{"id":44098,"date":"2025-10-11T12:01:56","date_gmt":"2025-10-11T15:01:56","guid":{"rendered":"https:\/\/www.farcomto.org\/a-revista-em-quadrinhos-que-reinventou-leitura-para-criancas-no-brasil-ha-120-anos\/"},"modified":"2025-10-11T12:01:56","modified_gmt":"2025-10-11T15:01:56","slug":"a-revista-em-quadrinhos-que-reinventou-leitura-para-criancas-no-brasil-ha-120-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/a-revista-em-quadrinhos-que-reinventou-leitura-para-criancas-no-brasil-ha-120-anos\/","title":{"rendered":"A revista em quadrinhos que \u2018reinventou\u2019 leitura para crian\u00e7as no Brasil h\u00e1 120 anos"},"content":{"rendered":"<div>\n<div>\n<br \/>     Veja os v\u00eddeos que est\u00e3o em alta no g1<br \/>\nUma novidade chamou a aten\u00e7\u00e3o nas bancas do Rio de Janeiro h\u00e1 120 anos, na quarta-feira, 11 de outubro de 1905.<br \/>\nEm meio aos peri\u00f3dicos que informavam e entretinham a sociedade, uma publica\u00e7\u00e3o ilustrada e cheia de desenhos apelava ao olhar infantil: era a revistinha O Tico-Tico, considerada a primeira revista de hist\u00f3rias em quadrinhos do pa\u00eds.<br \/>\n\u201cEra uma revista criada para estimular as crian\u00e7as \u00e0 leitura, uma ideia moderna naquele momento\u201d, diz o cartunista e jornalista Jos\u00e9 Alberto Lovetro, o JAL, presidente da Associa\u00e7\u00e3o dos Cartunistas do Brasil.<br \/>\n\u201cFoi uma das pioneiras do mundo como revistas de quadrinhos, revista para crian\u00e7as nesse formato. E realmente conseguiu entrar nas escolas, estimular as crian\u00e7as \u00e0 leitura\u201d, analisa. \u201cPor isso temos uma tradi\u00e7\u00e3o aqui no Brasil de revistas em quadrinhos, abrindo caminho para desenhistas como o Mauricio de Sousa e o Ziraldo, que conseguiram manter esse p\u00fablico.\u201d<br \/>\nCom logotipo concebido pelo j\u00e1 consagrado desenhista e ilustrador \u00edtalo-brasileiro Angelo Agostini (1843-1910), O Tico-Tico ganhou o cora\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as com historinhas, personagens marcantes e passatempos.<br \/>\nAcabou abrindo espa\u00e7o para os quadrinhos no pa\u00eds ao mesmo tempo que criou uma ideia de mercado liter\u00e1rio voltado para a inf\u00e2ncia.<br \/>\n\u201cO cabe\u00e7alho criado por Agostini passa uma mensagem de pureza e inoc\u00eancia. As crian\u00e7as, retratadas como esp\u00e9cies de querubins, se divertem por entre as letras que formam o t\u00edtulo da revista\u201d, comenta a jornalista Sonia Bibe Luyten, criadora da primeira gibiteca do pa\u00eds e autora de O Que \u00c9 Hist\u00f3ria em Quadrinhos (Brasiliense, 1987), entre outros livros.<br \/>\nUm jornalzinho para crian\u00e7as<br \/>\nPublica\u00e7\u00e3o circulou at\u00e9 1977 e apresentou Mickey e Popeye ao p\u00fablico nacional<br \/>\nReprodu\u00e7\u00e3o\/Acervo Pessoal de Richardson Santos de Freitas<br \/>\nConforme a pedagoga C\u00edntia Borges de Almeida, professora na Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc), o corpo editorial da revista a anunciava com a miss\u00e3o de \u201cdivertir, estimular e ser \u00fatil \u00e0s petizadas do Brasil\u201d.