{"id":41650,"date":"2025-08-30T09:02:11","date_gmt":"2025-08-30T12:02:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.farcomto.org\/verissimo-fez-graca-da-metafisica\/"},"modified":"2025-08-30T09:02:11","modified_gmt":"2025-08-30T12:02:11","slug":"verissimo-fez-graca-da-metafisica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/verissimo-fez-graca-da-metafisica\/","title":{"rendered":"Ver\u00edssimo fez gra\u00e7a da metaf\u00edsica"},"content":{"rendered":"<div>\n<div>\n<br \/>     Luis Fernando Verissimo, um dos maiores escritores do Brasil, morre aos 88 anos<br \/>\nClaro que Luiz Fernando Ver\u00edssimo vai ser para sempre lembrado por suas Com\u00e9dias da Vida Privada, pelas Mentiras que os Homens Contam, pelas Com\u00e9dias para se Ler na Escola. Mas trat\u00e1-lo como um cronista de humor sobre o cotidiano n\u00e3o faz justi\u00e7a total \u00e0 sua colossal obra.<br \/>\nVer\u00edssimo, em sua literatura refinada, fez gra\u00e7a da metaf\u00edsica \u2014 como nenhum grande escritor do Brasil nunca fez antes nem depois dele.<br \/>\nComo todo diligente investigador metaf\u00edsico, partiu do comezinho da vida para capturar o c\u00f3smico. Que tenha usado o humor para isso \u2014 logo ele, t\u00edmido e introspectivo ao longo de toda a vida \u2014 \u00e9 um tra\u00e7o revelador de sua op\u00e7\u00e3o \u2014 n\u00e3o s\u00f3 est\u00e9tica, mas \u00e9tica: o insond\u00e1vel pode ser engra\u00e7ado, e o mist\u00e9rio pode ser uma piada.<br \/>\nPor que nos desolarmos se, afinal, as respostas para as grandes quest\u00f5es permanecer\u00e3o eternamente escondidas da humanidade?<br \/>\nTalvez a ang\u00fastia valha um chiste, como ele sempre soube fazer ao colocar seus personagens em situa\u00e7\u00f5es, ao mesmo tempo, profundamente existenciais e banais, no limite entre o c\u00f4mico e o absurdo.<br \/>\nComo quando, em um de seus contos, dois homens que haviam estudado juntos na inf\u00e2ncia se veem frente a frente depois de d\u00e9cadas, nas condi\u00e7\u00f5es de \u2014 pelos sortil\u00e9gios e desigualdades da vida \u2014 assaltante e assaltado.<br \/>\nO cl\u00edmax ocorre na biblioteca deste, onde estaria o cofre. O homem tenta salvar a vida diante do colega armado, valendo-se de um arrazoado filos\u00f3fico que improvisa para tentar sensibilizar o assaltante. Esse \u00e9 o trunfo que, ingenuamente, o assaltado julga ter: o seu pensamento complexo, que p\u00f4de desenvolver ao longo de uma exist\u00eancia privilegiada. Mas o outro, encarnando no conto as necessidades da \u201cvida real\u201d, pouco se comove.<br \/>\nVer\u00edssimo exercita ali uma de suas brincadeiras favoritas: no fundo, a metaf\u00edsica salva ou n\u00e3o serve para nada?<br \/>\nEle faz o mesmo gracejo com a poesia, como fica evidenciado em seu bord\u00e3o \u201cpoesia numa hora dessas?\u201d, que nomeava uma se\u00e7\u00e3o frequente em suas colunas nos jornais. Eram descri\u00e7\u00f5es curt\u00edssimas de situa\u00e7\u00f5es tensas ou, por algum motivo, lim\u00edtrofes, em que algu\u00e9m sempre decidia poetizar, para o desespero dos demais envolvidos.<br \/>\nA poesia, afinal, \u00e9, como a metaf\u00edsica, uma tentativa apaixonada de tatear o todo.