{"id":46583,"date":"2025-11-30T21:02:09","date_gmt":"2025-12-01T00:02:09","guid":{"rendered":"https:\/\/www.farcomto.org\/o-paradoxo-do-terror-como-assistir-a-filmes-de-terror-pode-acalmar-a-ansiedade-e-ajudar-a-lidar-com-situacoes-dificeis\/"},"modified":"2025-11-30T21:02:09","modified_gmt":"2025-12-01T00:02:09","slug":"o-paradoxo-do-terror-como-assistir-a-filmes-de-terror-pode-acalmar-a-ansiedade-e-ajudar-a-lidar-com-situacoes-dificeis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/o-paradoxo-do-terror-como-assistir-a-filmes-de-terror-pode-acalmar-a-ansiedade-e-ajudar-a-lidar-com-situacoes-dificeis\/","title":{"rendered":"\u2018O Paradoxo do Terror\u2019: Como assistir a filmes de terror pode acalmar a ansiedade e ajudar a lidar com situa\u00e7\u00f5es dif\u00edceis"},"content":{"rendered":"<div>\n<div>\n<br \/>     Como assistir a filmes de terror pode acalmar a ansiedade e ajudar a lidar com situa\u00e7\u00f5es dif\u00edceis<br \/>\nGetty Images<br \/>\nQuando eu tinha cerca de 16 anos, pensei que seria divertido ter uma noite de cinema. Mas eu estava errado.<br \/>\nUm dos meus amigos trouxe seu DVD do filme O Exorcista (1973). Passei as duas horas seguintes cobrindo os olhos com as m\u00e3os.<br \/>\nToda vez que eu pulava da cadeira, ficava imaginando como as outras pessoas conseguiam se entreter tanto com algo t\u00e3o apavorante.<br \/>\nFil\u00f3sofos e psic\u00f3logos tamb\u00e9m se fizeram a mesma pergunta. Afinal, a l\u00f3gica indica que o medo foi a resposta da evolu\u00e7\u00e3o para nos afastar daquilo que amea\u00e7a a nossa seguran\u00e7a.<br \/>\nO medo nos ajuda a evitar tudo o que possa prejudicar a n\u00f3s ou aos nossos entes queridos. \u00c9 por isso que ele desencadeia a rea\u00e7\u00e3o de lutar ou fugir.<br \/>\nMas, durante o Halloween no final do m\u00eas passado, muitos de n\u00f3s sa\u00edmos ativamente em busca de algo que nos assustasse, devorando filmes criados especificamente para fazer o nosso cora\u00e7\u00e3o disparar.<br \/>\nDos apocalipses zumbis at\u00e9 os vampiros, n\u00f3s adoramos sentir calafrios na espinha. \u00c9 por isso que o cinema de terror \u00e9 o g\u00eanero mais rent\u00e1vel de Hollywood.<br \/>\n\u201cO paradoxo do terror \u00e9 um enigma muito antigo\u201d, segundo o pesquisador Mark Miller, da Universidade Monash, na Austr\u00e1lia, e de Toronto, no Canad\u00e1.<br \/>\n\u201cO pr\u00f3prio Arist\u00f3teles (384 a.C.-322 a.C.) comentou que \u00e9 estranho como somos condicionados a evitar e fugir de coisas perigosas, repugnantes, prejudiciais e horr\u00edveis. E, ainda assim, ficamos magnetizados quando estamos em contato com coisas repugnantes, horr\u00edveis, nocivas ou apavorantes.\u201d<br \/>\nNos \u00faltimos 10 anos, os psic\u00f3logos finalmente come\u00e7aram a solucionar este enigma. Evid\u00eancias indicam que as hist\u00f3rias de terror interagem com processos b\u00e1sicos do c\u00e9rebro, que nos ajudam a lidar com as incertezas.<br \/>\nAs pesquisas mais recentes sugerem que as hist\u00f3rias de terror da fic\u00e7\u00e3o poderiam at\u00e9 mesmo fornecer importantes benef\u00edcios psicol\u00f3gicos, como a redu\u00e7\u00e3o da ansiedade que sentimos frente aos acontecimentos do mundo real.<br \/>\nPor isso, o terror \u00e9 um b\u00e1lsamo para nossas preocupa\u00e7\u00f5es.