<br \/>\nO Tico-Tico nasceu intitulando-se o \u201cjornal das crian\u00e7as\u201d. \u201c[Foi a] denomina\u00e7\u00e3o dada por seus fundadores\u201d, declara Almeida.<br \/>\nNo editorial de lan\u00e7amento da revista, foi publicado que o jornalzinho vinha \u201cpreencher uma lacuna\u201d por ser \u201cum jornal que se destina exclusivamente ao uso, \u00e0 leitura, ao prazer, \u00e0 distra\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as\u201d.<br \/>\n\u201cN\u00e3o queremos a aten\u00e7\u00e3o nem os aplausos da gente grande: os pequeninos, os inocentes, os simples formar\u00e3o o nosso p\u00fablico\u201d, anunciou a revista. \u201c\u00c9 para eles que escrevemos, e se conseguirmos agradar-lhes, teremos obtido o \u00fanico triunfo que ambicionamos.\u201d<br \/>\n\u201cO Tico-Tico n\u00e3o foi apenas uma revista de entretenimento infantil, mas um instrumento que demarca a expans\u00e3o da imprensa, a moderniza\u00e7\u00e3o dos meios de comunica\u00e7\u00e3o e \u00e9 um s\u00edmbolo para se analisar as estrat\u00e9gias editoriais para se divulgar ideias, pensamentos e projetos de sociedade\u201d, contextualiza a pedagoga.<br \/>\n\u201cOs livros possu\u00edam um lugar privilegiado e alcan\u00e7aram a prefer\u00eancia nos c\u00edrculos letrados. Diante desta predile\u00e7\u00e3o, o mercado editorial do jornal e das revistas cooptaram a aten\u00e7\u00e3o de diversas camadas sociais atrav\u00e9s de suas narrativas plurais, mais sintetizadas, possibilitando leitura de modo extensivo, atingindo p\u00fablicos leitores, mas tamb\u00e9m sendo instrumento de leituras p\u00fablicas, o que ampliou o seu alcance de p\u00fablicos de diferentes classes, alfabetizados ou n\u00e3o.\u201d<br \/>\nApesar dos elevados \u00edndices de analfabetismo, enquanto ocorria a populariza\u00e7\u00e3o da palavra impressa e da cultura letrada, diferentes ve\u00edculos impressos cumpriram papel alfabetizador, observa a professora.<br \/>\n\u201cIsso se deu com O Tico-Tico. N\u00e3o se trata de processo de alfabetiza\u00e7\u00e3o que substitua o lugar da escola, mas, ele tamb\u00e9m cumpriu um papel, ainda que informal, no processo educacional da sociedade\u201d, considera Almeida.<br \/>\nCoautor do livro O Tico-Tico \u2014 100 Anos (Opera Graphica, 2006) e vice-coordenador do Observat\u00f3rio de Hist\u00f3rias em Quadrinhos da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), o jornalista Roberto El\u00edsio dos Santos ressalta que a revista \u201cabriu o mercado para outras publica\u00e7\u00f5es do g\u00eanero\u201d no pa\u00eds.<br \/>\nPrincipalmente, com foco em \u201ccrian\u00e7as de uma classe alta\u201d, que \u201ciam para a escola, sabiam ler ou estavam em fase de alfabetiza\u00e7\u00e3o\u201d.<br \/>\n\u201cFoi importante para a forma\u00e7\u00e3o de leitores\u201d, pontua ele. \u201cE foi interessante porque era uma publica\u00e7\u00e3o que levava \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de outras, algo n\u00e3o comum naquela \u00e9poca. Por exemplo: aos fins de ano, tinha um almanaque com capa dura, lombada quadrada e mais p\u00e1ginas, que era o presente de Natal das crian\u00e7as.