{"id":45866,"date":"2025-11-12T06:02:55","date_gmt":"2025-11-12T09:02:55","guid":{"rendered":"https:\/\/www.farcomto.org\/rosalia-madonna-conclave-por-que-a-cultura-pop-e-fascinada-pelo-catolicismo\/"},"modified":"2025-11-12T06:02:55","modified_gmt":"2025-11-12T09:02:55","slug":"rosalia-madonna-conclave-por-que-a-cultura-pop-e-fascinada-pelo-catolicismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/rosalia-madonna-conclave-por-que-a-cultura-pop-e-fascinada-pelo-catolicismo\/","title":{"rendered":"Rosal\u00eda, Madonna, \u2018Conclave\u2019: por que a cultura pop \u00e9 fascinada pelo catolicismo?"},"content":{"rendered":"<div>\n<div>\n<br \/>     De onde vem o fasc\u00ednio da cultura pop pelo catolicismo?<br \/>\nCoral de igreja, h\u00e1bito de freira, aur\u00e9ola nos cabelos. A catal\u00e3 Rosal\u00eda entrou de vez no universo cat\u00f3lico com seu disco \u201cLux\u201d, lan\u00e7ado na semana passada. N\u00e3o \u00e0 toa: no ano p\u00f3s \u201cConclave\u201d (2024), e com o primeiro escolha de Papas que teve memes em tempo real, a Igreja Cat\u00f3lica tem marcado presen\u00e7a no nosso repert\u00f3rio cultural como n\u00e3o fazia h\u00e1 algum tempo.<br \/>\nVolta e meia, a Igreja volta a ser pop. Madonna que o diga: a cultura tem um caso de amor e obsess\u00e3o pelo catolicismo, o que n\u00e3o \u00e9 exatamente rec\u00edproco. Isso, claro, \u00e9 parte do apelo \u2014 ter a Igreja Cat\u00f3lica condenando a sua arte \u00e9 uma esp\u00e9cie de chancela. At\u00e9 porque, se voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 ningu\u00e9m, o Papa n\u00e3o vai se dar ao trabalho.<br \/>\nMas o que na Igreja atrai tanto os artistas (e o p\u00fablico) e por que esse tema sempre volta? Entenda:<br \/>\nO Papa \u00e9 mesmo pop<br \/>\nPrimeiramente, existe um argumento muito simples: o catolicismo \u00e9 um fundamento da sociedade ocidental. Por aqui, ningu\u00e9m precisa ser padre (ou sequer batizado) pra reconhecer de longe uma refer\u00eancia \u00e0 Igreja Cat\u00f3lica.<br \/>\nJ\u00e1 \u00e9 uma linguagem pop, digamos. Ent\u00e3o, \u00e9 claro que a cultura vai refletir esse repert\u00f3rio onipresente. \u201cA gente \u00e9 uma sociedade muito marcada pelo catolicismo como refer\u00eancia. N\u00e3o tem como fugir disso\u201d, diz David Moreno-C\u00e1rdenas, psicanalista e professor da Universidade Federal da Para\u00edba (UFPB).<br \/>\nAli\u00e1s, o catolicismo e a arte compartilham uma hist\u00f3ria milenar. Foi na Igreja Cat\u00f3lica que a teoria musical ocidental se desenvolveu; foi atendendo a pedidos de sacerdotes, ou inspirados nesse universo, que muitos pintores fizeram suas obras-primas. Dessa rela\u00e7\u00e3o, nasceram imagens que s\u00e3o refer\u00eancia at\u00e9 hoje, como \u201cA \u00daltima Ceia\u201d, de Da Vinci, e \u201cA Cria\u00e7\u00e3o de Ad\u00e3o\u201d, de Michelangelo.<br \/>\nAriana Grande faz refer\u00eancia \u00e0 obra \u2018Cria\u00e7\u00e3o de Ad\u00e3o\u2019 no clipe de \u2018God is a Woman\u2019<br \/>\nReprodu\u00e7\u00e3o\/YouTube<br \/>\nMesmo hoje, muitos artistas aprendem m\u00fasica gra\u00e7as ao contato com ambientes religiosos, e a nossa percep\u00e7\u00e3o cultural ainda \u00e9 muito atravessada por esses ensinamentos. Aprendemos a associar o coral e o canto l\u00edrico ao divino, por exemplo.