{"id":46036,"date":"2025-11-17T21:03:06","date_gmt":"2025-11-18T00:03:06","guid":{"rendered":"https:\/\/www.farcomto.org\/jards-macale-o-dissidente-provocador-que-brilhou-a-sombra-do-mainstream\/"},"modified":"2025-11-17T21:03:06","modified_gmt":"2025-11-18T00:03:06","slug":"jards-macale-o-dissidente-provocador-que-brilhou-a-sombra-do-mainstream","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/jards-macale-o-dissidente-provocador-que-brilhou-a-sombra-do-mainstream\/","title":{"rendered":"Jards Macal\u00e9, o dissidente provocador que brilhou \u00e0 sombra do mainstream"},"content":{"rendered":"<div>\n<div>Capa do \u00e1lbum \u2018Besta fera\u2019, de Jards Macal\u00e9<br \/>\nCafi<br \/>\n\u266b OBITU\u00c1RIO<br \/>\n\u266c O t\u00edtulo da biografia de Jards Macal\u00e9, Eu s\u00f3 fa\u00e7o o que quero, escrita por Fred Coelho e lan\u00e7ada em 2019, traduziu o car\u00e1ter altivo, contestador e independente do artista que parte hoje, aos 82 anos, para a eternidade que almejou ao construir obra que transitou pelas margens do mainstream, na penumbra reservada aos marginalizados, aos malditos, aos g\u00eanios transgressores.<br \/>\nLeia mais: Jards Macal\u00e9, \u2018anjo torto\u2019 da MPB, morre no Rio.<br \/>\nJards Anet da Silva (3 de mar\u00e7o de 1943 \u2013 17 de novembro de 2025) \u2013 Macal\u00e9 para o Brasil que conheceu a obra desse singular cantor, compositor e violonista carioca, Macau para os realmente \u00edntimos \u2013 foi a personifica\u00e7\u00e3o musical do anjo torto do poema de Carlos Drummond de Andrade (1902 \u2013 1987) mencionado pelo parceiro Torquato Neto na letra da m\u00fasica Let\u2019s play that (1944 \u2013 1972).<br \/>\nParceiro de poetas efervescentes como Waly Salom\u00e3o (1943 \u2013 2003), colaborador fundamental de discos e\/ou shows de Caetano Veloso (foi o diretor musical do cultuado \u00e1lbum Transa, gravado em Londres em 1971 e lan\u00e7ado em 1)72, Gal Costa (1945 \u2013 2022) e Maria Beth\u00e2nia, Jards Macal\u00e9 foi o dissidente que brilhou nas trevas, \u00e0 sombra do mainstream.<br \/>\nSob tal prisma, a imagem produzida pelo fot\u00f3grafo Cafi (1959 \u2013 2019) para a capa do \u00e1lbum Besta fera (2019), \u00faltimo grande t\u00edtulo vanguardista da discografia de Macal\u00e9, foi a mais completa tradu\u00e7\u00e3o visual do artista.<br \/>\nApresentado ao Brasil como compositor em disco de 1964, na voz improv\u00e1vel de Elizeth Cardoso (1920 \u2013 1990), cantora da ala tradicional que gravou Meu mundo \u00e9 seu (Jards Macal\u00e9 e Roberto Nascimento) no \u00e1lbum A meiga Elizete n\u00ba 5 (1964), Jards Macal\u00e9 logo se juntou aos revolucion\u00e1rios tropicalistas que organizaram o movimento do bi\u00eanio 1967\/1968 sem perder a autonomia criativa, a identidade como compositor e sem se prender a uma turma.<br \/>\nO artista iniciou a discografia solo com o EP S\u00f3 morto \/ Burning night, editado em 1969, ano em que Macal\u00e9 assombrou o p\u00fablico do IV Festival Internacional da Can\u00e7\u00e3o (FIC) com a apresenta\u00e7\u00e3o perform\u00e1tica de Gothan city (Jards Macal\u00e9 e Jos\u00e9 Carlos Capinan, 1969), m\u00fasica que aludia ao estado repressor do Brasil naquele momento conturbado da hist\u00f3ria pol\u00edtica nacional.<br \/>\nDesde ent\u00e3o, Macal\u00e9 nunca entrou pela porta principal da MPB. Nos anos 1970, por conta do alto teor vanguardista dos dois primeiros \u00e1lbuns, Jards Macal\u00e9 (1972) e Aprender a nadar (1974), foi logo jogado na vala dos malditos da MPB ao lado de outros dissidentes como Luiz Melodia (1951 \u2013 2017) e S\u00e9rgio Sampaio (1947 \u2013 1974).<br \/>\nMacal\u00e9 lan\u00e7ou um terceiro \u00e1lbum em 1977, Contrastes, sem virar o jogo mercadol\u00f3gico. Por isso, atravessou a d\u00e9cada de 1980 quase sem gravar, fazendo discos tem\u00e1ticos com obras de compositores, casos do lapidar 4 batutas &amp; 1 coringa (1987) e de Ismael Silva \u2013 Pe\u00e7am bis (1988), este dividido com a cantora Dalva Torres (1951 \u2013 2002).<br \/>\nNos anos 1990, retomou a discografia autoral com os espa\u00e7ados \u00e1lbuns Let\u2019s play that (1994) e O Q fa\u00e7o \u00e9 m\u00fasica (1998), editado por selos indies. Gravado sob dire\u00e7\u00e3o musical do pianista Cristov\u00e3o Bastos e do pr\u00f3prio Macal\u00e9, criadores dos arranjos das 16 m\u00fasicas, o \u00e1lbum O Q fa\u00e7o \u00e9 m\u00fasica ampliou o cancioneiro autoral do artista sem deixar cair o padr\u00e3o de qualidade.