\u201d<br \/>\nInspira\u00e7\u00e3o francesa<br \/>\nA ideia da revista foi do jornalista Lu\u00eds Bartolomeu de Souza e Silva (1864-1932), que se inspirou em publica\u00e7\u00f5es semelhantes que circulavam na Fran\u00e7a.<br \/>\n\u201cO Tico-Tico era muito similar \u00e0s revistas infantis europeias do come\u00e7o do s\u00e9culo. Coloridas e moralistas. Muitas de suas hist\u00f3rias visavam \u00e0 educa\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as e \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de s\u00f3lidas convic\u00e7\u00f5es morais\u201d, enfatiza Maria Cristina Merlo, mestre em hist\u00f3ria em quadrinhos pela USP com o trabalho O Tico-Tico \u2014 Um S\u00e9culo de Hist\u00f3rias em Quadrinhos no Brasil.<br \/>\n\u201cTenho uma edi\u00e7\u00e3o de 1928 e eles tinham uma coisa diferenciada: colocavam quadrinhos na capa\u201d, atenta Lovetro, da Associa\u00e7\u00e3o dos Cartunistas do Brasil.<br \/>\nMerlo lembra, contudo, que n\u00e3o era s\u00f3 HQ. \u201cEspecificamente, \u00e9 preciso salientar que O Tico-Tico n\u00e3o era exatamente uma revista em quadrinhos, ou um gibi, como depois elas vieram a se denominar no pa\u00eds\u201d, ressalva. \u201cEra, muito mais, uma revista infantil.\u201d<br \/>\n\u201cMas ela come\u00e7ou a publicar quadrinhos desde seus primeiros anos de vida e, pouco a pouco, eles foram se tornando cada vez mais importantes para os leitores. Os quadrinhos foram, talvez, o principal motivo para a permanente popularidade de O Tico-Tico entre as crian\u00e7as brasileiras, gera\u00e7\u00e3o ap\u00f3s gera\u00e7\u00e3o\u201d, comenta Merlo.<br \/>\nA revista tinha por tr\u00e1s a estrutura profissional da editora que publicava O Malho, revista ilustrada que enfatizava a s\u00e1tira pol\u00edtica e o humor e que surgiu no ano de 1902, no Rio \u2014 a publica\u00e7\u00e3o era dirigida por Silva, o mesmo idealizador da infantil.<br \/>\n\u201c[O Tico-Tico] produziu um grande impacto no mercado editorial porque contava com toda a estrutura de profissionais, maquin\u00e1rio e distribui\u00e7\u00e3o do grupo O Malho\u201d, salienta o cartunista e biblioteconomista Richardson Santos de Freitas, o Ric, que estudou hist\u00f3rias em quadrinhos em pesquisa realizada na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).<br \/>\n\u201cIsso permitiu que os 10 mil exemplares de sua primeira edi\u00e7\u00e3o esgotassem rapidamente, necessitando de uma segunda edi\u00e7\u00e3o. A revista foi um grande sucesso, sem muita concorr\u00eancia por um longo per\u00edodo, chegando a alcan\u00e7ar a tiragem de 100 mil exemplares por semana\u201d, completa ele.<br \/>\nPl\u00e1gios e cria\u00e7\u00f5es<br \/>\nEntre os personagens de O Tico-Tico estavam cria\u00e7\u00f5es nacionais, republica\u00e7\u00f5es autorizadas de quadrinhos que faziam sucesso no exterior e at\u00e9 mesmo c\u00f3pias n\u00e3o-autorizadas.<br \/>\n\u00c9 o caso de Chiquinho, o personagem que chegou a ser o mais popular da revista.<br \/>\nNos anos 1950 soube-se que se tratava de um pl\u00e1gio: sem autoriza\u00e7\u00e3o, os brasileiros tinham copiado Buster Brown, do norte-americano Richard Felton Outcault (1863-1928).