<br \/>\nApesar disso, nos Estados Unidos, falar em catolicismo n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa que aqui. A pesquisadora Helen Teixeira estuda religi\u00e3o na Yale Divinity School  Ela refor\u00e7a que, historicamente, o catolicismo \u00e9 minoria nos EUA \u2014 tanto que imigrantes cat\u00f3licos, como italianos e irlandeses, foram racializados por n\u00e3o serem protestantes.<br \/>\nEnt\u00e3o, se por um lado, artistas \u00edtalo-americanas como Madonna e Lady Gaga querem questionar s\u00edmbolos cat\u00f3licos, por outro, elas os usam como reafirma\u00e7\u00e3o da comunidade de onde v\u00eam.<br \/>\n\u201cNa cultura, esses s\u00edmbolos religiosos v\u00e3o al\u00e9m da f\u00e9 individual de cada um necessariamente. Tem a ver tamb\u00e9m com uma afirma\u00e7\u00e3o cultural, comunit\u00e1ria, dessas comunidades de imigrantes\u201d, diz a especialista.<br \/>\nJ\u00e1 Rosal\u00eda vem da Espanha, um pa\u00eds em que o catolicismo \u00e9 enraizado, e canta em treze idiomas no disco \u201cLux\u201d. No caso dela, a est\u00e9tica religiosa facilita a compreens\u00e3o desse trabalho: voc\u00ea pode n\u00e3o entender o idioma, mas basta ver as imagens (ou ouvir a m\u00fasica) para sacar a inten\u00e7\u00e3o. J\u00e1 diria a cantora: \u201cSou uma cidad\u00e3 do mundo\u201d.<br \/>\nAl\u00e9m do mais, essa tem\u00e1tica tamb\u00e9m n\u00e3o faz mal comercialmente. Abordar (e incomodar) a igreja sempre tem um poderoso efeito de marketing \u2014 e hoje, mais do que nunca, a pol\u00eamica \u00e9 um dos principais motores da fama e do dinheiro.<br \/>\nInitial plugin text<br \/>\nO fasc\u00ednio pela imagem<br \/>\nA Igreja Cat\u00f3lica fascina artistas porque \u00e9 rica em imagens e hist\u00f3rias, dois elementos primordiais para a cultura. Qualquer pessoa que j\u00e1 entrou em uma catedral ou abriu uma B\u00edblia sabe que, est\u00e9tica e narrativamente, n\u00e3o falta inspira\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u201cA Igreja Cat\u00f3lica cria uma est\u00e9tica pr\u00f3pria para simbolizar a transcend\u00eancia espiritual, essa abstra\u00e7\u00e3o religiosa em \u00edcones, em s\u00edmbolos, em imagens. Isso, para a cultura pop, \u00e9 um prato cheio. Ent\u00e3o, ela pega esse conjunto de imagens e transforma isso, vai dessacralizar esses s\u00edmbolos. Quando a gente v\u00ea os artistas se apropriando disso, tem muitas vezes ali uma cr\u00edtica, uma contesta\u00e7\u00e3o, uma ressignifica\u00e7\u00e3o\u201d, diz Mariana Lins, pesquisadora em cultura pop pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).<br \/>\nRalph Fiennes interpreta o cardeal Lawrence no filme \u2018Conclave\u2019<br \/>\nDivulga\u00e7\u00e3o<br \/>\nNo mundo de hoje, em que os objetos s\u00e3o cada vez menos presentes \u2014 tudo \u00e9 online, passageiro e pouco palp\u00e1vel \u2014, os rituais e imagens tradicionais do catolicismo podem ter ganhado mais impacto. Por outro lado, quanto mais a tecnologia e o mundo mudam por interven\u00e7\u00e3o humana, mais desafios a f\u00e9 enfrenta.