<br \/>\nEm sua ironia, Ver\u00edssimo deixa transparecer que, para ele, sim, toda hora era de poesia \u2014 e de filosofia.<br \/>\nEscritor brasileiro Luis Fernando Verissimo<br \/>\nMateus Bruxel\/ Ag\u00eancia RBS<br \/>\nAs pistas para os detetives<br \/>\nDois de seus personagens mais queridos e afamados s\u00e3o investigadores.<br \/>\nUm \u00e9 Ed Mort, pretensamente um detetive cl\u00e1ssico dos filmes noir, mas com particularidades que o tornam meio charlat\u00e3o.<br \/>\n\u00c9 o recurso que o autor usa  \u2014 e que se tornou uma de suas marcas \u2014 para alternar o tempo todo entre o te\u00f3rico e o pastiche.<br \/>\nEd Mort representa, na obra de Ver\u00edssimo, uma das faces de estupefa\u00e7\u00e3o diante do mist\u00e9rio. Nesse caso, a face concreta, das coisas mundanas, dos segredos dos homens e de suas vaidades ocas.<br \/>\nO outro investigador \u00e9 o Analista de Bag\u00e9, um psicanalista freudiano, mas tamb\u00e9m tradicional s\u00f3 at\u00e9 a p\u00e1gina 3. Esse douto profissional resolve temperar os achados do pai da psican\u00e1lise com seu famoso m\u00e9todo do \u201cjoelha\u00e7o\u201d, inspirado na sabedoria dos pampas (terra natal do autor), que resolve os dilemas mais profundos de seus pacientes com um golpe de joelho bem dado no meio da sess\u00e3o. O Analista ecoa o fasc\u00ednio de Ver\u00edssimo pelo mist\u00e9rio da alma, pelas profundezas do ser. E tamb\u00e9m aqui h\u00e1 a altern\u00e2ncia entre o s\u00e9rio e o irrespons\u00e1vel.<br \/>\nCita\u00e7\u00f5es \u00e0s teorias freudianas, ali\u00e1s, s\u00e3o frequentes, assim como a trechos das obras de grandes pensadores da hist\u00f3ria mundial, de livros sagrados e de artistas.<br \/>\nVer\u00edssimo, que era um leitor de tudo e um consumidor profundo de arte, retribu\u00eda o bem que outros autores lhe faziam buscando elaborar, ele mesmo, uma forma apetitosa de discuti-los com seu p\u00fablico.<br \/>\nUm de seus favoritos era o escritor argentino Jorge Luis Borges, que aparece em diversos trechos da obra de Ver\u00edssimo, ora jogando xadrez com o autor, ora ajudando a solucionar um intrincado caso policial.<br \/>\nPouco se diz sobre a semelhan\u00e7a da literatura de ambos, porque Borges \u00e9 visto pelo grande p\u00fablico como \u201ccomplicado\u201d, enquanto o brasileiro \u00e9 tido como um escritor acess\u00edvel.<br \/>\nEm que pese essa distin\u00e7\u00e3o ser, em parte, verdadeira, ambos t\u00eam muitas semelhan\u00e7as, e n\u00e3o \u00e9 exagero dizer que Ver\u00edssimo est\u00e1 muito mais perto de Borges do que se imagina.<br \/>\nEsses pontos de intersec\u00e7\u00e3o est\u00e3o principalmente nos temas metaf\u00edsicos (dos quais j\u00e1 falamos) disfar\u00e7ados de banalidades, na prosa extremamente curta e na meticulosa escolha das palavras.<br \/>\nProsa aned\u00f3tica<br \/>\nBorges dizia que publicava essencialmente contos curtos e ensaios porque tudo o que tinha para dizer cabia nesse formato \u2014 e porque tinha pregui\u00e7a para romances, ironizava.<br \/>\nPara isso, desenvolveu uma escrita t\u00e3o condensada e poderosa que cada palavra exerce, muitas vezes, o papel de cap\u00edtulos inteiros.