<br \/>\nEm defesa dos artistas da publica\u00e7\u00e3o nacional, vale ressaltar que Chiquinho ganhou contornos de menino brasileiro. \u201cCom o decorrer do tempo, o Chiquinho foi devidamente adaptado \u00e0 realidade cultural brasileira e tornou-se o personagem-s\u00edmbolo de O Tico-Tico\u201d, pontua Merlo.<br \/>\nEra um garoto de classe m\u00e9dia que, em suas hist\u00f3rias, estava ambientado no dia a dia de uma cidade t\u00edpica da \u00e9poca. Com o passar do tempo, ganhou coadjuvantes \u2014 Benjamin, um menino negro, e Jagun\u00e7o, um c\u00e3o, eram os mais recorrentes.<br \/>\n\u201cO personagem mais importante da revista foi sem d\u00favida Chiquinho, que todos pensavam ser um personagem genuinamente nacional. N\u00e3o era\u201d, diz o biblioteconomista Waldomiro Vergueiro, professor na USP e coautor do livro O Tico-Tico \u2014 100 Anos (Opera Graphica, 2006).<br \/>\nVergueiro conta que \u201co personagem durou pouco nos Estados Unidos, mas fez muito sucesso por aqui\u201d. \u201cQuando parou de ser publicado l\u00e1, os editores brasileiros encarregaram autores nacionais a continuar com as hist\u00f3rias\u201d, relata.<br \/>\n\u201cOs brasileiros criaram para o menino um companheiro de brinquedos, um garoto negro que era agregado da fam\u00edlia. Isso era muito comum na \u00e9poca. Hoje, reconhecemos nas hist\u00f3rias um tratamento extremamente racista, mas na \u00e9poca n\u00e3o era visto dessa forma\u201d, pondera o especialista.<br \/>\nEsse trio de personagens ficou t\u00e3o famoso que acabou sendo mencionado at\u00e9 em can\u00e7\u00e3o da MPB. S\u00e3o citados na m\u00fasica Lampi\u00e3o de G\u00e1s, cria\u00e7\u00e3o de Zica B\u00e9rgami (1913-2011) imortalizada na voz de Inezita Barroso (1925-2015).<br \/>\nNem tudo era pirataria. O Tico-Tico tinha contrato com os chamados syndicates americanos, as ag\u00eancias distribuidoras que se encarregavam de vender tiras de autores famosos nos Estados Unidos para todo o mundo.<br \/>\nFoi assim, portanto, que o roedor mais famoso do mundo estreou no Brasil pelas p\u00e1ginas da revista, nos anos 1930.<br \/>\nNo in\u00edcio, Mickey era chamado simplesmente de Ratinho Curioso. Mais tarde, se transformou em Camondongo Mickey, o Ratinho Curioso \u2014 com a grafia antiga de \u201ccamundongo\u201d.<br \/>\nFreitas situa no tempo essa hist\u00f3ria. O ratinho apareceu pela primeira vez na edi\u00e7\u00e3o de n\u00famero 1277, que saiu em 26 de mar\u00e7o de 1930 \u2014 apenas dois anos depois de ter sido criado por Walt Disney (1901-1966), portanto. A s\u00e9rie se chamava A Hist\u00f3ria do Ratinho Curioso.<br \/>\nQuatro anos mais tarde, a se\u00e7\u00e3o foi rebatizada como As Aventuras do Camondongo Mickey. \u201cA revista fazia quest\u00e3o de dizer que era uma exclusividade no Brasil\u201d, diz Freitas.<br \/>\nOutro personagem famoso a debutar no Brasil por meio de O Tico-Tico foi o marinheiro Popeye, rebatizado de Brocoi\u00f3. Krazy Kat, por sua vez, virou simplesmente Gato Maluco. O Gato F\u00e9lix foi outra cria\u00e7\u00e3o estrangeira que chegou ao p\u00fablico do pa\u00eds pelas p\u00e1ginas da revistinha.