{"id":45945,"date":"2025-11-14T12:03:39","date_gmt":"2025-11-14T15:03:39","guid":{"rendered":"https:\/\/www.farcomto.org\/cassia-eller-e-perfilada-com-texto-raso-mas-fluente-de-biografia-monocromatica\/"},"modified":"2025-11-14T12:03:39","modified_gmt":"2025-11-14T15:03:39","slug":"cassia-eller-e-perfilada-com-texto-raso-mas-fluente-de-biografia-monocromatica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/cassia-eller-e-perfilada-com-texto-raso-mas-fluente-de-biografia-monocromatica\/","title":{"rendered":"C\u00e1ssia Eller \u00e9 perfilada com texto raso, mas fluente, de biografia monocrom\u00e1tica"},"content":{"rendered":"<div>\n<div>Capa do livro \u2018Eu queria ser C\u00e1ssia Eller  \u2013 Uma biografia\u2019, de Tom Cardoso<br \/>\nMIlton Montenegro com design de Daniel Justi<br \/>\n\u266b OPINI\u00c3O SOBRE LIVRO<br \/>\nT\u00edtulo: Eu queria ser C\u00e1ssia Eller  \u2013 Uma biografia<br \/>\nAutor: Tom Cardoso<br \/>\nCota\u00e7\u00e3o: \u2605 \u2605 \u2605<br \/>\n\u266c \u201cFalar de C\u00e1ssia \u00e9 coisa f\u00e1cil, mas tudo parece pouco. Ela \u00e9 gigante, ampla, complexa e multicolorida\u201d, sentencia Nando Reis, ao se referir a C\u00e1ssia Eller no presente, em fala reproduzida na contracapa do livro Eu queria ser C\u00e1ssia Eller \u2013 Uma biografia.<br \/>\nDe fato, parece que ningu\u00e9m entendeu todos os tons da alma de C\u00e1ssia Rejane Eller (10 de dezembro de 1962 \u2013 29 de dezembro de 2001), uma das maiores cantoras do Brasil de todos os tempos.<br \/>\nAo longo das 304 p\u00e1ginas da biografia escrita pelo jornalista Tom Cardoso e lan\u00e7ada nesta semana pela editora Harper Collins, a artista \u00e9 perfilada em narrativa fluente, mas superficial, que deixa a sensa\u00e7\u00e3o de estar incompleta, sem a exposi\u00e7\u00e3o de todos os lados das v\u00e1rias hist\u00f3rias contadas ao longo do livro.<br \/>\nC\u00e1ssia \u00e9 retratada o tempo todo como o ser humano acuado que rejeitava c\u00f3digos sociais, paralisava diante dos \u00eddolos e somente se soltava na intimidade da casa (com a mulher e o filho) e sobretudo na estrada e no palco, viajando com os amigos para se apresentar em cidades e locais pequenos, dividindo o camarim (quando havia um) com os m\u00fasicos, longe do radar da imprensa.<br \/>\nAvesso de uma estrela, C\u00e1ssia Eller era t\u00e3o moleca que se permitiu apertar o p\u00eanis de Keith Richards, cumprimentado o guitarrista da forma l\u00fadica como abordava os amigos mais \u00edntimos.<br \/>\nEscrito com base em material publicado na imprensa e em entrevistas feitas pelo autor com nomes como a vi\u00fava Maria Eugenia Vieira Martins (autora do pref\u00e1cio), o empres\u00e1rio Felipe Casqueira, o guitarrista Walter Villa\u00e7a e Anna Butler (diretora de rela\u00e7\u00f5es art\u00edsticas da MTV na \u00e9poca em que C\u00e1ssia gravou o \u00e1lbum ac\u00fastico que a transformou em 2001 em cantora de massa), o livro soa raso, sem apresentar trabalho de investiga\u00e7\u00e3o mais profundo que desse conta de expor todos os tons da C\u00e1ssia Eller \u201cmulticolorida\u201d apontada por Nando Reis no texto da contracapa.<br \/>\nEstruturada em ordem cronol\u00f3gica, a partir do momento em que C\u00e1ssia j\u00e1 tem oito anos, a narrativa \u00e9 centrada na luta da artista para se impor como cantora (sem concess\u00f5es) e, quando a carreira engrena, nas sucessivas quedas de bra\u00e7o da cantora com empres\u00e1rios, diretores de gravadoras e todo um status quo da ind\u00fastria da m\u00fasica, para preservar a paz e a liberdade.<br \/>\nSem falar na luta interior de C\u00e1ssia para ficar s\u00f3bria, longe do \u00e1lcool e da coca\u00edna, sobretudo ap\u00f3s o nascimento do primeiro e \u00fanico filho, Francisco Ribeiro Eller, o Chic\u00e3o, o hoje cantor, compositor e m\u00fasico conhecido como Chico Chico. Detalhe curioso: t\u00e3o arisco quanto a m\u00e3e e tamb\u00e9m avesso aos c\u00f3digos do showbiz, Chico Chico n\u00e3o deu depoimento para o bi\u00f3grafo.<br \/>\nMesmo nesse tom monocrom\u00e1tico, \u00e9 justo ressaltar a habilidade de Tom Cardoso para escrever um texto sedutor, redigido com clareza e objetividade jornal\u00edstica, sem tentar for\u00e7ar estilo ou erudi\u00e7\u00e3o.