<br \/>\nPrefer\u00eancias paradoxais<br \/>\nO psic\u00f3logo Coltan Scrivner, da Universidade Estadual do Arizona, nos Estados Unidos, \u00e9 o autor do novo livro Morbidly Curious: A Scientist Explains Why We Can\u2019t Look Away (\u201cCuriosidade m\u00f3rbida: cientista explica por que n\u00e3o conseguimos afastar o olhar\u201d, em tradu\u00e7\u00e3o livre). Ele \u00e9 um dos pioneiros no estudo deste tema.<br \/>\nDesde crian\u00e7a, Scrivner sempre apreciou a emo\u00e7\u00e3o gerada pelas hist\u00f3rias que causam medo. Mas s\u00f3 quando chegou \u00e0 universidade, ele come\u00e7ou a questionar a onipresen\u00e7a das hist\u00f3rias de terror na cultura humana.<br \/>\n\u201cA primeira evid\u00eancia que temos por escrito inclui dem\u00f4nios horr\u00edveis e feras monstruosas\u201d, conta Scrivner. Ele se refere \u00e0s t\u00e1buas babil\u00f4nicas de 4 mil anos atr\u00e1s, que registram a Epopeia de Gilgamesh.<br \/>\n\u201cEu diria que as caracter\u00edsticas das hist\u00f3rias de terror s\u00e3o t\u00e3o antigas quanto a pr\u00f3pria linguagem\u201d, segundo ele.<br \/>\nUma explica\u00e7\u00e3o seria que as hist\u00f3rias de terror servem como uma esp\u00e9cie de jogo que nos permite compreender o mundo \u00e0 nossa volta e nos prepara para as amea\u00e7as que poderemos enfrentar.<br \/>\n\u201c\u00c9 uma adapta\u00e7\u00e3o para que qualquer animal, incluindo os seres humanos, compreenda e aprenda sobre os perigos que est\u00e3o \u00e0 sua volta\u201d, afirma Scrivner.<br \/>\nPodemos constatar as origens desta quest\u00e3o em outras esp\u00e9cies. As gazelas, por exemplo, costumam observar os predadores \u00e0 dist\u00e2ncia antes de fugir.<br \/>\n\u201cO motivo por que os seres humanos parecem ser as criaturas com mais curiosidade m\u00f3rbida de todas \u00e9 que temos esta incr\u00edvel capacidade de criar, transmitir e consumir hist\u00f3rias\u201d, afirma Scrivner.<br \/>\nO pesquisador j\u00e1 reuniu diversas confirma\u00e7\u00f5es desses benef\u00edcios adaptativos.<br \/>\nEm um de seus estudos, Scrivner recrutou cerca de 400 participantes para responder a um question\u00e1rio online. Eles avaliaram se estavam ou n\u00e3o de acordo com uma s\u00e9rie de afirma\u00e7\u00f5es sobre seu consumo de filmes de terror.<br \/>\nOs participantes responderam perguntas como:<br \/>\nGosto das sensa\u00e7\u00f5es que vivencio quanto assisto a filmes de terror.<br \/>\nJ\u00e1 me assustei tanto vendo um filme de terror que fiquei com medo de voltar para casa ou de andar pelos c\u00f4modos em seguida.<br \/>\nGosto de ver \u201cfilmes de tortura\u201d porque tenho curiosidade de saber como ela seria na realidade.<br \/>\nAnalisando os resultados, Scrivner concluiu que \u00e9 poss\u00edvel dividir os participantes em tr\u00eas grupos principais.<br \/>\nOs primeiros foram chamados de \u201cdependentes de adrenalina\u201d. Eles se deixavam levar pela sensa\u00e7\u00e3o f\u00edsica de suspense e declararam que o medo fazia com que eles se sentissem \u201cmais vivos\u201d.<br \/>\nO segundo grupo era o dos \u201capavorados\u201d. Sua tend\u00eancia \u00e9 detestar o estresse provocado pelos filmes deste g\u00eanero.<br \/>\n\u201cEles n\u00e3o gostam necessariamente da sensa\u00e7\u00e3o de medo, mas sim da sensa\u00e7\u00e3o de super\u00e1-lo\u201d, explica Scrivner. Eles sentem que o processo os ajudou, por exemplo, a aprender algo importante sobre si mesmos.<br \/>\nO terceiro grupo \u00e9 o dos \u201cnegociadores sombrios\u201d. Para eles, os filmes s\u00e3o uma forma de enfrentar a vida real.