{"id":45868,"date":"2025-11-12T06:02:56","date_gmt":"2025-11-12T09:02:56","guid":{"rendered":"https:\/\/www.farcomto.org\/rap-fora-do-top-40-da-billboard-apos-35-anos-expoe-crise-criativa-e-despolitizacao-do-estilo\/"},"modified":"2025-11-12T06:02:56","modified_gmt":"2025-11-12T09:02:56","slug":"rap-fora-do-top-40-da-billboard-apos-35-anos-expoe-crise-criativa-e-despolitizacao-do-estilo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/rap-fora-do-top-40-da-billboard-apos-35-anos-expoe-crise-criativa-e-despolitizacao-do-estilo\/","title":{"rendered":"Rap fora do top 40 da \u2018Billboard\u2019 ap\u00f3s 35 anos exp\u00f5e crise criativa e despolitiza\u00e7\u00e3o do estilo"},"content":{"rendered":"<div>\n<div>\n<br \/>     Rap fora do top 40 da Billboard ap\u00f3s 35 anos exp\u00f5e crise criativa e despolitiza\u00e7\u00e3o do rap<br \/>\nPela primeira vez em 35 anos, nenhuma m\u00fasica de rap aparece entre as 40 mais ouvidas da Billboard Hot 100. Esse dado da \u00faltima semana acendeu um alerta sobre o atual momento do g\u00eanero, que por d\u00e9cadas foi sin\u00f4nimo de nova\u00e7\u00e3o, rebeldia e posicionamento pol\u00edtico.<br \/>\nMas o que esse sil\u00eancio nas paradas diz sobre o rumo do hip hop? O n\u00famero reflete uma queda de interesse pelo rap mainstream, que hoje vive um ciclo de repeti\u00e7\u00e3o de f\u00f3rmulas e esvaziamento criativo.<br \/>\nA sequ\u00eancia de 35 anos come\u00e7ou em 2 de fevereiro de 1990, com a faixa \u201cJust a Friend\u201d, do rapper Biz Markie. J\u00e1 a \u00faltima a figurar entre as 40 mais ouvidas foi \u201cLuther\u201d, de Kendrick Lamar e SZA.<br \/>\nKendrick Lamar canta com SZA no show de intervalo do Super Bowl 2025<br \/>\nCindy Ord\/Getty Images North America\/Getty Images via AFP<br \/>\nO dado vem acompanhado de cr\u00edticas recorrentes dentro do pr\u00f3prio hip hop. H\u00e1 quem aponte a falta de posicionamento pol\u00edtico entre artistas do mainstream. Soma-se a isso o crescimento do conservadorismo dentro de um movimento que, historicamente, \u00e9 progressista e contestador.<br \/>\nEsse racioc\u00ednio levanta uma discuss\u00e3o antiga: o quanto o hip hop ainda preserva suas ra\u00edzes como movimento pol\u00edtico e cultural?<br \/>\n1) O pop se apropriou do hip hop<br \/>\nO hip hop surgiu nos anos 1970 como uma resposta das comunidades perif\u00e9ricas \u00e0 viol\u00eancia do Estado e \u00e0 desigualdade racial. Era, e ainda \u00e9, uma cultura plural que uniu negros, latinos, asi\u00e1ticos, mulheres e a comunidade LGBTQIA+ em torno de um mesmo grito: sobreviv\u00eancia e express\u00e3o.<br \/>\nNas \u00faltimas d\u00e9cadas, o g\u00eanero passou por um processo de populariza\u00e7\u00e3o com a ascens\u00e3o de vertentes como trap e drill. Essa expans\u00e3o trouxe novos p\u00fablicos, mas diluiu parte das ra\u00edzes que mantinham o rap conectado \u00e0 realidade das ruas.<br \/>\nTornou-se comum ver nomes como Lil Wayne, Kendrick Lamar, Kanye West, Future e outros lado a lado com divas do pop, uma cena impens\u00e1vel nos anos 1990. De certa forma, o pop se apropriou do hip hop.<br \/>\nTaylor Swift e Future no clipe de \u2018End Game\u2019<br \/>\nDivulga\u00e7\u00e3o \/ redes sociais<br \/>\nT\u00e9cnicas que nasceram no rap, como os samples (trechos de grava\u00e7\u00f5es reutilizados em novas obras), se espalharam por outros estilos. Algo parecido aconteceu com as baterias 808, popularizadas no trap, e que hoje est\u00e3o no repert\u00f3rio de gente como Ariana Grande a Taylor Swift.<br \/>\nO discurso do rap perdeu um pouco de sua densidade. \u00c0s vezes, as letras soam mais como legendas de redes sociais do que como manifesta\u00e7\u00f5es de uma comunidade. A desconex\u00e3o entre fama e realidade talvez seja o primeiro sintoma da crise atual.