<br \/>\nCoube ao tempo rei fazer justi\u00e7a a Macal\u00e9. O \u00e1lbum Jards Macal\u00e9 (1972), gravado sob dire\u00e7\u00e3o musical do pr\u00f3prio Macal\u00e9, arquiteto de som cheio de eletricidade, formatado com mix de rock, samba, can\u00e7\u00e3o, blues, jazz e bai\u00e3o, virou um dos t\u00edtulos mais cultuados da m\u00fasica brasileira, sendo celebrado pelo artista no cinquenten\u00e1rio em 2022 com shows e reedi\u00e7\u00f5es em LP. Nessa altura, o j\u00e1 supracitado \u00e1lbum Besta fera recolocou Macal\u00e9 na linha de frente da vanguarda brasileira.<br \/>\nBesta fera provocou combust\u00e3o com a fric\u00e7\u00e3o entre a mat\u00e9ria-prima da obra autoral de Macal\u00e9 e a alquimia sonora da turma paulistana capitaneada por Romulo Fr\u00f3es (diretor art\u00edstico do disco) com Kiko Dinucci e Thomas Harres, produtores musicais do \u00e1lbum.<br \/>\nCom o f\u00f4lego renovado, Macal\u00e9 gravou \u00e1lbum com Jo\u00e3o Donato (1934 \u2013 2024), S\u00edntese do lance (2021), disco mais de Donato do que de Macal\u00e9, e abriu o leque autoral no vigoroso Cora\u00e7\u00e3o bifurcado (2023), \u00faltimo \u00e1lbum de m\u00fasicas in\u00e9ditas do anjo torto da MPB, dono de viol\u00e3o de toque tortuoso.<br \/>\nAl\u00e9m dos \u00e1lbuns, Macal\u00e9 deixa can\u00e7\u00f5es j\u00e1 entranhadas na mem\u00f3ria do Brasil, casos de Hotel das estrelas (Jards Macal\u00e9 e Duda Machado, 1970), Mal secreto (Jards Macal\u00e9 e Waly Salom\u00e3o, 1971) e sobretudo Vapor barato (Jards Macal\u00e9 e Waly Salom\u00e3o, 1971). M\u00fasicas associadas a Gal Costa, mas tamb\u00e9m ao cantor e compositor. Sem falar em Movimento dos barcos (1971), parceria com Jos\u00e9 Carlos Capinan lan\u00e7ada por Maria Beth\u00e2nia no show \/ disco Rosa dos ventos.<br \/>\nCom a morte de Jards Anet da Silva, parte o Jards Macal\u00e9, personagem j\u00e1 tornado folcl\u00f3rico pelo tom provocador, figura de temperamento notoriamente forte, um quase malandro que logo se enturmou com Moreira da Silva (1902 \u2013 2000), cuja obra ali\u00e1s abordou em \u00e1lbum de 2001, mas que, em ess\u00eancia, foi mesmo um personagem de concretude atestada pela for\u00e7a da obra perene.<br \/>\nDesde 1959, ano em que fundou o duo inicialmente amador Dois no Balan\u00e7o com Chiquinho Ara\u00fajo, filho do maestro Severino Ara\u00fajo (1917 \u2013 2012), Jards Macal\u00e9 veio para curtir com a cara dos reacion\u00e1rios, para desafinar o coro dos contentes, o que fez com maestria inconteste, deixando a m\u00fasica falar mais alto do que o artista temperamental que, irritado com o descaso de executivos da ind\u00fastria fonogr\u00e1fica, derrubou bandejas de caf\u00e9 em salas de gravadoras, virando a mesa. E foi assim, sem fazer o jogo, que o dissidente se tornou eterno entre luzes e sombras de obra imortal.<\/div>\n<p>Fonte: <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/pop-arte\/musica\/blog\/mauro-ferreira\/post\/2025\/11\/17\/jards-macale-o-dissidente-provocador-que-brilhou-a-sombra-do-mainstream.ghtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">G1 Entretenimento<\/a><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Capa do \u00e1lbum \u2018Besta fera\u2019, de Jards Macal\u00e9 Cafi \u266b OBITU\u00c1RIO \u266c O t\u00edtulo da biografia de Jards Macal\u00e9, Eu s\u00f3 fa\u00e7o o que quero, escrita por Fred Coelho e lan\u00e7ada em 2019, traduziu o car\u00e1ter altivo, contestador e independente do artista que parte hoje, aos 82 anos, para a eternidade que almejou ao construir<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":14437,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-46036","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-entretenimento"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/46036","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=46036"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/46036\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14437"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=46036"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=46036"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=46036"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}