<br \/>\nTampouco sem pisar no terreno do sensacionalismo, o autor descortina bastidores interessantes das grava\u00e7\u00f5es dos \u00e1lbuns de C\u00e1ssia Eller. A postura dissonante do produtor Luiz Brasil na gesta\u00e7\u00e3o do \u00e1lbum Ac\u00fastico MTV era fato at\u00e9 ent\u00e3o conhecido por poucos. Assim como o fato de C\u00e1ssia ter sido pressionada a gravar a can\u00e7\u00e3o Palavras ao vento (1999), parceria de Marisa Monte com Moraes Moreira (1947 \u2013 2020), no \u00e1lbum Com voc\u00ea\u2026 Meu mundo ficaria completo (1999), disco em que a cantora consolidou um processo de suaviza\u00e7\u00e3o do canto que iniciara no \u00e1lbum C\u00e1ssia Eller (1994). Tanto que C\u00e1ssia se recusou a cantar Palavras ao vento no show, nem mesmo (ou sobretudo) quando Marisa e Moraes estavam na plateia.<br \/>\nE por falar em Marisa Monte, o livro tamb\u00e9m enfatiza que, quando ambas as cantoras tinham o mesmo empres\u00e1rio, Leonardo Netto, C\u00e1ssia se ressentia da falta de aten\u00e7\u00e3o de Netto, sobretudo no per\u00edodo em que Marisa lan\u00e7ava discos e\/ou shows.<br \/>\nA respeito do \u00e1lbum de 1994, o livro rebobina a intransig\u00eancia de Marcos Maynard ao assumir o comando da gravadora Polygram e obrigar C\u00e1ssia a gravar as m\u00fasicas Partners (Luiz Schiavon, Paulo Ricardo e Paulo P.A. Pagni, 1988), Lanterna dos afogados (Herbert Vianna, 1989) e Try a little tenderness (Harry Woods, Jimmy Campbell e Reg Conelly, 1932). Uma viol\u00eancia art\u00edstica que C\u00e1ssia teve que engolir porque devia dinheiro \u00e0 gravadora, que havia custeado as despesas do parto de Chic\u00e3o.<br \/>\nEm contrapartida, a biografia faz justi\u00e7a a Mayrton Bahia, executivo da ind\u00fastria fonogr\u00e1fica conhecido pela sensibilidade e pelo respeito aos artistas. Mayrton deu aval para C\u00e1ssia Eller ser como ela era nos dois primeiros \u00e1lbuns, C\u00e1ssia Eller (1990) e O marginal (1992).<br \/>\nO \u00e1lbum de 1990 marcou a estreia de C\u00e1ssia Eller no mercado fonogr\u00e1fico ap\u00f3s um contrato leonino assinado pela cantora com a gravadora SBK (ent\u00e3o vinculada \u00e0 EMI Music) e nunca cumprido de fato (o distrato foi providenciado com diplomacia quando houve o interesse de Mayrton Bahia de lan\u00e7ar C\u00e1ssia na Polygram).<br \/>\nMayrton Bahia, ali\u00e1s, sentencia em depoimento a Tom Cardoso que o \u00e1lbum C\u00e1ssia Eller &amp; Victor Biglione in blues \u2013 gravado em 1992, arquivado e lan\u00e7ado somente em 2022 \u2013 teve a edi\u00e7\u00e3o abortada por desentendimento entre a cantora e o guitarrista Victor Biglione, jamais por desinteresse da gravadora. Biglione n\u00e3o corrobora essa vers\u00e3o em depoimento ao bi\u00f3grafo.<br \/>\nEnfim, a narrativa de Eu queria ser C\u00e1ssia Eller  \u2013 Uma biografia se alimenta dos embates travados por C\u00e1ssia ao longo da vida louca vida para preservar a independ\u00eancia e a liberdade. Essa luta foi t\u00e3o grande que o cora\u00e7\u00e3o da leoa cansou e parou de bater aos breves 39 anos. C\u00e1ssia Eller se foi no auge, deixando no ar a sensa\u00e7\u00e3o de que ainda tinha muito a fazer na m\u00fasica do Brasil.<br \/>\nPara alimentar a aura j\u00e1 quase mitol\u00f3gica em torno de C\u00e1ssia Eller, foram lan\u00e7ados v\u00e1rios discos p\u00f3stumos, document\u00e1rio e, h\u00e1 dias, a produtora Migdal Filmes confirmou a realiza\u00e7\u00e3o da cinebiografia C\u00e1ssia com dire\u00e7\u00e3o de Diego Freitas. O livro Eu queria ser C\u00e1ssia Eller \u2013 Uma biografia \u00e9 mais um produto que orbita em torno da saudade deixada por C\u00e1ssia Eller.<br \/>\nO livro \u00e9 bom pela flu\u00eancia do texto e por algumas hist\u00f3rias dos agitados bastidores da vida da artista, mas o conte\u00fado se insinua insuficiente. Como reconhece Nando Reis, falar de C\u00e1ssia Eller \u00e9 f\u00e1cil, mas tudo parece pouco\u2026<br \/>\nC\u00e1ssia Eller (1962 \u20132001) tem enfocada no livro a luta permanente da artista contra o status quo da ind\u00fastria da m\u00fasica<br \/>\nDivulga\u00e7\u00e3o<\/div>\n<p>Fonte: <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/pop-arte\/musica\/blog\/mauro-ferreira\/post\/2025\/11\/14\/cassia-eller-e-perfilada-com-texto-raso-mas-fluente-de-biografia-monocromatica.ghtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">G1 Entretenimento<\/a><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Capa do livro \u2018Eu queria ser C\u00e1ssia Eller \u2013 Uma biografia\u2019, de Tom Cardoso MIlton Montenegro com design de Daniel Justi \u266b OPINI\u00c3O SOBRE LIVRO T\u00edtulo: Eu queria ser C\u00e1ssia Eller \u2013 Uma biografia Autor: Tom Cardoso Cota\u00e7\u00e3o: \u2605 \u2605 \u2605 \u266c \u201cFalar de C\u00e1ssia \u00e9 coisa f\u00e1cil, mas tudo parece pouco. 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