<br \/>\nEstes participantes relataram que assistem a filmes de terror para observar, por exemplo, como o mundo \u00e9 violento e para recordar como suas vidas s\u00e3o seguras, em compara\u00e7\u00e3o com o sangue derramado na tela.<br \/>\nAlguns chegaram a considerar a a\u00e7\u00e3o na tela como uma forma de controlar sua pr\u00f3pria ansiedade ou depress\u00e3o. Era uma forma de colocar sua valentia \u00e0 prova.<br \/>\nCada um desses motivos oferece uma explica\u00e7\u00e3o sobre o paradoxo da nossa fascina\u00e7\u00e3o pelo macabro.<br \/>\n\u201cPode haver diversos caminhos para a curiosidade m\u00f3rbida\u201d, segundo Scrivner.<br \/>\nPara comprovar se os mesmos resultados seriam obtidos em um contexto totalmente diferente, Scrivner se associou a pesquisadores dinamarqueses.<br \/>\nEles interrogaram visitantes da Casa Mal-Assombrada Dystopia \u2014 uma experi\u00eancia interativa na cidade de Vejle, na Dinamarca, constru\u00edda ao redor de um labirinto com efeitos especiais e atores treinados para aterrorizar os visitantes.<br \/>\nForam observados exatamente os mesmos padr\u00f5es, o que confirma significativamente sua teoria.<br \/>\n\u201cEstes tr\u00eas \u2018tipos\u2019 foram reproduzidos \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o em um idioma, cultura e ambiente diferentes\u201d, explica Scrivner.<br \/>\nComprovando mais uma vez o valor adaptativo da curiosidade m\u00f3rbida, o pesquisador descobriu que os f\u00e3s de filmes de terror demonstraram maior resili\u00eancia no pico da pandemia de covid-19.<br \/>\nEles eram mais propensos a concordar com afirma\u00e7\u00f5es como \u201cacompanhei as not\u00edcias sobre a pandemia com naturalidade\u201d e \u201cacredito na minha capacidade de superar estes tempos dif\u00edceis\u201d.<br \/>\nSimula\u00e7\u00f5es refinadas<br \/>\nEstes efeitos tamb\u00e9m poderiam refletir um princ\u00edpio fundamental do funcionamento do c\u00e9rebro.<br \/>\nNas \u00faltimas d\u00e9cadas, fil\u00f3sofos, neurocientistas e psic\u00f3logos concordaram com a ideia de que o c\u00e9rebro constr\u00f3i constantemente simula\u00e7\u00f5es do mundo \u00e0 nossa volta. Para Miller, \u201c\u00e9 um motor de antecipa\u00e7\u00e3o\u201d.<br \/>\nNo meu livro The Expectation Effect (\u201cO efeito da expectativa\u201d, em tradu\u00e7\u00e3o livre), descrevo que o nosso c\u00e9rebro emprega o \u201cprocessamento preditivo\u201d para nos ajudar a interpretar novos eventos \u00e0 medida que eles ocorrem e planejar adequadamente nossas rea\u00e7\u00f5es.<br \/>\nQuanto mais precis\u00e3o tivermos neste processamento, melhor. Isso \u00e9 fundamental para nossa flexibilidade na gest\u00e3o deste mundo repleto de incertezas.<br \/>\nMiller sugere que as hist\u00f3rias de terror fornecem a incerteza necess\u00e1ria para manter o \u201cmotor de antecipa\u00e7\u00e3o\u201d em atividade, permitindo que ele refine suas simula\u00e7\u00f5es e realize melhores previs\u00f5es de amea\u00e7as no futuro.<br \/>\n\u201cEstar neste ponto ideal significa que a sua capacidade de previs\u00e3o est\u00e1 em constante desenvolvimento, o que permite ficar cada vez mais preparado para gerir a incerteza a longo prazo\u201d, explica ele.<br \/>\nDa mesma forma que Scrivner, Miller acredita que isso possa ser \u00fatil para reduzir a ansiedade, moderando nossa rea\u00e7\u00e3o ao estresse frente a eventos inquietantes. Para ele, \u201co terror \u00e9 uma oportunidade para vivenciar o medo, o asco e a press\u00e3o\u201d.