<br \/>\n\u00c9 exatamente dessa arte que Ver\u00edssimo \u00e9 um dos mais ex\u00edmios representantes do Brasil no s\u00e9culo 20 e no 21 at\u00e9 aqui.<br \/>\nQuantas vezes ele abre um conto com um nome e, automaticamente, o leitor j\u00e1 sabe tudo que precisa saber sobre aquele personagem?<br \/>\nS\u00e3o os Pe\u00e7anhas das reparti\u00e7\u00f5es p\u00fablicas do Brasil, os Almeidas dos bares da boemia, as Soraias das mem\u00f3rias da juventude.<br \/>\nTodo um universo se descortina quando Ver\u00edssimo nos conta, por exemplo, de uma esposa que, na cama, relata ao marido que teve um primeiro namorado chamado \u201cMendoncinha\u201d.<br \/>\nOu quando, com apenas a cita\u00e7\u00e3o a um quase rid\u00edculo tra\u00e7o f\u00edsico, ele escancara a pot\u00eancia de algu\u00e9m: uma pinta perto da boca que leva quem a olha \u00e0 perdi\u00e7\u00e3o da lasc\u00edvia; um l\u00e1bio superior que treme infimamente quando a pessoa sorri; sobrancelhas que falam por si.<br \/>\nO sucinto se apresenta tamb\u00e9m na confec\u00e7\u00e3o de cen\u00e1rios que imediatamente nos transportam para a situa\u00e7\u00e3o visualizada pelo autor. Um de seus contos, \u201cBandeira Branca\u201d, come\u00e7a com um simples: \u201cEle, de tirol\u00eas. Ela, odalisca\u201d. E, n\u00f3s, que estamos lendo, sentimos todas as texturas dos bailes de Carnaval e nossos cora\u00e7\u00f5es palpitam pelo desfecho do anunciado romance da toda-poderosa frase inicial.<br \/>\nDespedida<br \/>\nCom gra\u00e7a e uma intelectualidade que aspirou ao Universo, mas queria ser lida nos bares, Luis Fernando Ver\u00edssimo nos falou de tudo que importa nesta curta, besta e espl\u00eandida vida. Do amor, do sexo, das pessoas, da ci\u00eancia, da pol\u00edtica, do tempo, do nada.<br \/>\nEm seus contos eternos, Dr\u00e1cula e Batman (dois morcegos, afinal, como o primeiro faz quest\u00e3o de ressaltar) trocaram experi\u00eancias existenciais, Einstein e Deus debateram a Teoria da Relatividade, casais improv\u00e1veis se formaram e grandes charlat\u00e3es tiveram seus dias de gl\u00f3ria.<br \/>\nA vida \u00e9 t\u00e3o absurda que pode muito bem ser eterna, como talvez especularia em suas reflex\u00f5es ordin\u00e1rias o delegado alem\u00e3o Friederich [Nietzsche?], que atua nos sub\u00farbios do Rio de Janeiro em um dos contos de Ver\u00edssimo.<br \/>\nA vida \u00e9 eterna, sim, enquanto houver um Ver\u00edssimo para ler, um Pe\u00e7anha no almoxarifado, um Almeida no jur\u00eddico e uma Ritinha na contabilidade.<\/div>\n<p>Fonte: <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/pop-arte\/noticia\/2025\/08\/30\/verissimo-fez-graca-da-metafisica.ghtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">G1 Entretenimento<\/a><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luis Fernando Verissimo, um dos maiores escritores do Brasil, morre aos 88 anos Claro que Luiz Fernando Ver\u00edssimo vai ser para sempre lembrado por suas Com\u00e9dias da Vida Privada, pelas Mentiras que os Homens Contam, pelas Com\u00e9dias para se Ler na Escola. 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