<br \/>\n\u00c9 a\u00ed que entra um filme como \u201cConclave\u201d, por exemplo: respondendo \u00e0 curiosidade de como uma institui\u00e7\u00e3o milenar se mant\u00e9m de p\u00e9 nos dias de hoje. E como, por tr\u00e1s da faceta sagrada, os sacerdotes ainda s\u00e3o seres humanos (com crises de f\u00e9, inclusive).<br \/>\nAssim como o catolicismo tem uma infinidade de s\u00edmbolos, us\u00e1-los pode ter v\u00e1rios significados. Afinal, uma igreja \u00e9, ao mesmo tempo, intimidadora e contemplativa; \u00e9 misteriosa e ornamentada; \u00e9 luz e sombra. Tudo depende de quem usa esse repert\u00f3rio, como, e por qu\u00ea.<br \/>\nDa madona \u00e0 Madonna<br \/>\nMadonna no controverso clipe de \u2018Like a Prayer\u2019<br \/>\nReprodu\u00e7\u00e3o\/YouTube<br \/>\nNa maior parte das vezes, recuperar (e desafiar) esse tema na cultura pop tem a ver com transgress\u00e3o e liberdade. Afinal, o catolicismo lida muito com as ideias de controle e disciplina: tem a culpa crist\u00e3, o celibato obrigat\u00f3rio e os conceitos de pecado e perd\u00e3o.<br \/>\nEsses conceitos formaram uma parte significativa da nossa sociedade, patriarcal e hier\u00e1rquica, e recaem mais sobre uns que outros. N\u00e3o \u00e0 toa, o catolicismo aparece tanto na obra de artistas femininas: \u201ctem esse lugar imaculado da mulher, que a Igreja Cat\u00f3lica promove, e que essas mulheres v\u00e3o chegar l\u00e1 para subverter\u201d, diz David.<br \/>\nNa religi\u00e3o cat\u00f3lica, mulheres representam sofrimento, altru\u00edsmo e pureza, mas n\u00e3o ganham o mesmo tipo de adora\u00e7\u00e3o: como o pr\u00f3prio Papa Le\u00e3o XIV refor\u00e7ou recentemente, nem a chamada \u201cM\u00e3e de Deus\u201d deve ser venerada.<br \/>\nPara algu\u00e9m como Madonna, sempre coube questionar essa figura da mulher \u201csanta\u201d e passiva. Ali\u00e1s, com um nome de batismo que significa \u201cnossa senhora\u201d em italiano, Madonna era predestinada a se relacionar com o catolicismo \u2014 e, claro, cresceu em um lar religioso e tradicional. Para ela (assim como muitos de n\u00f3s), a Igreja foi a primeira refer\u00eancia de disciplina e regras na vida cotidiana.<br \/>\nEnt\u00e3o, a cultura pop permitiu a ela quebrar tabus e desafiar um pouco essas normas. Mariana argumenta que Madonna sempre buscou exatamente essa subvers\u00e3o: ao reivindicar s\u00edmbolos cat\u00f3licos, a cantora fala de feminismo, de sexualidade e de pol\u00edtica. E coloca em xeque o que \u00e9 sagrado, o que \u00e9 profano e at\u00e9 onde o ser humano vai \u201cem nome de Deus\u201d.<br \/>\nAtrav\u00e9s do humor, a s\u00e9rie \u201cFleabag\u201d mostra um racioc\u00ednio parecido com o de Madonna. A religi\u00e3o \u00e9 o fio condutor da segunda temporada, em que a protagonista se apaixona (e tenta seduzir) um padre cat\u00f3lico. Dessa forma, a autora Phoebe Waller-Bridge reflete sobre o lugar do corpo e do desejo feminino (e por que, por defini\u00e7\u00e3o, ele \u00e9 associado ao pecado).<br \/>\n\u201cV\u00e1rios autores falam sobre a utiliza\u00e7\u00e3o dessa est\u00e9tica cat\u00f3lica para pensar essa forma de disciplinar, pela vida mon\u00e1stica, celibat\u00e1ria, o corpo e o desejo. Na cultura, essa iconografia muitas vezes se apresenta como uma v\u00e1lvula de escape para toda essa repress\u00e3o\u201d, afirma Mariana.