<br \/>\nQuadrinistas brasileiros tamb\u00e9m fizeram sucesso com suas cria\u00e7\u00f5es nas p\u00e1ginas da revista. \u00c9 o caso de J. Carlos, como assinava Jos\u00e9 Carlos de Brito e Cunha (1884-1950), que eternizou na publica\u00e7\u00e3o as hist\u00f3rias de Lamparina.<br \/>\nNessas historinhas, uma crian\u00e7a negra e careca aprontava todas as traquinagens em uma cidade do interior \u2014 atormentado os adultos.<br \/>\nLuyten lembra que J. Carlos carregava as influ\u00eancias do estilo art d\u00e9co em suas ilustra\u00e7\u00f5es. \u201cA ess\u00eancia de sua obra \u00e9 toda ela envolvida por esse movimento\u201d, diz.<br \/>\n\u201cLamparina, \u00e9 o prot\u00f3tipo de uma enfant terrible [\u201ccrian\u00e7a terr\u00edvel\u201d, na tradu\u00e7\u00e3o literal do franc\u00eas]\u201d, analisa.<br \/>\nMuitos pensam ser do sexo masculino, mas \u00e9, na realidade, uma menina imp\u00fabere com cerca de dez anos, que, vinda de uma ilha distante, integra-se oficialmente ao elenco de personagens de O Tico-Tico em 25 de abril de 1928, lembra a autora do livro O Que \u00c9 Hist\u00f3ria em Quadrinhos.<br \/>\n\u201cO fato de ser confundida com um menino deve-se \u00e0 reduzida tanga amarela estampada com bolas pretas que lhe deixa nu o busto ainda sem caracter\u00edsticas femininas. O cabelo curto encarapinhado, o corpinho magro e desengon\u00e7ado e seu temperamento irrequieto d\u00e3o-lhe, no m\u00ednimo, um aspecto andr\u00f3gino\u201d, contextualiza Luyten.<br \/>\nFreitas conta que J. Carlos chegou a desenhar o Mickey em pe\u00e7as publicit\u00e1rias publicadas na revista O Tico-Tico.<br \/>\nE quando Disney visitou o Brasil, em 1941, \u201cconheceu os desenhos do artista\u201d. \u201cFez um convite de trabalho a J. Carlos, que recusou\u201d, afirma.<br \/>\nReco-Reco, Bol\u00e3o e Azeitona, trio de amigos trapalh\u00f5es criados pelo caricaturista Luiz S\u00e1 (1907-1979) tamb\u00e9m conquistaram logo os leitores da publica\u00e7\u00e3o.<br \/>\nPioneira na pesquisa de quadrinhos no Brasil, Luyten lembra que o \u00eaxito da O Tico-Tico tem muito a ver com a maneira como a publica\u00e7\u00e3o se aproveitou do talento dos maiores das artes gr\u00e1ficas do pa\u00eds naquele tempo.<br \/>\n\u201cNa minha opini\u00e3o, o grande m\u00e9rito da revista foi ter dois nomes gigantes das hist\u00f3rias em quadrinhos brasileiras: Angelo Agostini e J. Carlos\u201d, diz.<br \/>\nEla afirma que ainda h\u00e1 um \u201cdesconhecimento generalizado\u201d dos primeiros personagens feitos por eles, \u201cem parte, pela dificuldade de encontrar e mesmo consultar\u201d antigas cole\u00e7\u00f5es.<br \/>\nPais e filhos<br \/>\nAl\u00e9m do forte apelo \u00e0 crian\u00e7ada, especialistas acreditam que parte do sucesso de O Tico-Tico precisa ser creditado \u00e0 maneira como a revista conseguia dialogar tamb\u00e9m com os adultos \u2014 no caso, os pais que compravam a publica\u00e7\u00e3o para seus filhos.<br \/>\n\u201cEstamos falando de uma revista com ampla circula\u00e7\u00e3o e com uma longevidade de mais de 50 anos, no Brasil. Ela interferiu na forma\u00e7\u00e3o educacional e cultural de diferentes gera\u00e7\u00f5es populacionais do Brasil\u201d, ressalta Almeida, destacando que a revista serviu como um espa\u00e7o de incentivo \u00e0 leitura, mas n\u00e3o s\u00f3 isso.