<br \/>\nSAIBA MAIS: Rappers n\u00e3o escrevem mais letras? Como o \u2018punch-in\u2019 est\u00e1 mudando a forma de fazer rap<br \/>\n2) O rap flerta com conservadores<br \/>\nNascido como movimento perif\u00e9rico e politizado, o hip hop foi moldado pelas lentes de quem vive a desigualdade. Seus valores sempre se alinharam ao pensamento progressista.<br \/>\nMas a ascens\u00e3o social e financeira de muitos artistas criou uma nova contradi\u00e7\u00e3o: a despolitiza\u00e7\u00e3o do movimento. Nos Estados Unidos e no Brasil, \u00e9 cada vez mais comum ver rappers, funkeiros e trappers se aproximando de figuras e discursos conservadores.<br \/>\nKanye West usa bon\u00e9 com frase s\u00edmbolo da campanha de Trump durante encontro com presidente dos EUA no Sal\u00e3o Oval da Casa Branca<br \/>\nAP Photo\/Evan Vucci<br \/>\nUm dos marcos dessa virada foi o apoio de Kanye West, em 2016, \u00e0 candidatura de Donald Trump. O rapper ampliou sua ret\u00f3rica conservadora: criticou o movimento #MeToo, relativizou a escravid\u00e3o e chegou a expressar admira\u00e7\u00e3o por Adolf Hitler.<br \/>\nOutros nomes seguiram o mesmo caminho. Ice Cube, membro do grupo N.W.A. e conhecido por suas cr\u00edticas ao sistema e \u00e0 viol\u00eancia policial, passou a colaborar com o governo Trump e a questionar vacinas na pandemia de Covid-19. At\u00e9 Snoop Dogg criticou a cultura \u201cwoke\u201d e se apresentou em eventos ligados ao atual governo americano.<br \/>\nAl\u00e9m do machismo estrutural, h\u00e1 tamb\u00e9m interesses pessoais: rappers como Lil Wayne e Kodak Black receberam perd\u00f5es presidenciais de Trump em 2021.<br \/>\nO resultado \u00e9 um paradoxo: artistas que nasceram como s\u00edmbolos da resist\u00eancia agora se aproximam dos mesmos discursos que antes combatiam.<br \/>\n3) O caso P. Diddy<br \/>\nBeyonc\u00e9 e Jay-Z ao lado de P. Diddy em uma das festas promovidas pelo rapper<br \/>\nReprodu\u00e7\u00e3o\/ Fant\u00e1stico<br \/>\nOutro fator que ajuda a explicar a aus\u00eancia do rap no topo das paradas \u00e9 a queda de P. Diddy. O rapper, empres\u00e1rio e \u00edcone dos anos 2000 foi acusado por sua ex-esposa Cassie Ventura e outras v\u00edtimas de abuso sexual, tr\u00e1fico humano e viol\u00eancia.<br \/>\nDiddy foi inocentado de tr\u00eas acusa\u00e7\u00f5es, mas condenado por transporte com fins de prostitui\u00e7\u00e3o, envolvendo Cassie e outra mulher identificada apenas como \u201cJane\u201d.<br \/>\nDiddy era sin\u00f4nimo de sucesso e poder no rap. Descobriu artistas como Missy Elliott, Usher e The Notorious B.I.G., al\u00e9m de ter sido mentor de Justin Bieber.<br \/>\nSuas festas eram frequentadas por magnatas e celebridades, e seus neg\u00f3cios se expandiram para o \u00e1lcool, a moda e a m\u00eddia. Mas as acusa\u00e7\u00f5es \u2014 e suas conex\u00f5es com nomes influentes como Jay-Z, abalaram a credibilidade do hip hop. E reacenderam um preconceito antigo: o da cultura hip hop associada \u00e0 marginalidade.<br \/>\nVoltar \u00e0s origens pode ser a solu\u00e7\u00e3o?<br \/>\nMais do que uma crise de popularidade, o que se observa \u00e9 uma crise de identidade. O hip hop sempre foi mais do que m\u00fasica: \u00e9 espelho, megafone e arquivo de lutas sociais. Repensar a cultura, portanto, passa por reconectar arte e pol\u00edtica, sem abrir m\u00e3o da evolu\u00e7\u00e3o est\u00e9tica.<\/div>\n<p>Fonte: <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/pop-arte\/noticia\/2025\/11\/12\/rap-fora-do-top-40-da-billboard-apos-35-anos-expoe-crise-criativa-e-despolitizacao-do-estilo.ghtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">G1 Entretenimento<\/a><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rap fora do top 40 da Billboard ap\u00f3s 35 anos exp\u00f5e crise criativa e despolitiza\u00e7\u00e3o do rap Pela primeira vez em 35 anos, nenhuma m\u00fasica de rap aparece entre as 40 mais ouvidas da Billboard Hot 100. 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