<br \/>\nLil Nas X em clipe de \u2018Montero (Call Me By Your Name)\u2019<br \/>\nReprodu\u00e7\u00e3o\/YouTube\/Lil NasX<br \/>\nO catolicismo tamb\u00e9m serve para reflex\u00f5es sobre a masculinidade, como fez o artista Lil Nas X. Gay assumido (e, portanto, condenado a \u201cqueimar no fogo eterno\u201d), ele imaginou um inferno divertido no clipe de \u201cCall Me By Your Name\u201d.<br \/>\nAssim, ele inverte um pouco a l\u00f3gica da religi\u00e3o: j\u00e1 que n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para ele no c\u00e9u, Lil Nas n\u00e3o tenta se negar para alcan\u00e7ar a reden\u00e7\u00e3o \u2014 simplesmente \u201cabra\u00e7a o capeta\u201d.<br \/>\nUma rela\u00e7\u00e3o sociopol\u00edtica<br \/>\nO assunto nunca desaparece, mas h\u00e1 \u00e9pocas em que a Igreja fica mais recorrente na cultura pop. Para Mariana, d\u00e1 para fazer um paralelo: quando o catolicismo volta a ser tema, \u00e9 porque, provavelmente, vem como resposta ou reflex\u00e3o sobre o momento sociopol\u00edtico. E historicamente, o catolicismo costuma estar associado ao conservadorismo.<br \/>\n\u201cExiste uma tend\u00eancia nesse tema do conservadorismo, de vir \u00e0 tona a partir desse repert\u00f3rio do catolicismo em momentos de muita tens\u00e3o pol\u00edtica. Ascens\u00e3o do conservadorismo, da extrema-direita\u2026 tem uma liga\u00e7\u00e3o, sim\u201d.<br \/>\nFoi assim com Madonna, que lan\u00e7ou \u201cLike a Prayer\u201d durante o governo de Ronald Reagan e na epidemia da AIDS nos EUA; ou Almod\u00f3var, que lan\u00e7ou \u201cMaus H\u00e1bitos\u201d, uma com\u00e9dia sobre freiras, enquanto a Espanha se recuperava da ditadura franquista. At\u00e9 Rita Lee usou Eva e o \u201cfruto proibido\u201d, nos anos 70, em tempos de repress\u00e3o e censura no Brasil.<br \/>\nRita Lee se veste de Nossa Senhora ao abrir show dos Rolling Stones, em 1995<br \/>\nReprodu\u00e7\u00e3o<br \/>\nEntre os idiomas escolhidos por Rosal\u00eda em \u201cLux\u201d, h\u00e1 letras em hebreu e \u00e1rabe. Nada mais atual. Ainda que ela n\u00e3o tenha a inten\u00e7\u00e3o de acabar com os conflitos em Gaza atrav\u00e9s do disco, existe uma rela\u00e7\u00e3o clara entre o que est\u00e1 acontecendo globalmente e a produ\u00e7\u00e3o pop que ela entrega.<br \/>\nAfinal, essa \u00e9 uma \u201cmiss\u00e3o\u201d importante das obras pop: pra vender e fazer sucesso, \u00e9 preciso dialogar com o mundo. Se o mundo est\u00e1 falando em Deus e religi\u00e3o, a cultura pop tende a seguir o mesmo caminho.<\/div>\n<p>Fonte: <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/pop-arte\/noticia\/2025\/11\/12\/rosalia-madonna-conclave-por-que-a-cultura-pop-e-fascinada-pelo-catolicismo.ghtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">G1 Entretenimento<\/a><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De onde vem o fasc\u00ednio da cultura pop pelo catolicismo? Coral de igreja, h\u00e1bito de freira, aur\u00e9ola nos cabelos. A catal\u00e3 Rosal\u00eda entrou de vez no universo cat\u00f3lico com seu disco \u201cLux\u201d, lan\u00e7ado na semana passada. 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