<br \/>\n\u201c\u00c9 preciso problematizar o conte\u00fado dos seus textos. Estamos falando de uma revista colorida, de muitas p\u00e1ginas, muitas imagens, muitas ilustra\u00e7\u00f5es, com propagandas, com atividades did\u00e1ticas, charges e caricaturas\u201d, completa.<br \/>\nA pesquisadora lembra que o modelo \u2014 um jornal para crian\u00e7as comprado por adultos \u2014 precisava mirar nos pequenos, mas cativar os pais.<br \/>\n\u201cComo os pais avaliariam o conte\u00fado da revista se n\u00e3o a lessem?\u201d, questiona ela.<br \/>\nAssim, houve um esfor\u00e7o da publica\u00e7\u00e3o em mostrar aos adultos que a revistinha conferia aos pequenos uma \u201cforma\u00e7\u00e3o considerada adequada\u201d, diz Almeida.<br \/>\n\u201cEssas revistas eram a televis\u00e3o da \u00e9poca. Era preciso alguma coisa para as crian\u00e7as e a leitura \u00e9 o melhor brinquedo\u201d, diz Lovetro.<br \/>\nA revista circulou de forma constante e peri\u00f3dica at\u00e9 1962. A partir de ent\u00e3o se tornou um t\u00edtulo de publica\u00e7\u00f5es eventuais, sobretudo em edi\u00e7\u00f5es de cunho paradid\u00e1tico \u2014 conte\u00fados de geografia, de hist\u00f3ria ou de literatura, direcionados ao uso em sala de aula, por exemplo.<br \/>\n\u201cHavia edi\u00e7\u00f5es bem educativas, tipo cartilhas para a escola\u201d, comenta Lovetro.<br \/>\nDesde o in\u00edcio, a revista teve uma vis\u00e3o educativa e formativa. Era dirigida aos pais, que compravam as edi\u00e7\u00f5es para os filhos e os incentivavam a ler, diz Vergueiro.<br \/>\n\u201cGrande parte da publica\u00e7\u00e3o era composta por mat\u00e9rias com vi\u00e9s educacional, com contos, f\u00e1bulas, conselhos, hist\u00f3rias moralizantes. As crian\u00e7as eram atra\u00eddas pelas figuras, jogos, brincadeiras e hist\u00f3rias em quadrinhos\u201d, completa.<br \/>\nEsse apelo junto aos pais influenciava nos an\u00fancios, \u00e9 claro. \u201cTinha propaganda de marmelada. Mas tamb\u00e9m de cigarro e rem\u00e9dios, algo que pode ser um espanto hoje\u201d, afirma Santos.<br \/>\nVergueiro afirma ainda que a revista soube explorar varia\u00e7\u00f5es, sempre apresentando \u201cnovidades e personagens interessantes\u201d.<br \/>\n\u201cManteve-se em bancas durante d\u00e9cadas, encantando gera\u00e7\u00f5es\u201d, diz. \u201cTentou se adaptar, mas aos poucos seu modelo de publica\u00e7\u00f5es variadas foi ficando datado e ela foi perdendo espa\u00e7o para outras publica\u00e7\u00f5es e m\u00eddias.\u201d<br \/>\nA \u00faltima O Tico-Tico, de n\u00famero 2097, foi publicada em 1977.<\/div>\n<p>Fonte: <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/pop-arte\/noticia\/2025\/10\/11\/a-revista-em-quadrinhos-que-reinventou-leitura-para-criancas-no-brasil-ha-120-anos.ghtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">G1 Entretenimento<\/a><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Veja os v\u00eddeos que est\u00e3o em alta no g1 Uma novidade chamou a aten\u00e7\u00e3o nas bancas do Rio de Janeiro h\u00e1 120 anos, na quarta-feira, 11 de outubro de 1905. 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