0 raposa\u2019 (1975), de Jo\u00e3o Bosco Ilustra\u00e7\u00e3o de Glauco Rodrigues \u266b MEM\u00d3RIA \u266b Mineiro de Ponte Nova (MG), onde nasceu 13 de julho de 1946, filho de liban\u00eas com mineira, Jo\u00e3o Bosco teve pr\u00e9-hist\u00f3ria musical no estado natal com direito \u00e0 breve parceria com o ent\u00e3o j\u00e1 consagrado Vinicius de Moraes<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":41231,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-41230","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-entretenimento"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/41230","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=41230"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/41230\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/wp-json\/wp\/v2\/media\/41231"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=41230"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=41230"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=41230"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}