<br \/>\nNaturalmente, a vantagem \u00e9 que permanecemos na seguran\u00e7a e comodidade do nosso sof\u00e1 durante este processo de aprendizado e podemos controlar o medo que sentimos, seja pausando o filme, saindo do quarto ou nos escondendo atr\u00e1s de um saco de pipocas.<br \/>\nMedo terap\u00eautico<br \/>\nColtan Scrivner sugere que as hist\u00f3rias de terror poderiam ser incorporadas \u00e0 terapia psicol\u00f3gica, como forma de ensinar \u00e0s pessoas como enfrentar situa\u00e7\u00f5es dif\u00edceis.<br \/>\nCom o livro ou o filme adequado, podemos aprender a minimizar o nosso medo e transform\u00e1-lo em um suave motivo de est\u00edmulo. Criar\u00edamos capacidades de regula\u00e7\u00e3o emocional que nos ajudariam a enfrentar melhor o estresse do dia a dia.<br \/>\nScrivner conta que pesquisadores holandeses utilizaram um princ\u00edpio similar para tratar crian\u00e7as com ansiedade, usando um videogame chamado MindLight.<br \/>\nO jogo \u00e9 ambientado em uma casa mal-assombrada, com monstros espalhafatosos perseguindo o avatar do jogador.<br \/>\nA crian\u00e7a usa um aparelho de encefalografia, que mede sua atividade cerebral e controla diretamente uma luz na cabe\u00e7a do avatar. Quanto mais tranquila ela ficar, mais brilhante fica a luz, refor\u00e7ando seu relaxamento.<br \/>\nSe a crian\u00e7a conseguir manter este estado de relaxamento durante um ataque, o monstro se transforma em um ador\u00e1vel gatinho, que a segue por toda a casa. Mas, se ela se assustar demais, surge uma mensagem com conselhos para acalmar sua mente antes de continuar.<br \/>\nEm diversos testes cl\u00ednicos, as crian\u00e7as que jogaram regularmente demonstraram redu\u00e7\u00e3o da ansiedade no seu dia a dia, com benef\u00edcios gerais similares aos da terapia cognitivo-comportamental cl\u00e1ssica.<br \/>\n\u201c\u00c9 incr\u00edvel, pois este \u00e9 o padr\u00e3o-ouro para o tratamento da ansiedade em crian\u00e7as\u201d, afirma Scrivner.<br \/>\nEle acredita que as hist\u00f3rias de terror habituais, seja em livros ou filmes, possam ser usadas com objetivo similar.<br \/>\nO pesquisador escreve em uma resenha sobre o tema que \u201co conte\u00fado de entretenimento de terror permite que as pessoas vivenciem o medo em um ambiente seguro e controlado, que oferece a oportunidade de praticar a reavalia\u00e7\u00e3o cognitiva, tolerar experi\u00eancias som\u00e1ticas desconfort\u00e1veis e desafiar o racioc\u00ednio emocional\u201d.<br \/>\nParece que perdi uma boa oportunidade quando aquela apresenta\u00e7\u00e3o de O Exorcista em casa me fez passar longe de tudo o que \u00e9 macabro. Se voc\u00ea estiver na mesma situa\u00e7\u00e3o, Scrivner recomenda procurar algo que saia um pouco da sua toler\u00e2ncia habitual.<br \/>\n\u201cOs livros costumam ser uma boa forma de come\u00e7ar, pois voc\u00ea pode controlar um pouco melhor a sua imagina\u00e7\u00e3o\u201d, aconselha ele. E tente encontrar hist\u00f3rias que se relacionem com seus outros interesses.<br \/>\n\u201cO terror \u00e9 um dos g\u00eaneros mais amplos que existem e voc\u00ea poder\u00e1 encontrar temas que realmente sejam do seu agrado.\u201d<br \/>\nSeguindo estes conselhos, talvez voc\u00ea se surpreenda ao ver para onde ir\u00e1 levar sua curiosidade m\u00f3rbida e com a calma que voc\u00ea poder\u00e1 sentir pelo resto da vida.<br \/>\n* David Robson \u00e9 um premiado escritor de ci\u00eancias. Seu \u00faltimo livro \u2013 As Leis da Conex\u00e3o: 13 Estrat\u00e9gias Sociais que Transformar\u00e3o Sua Vida (em ingl\u00eas) \u2013 foi publicado em junho de 2024 no Reino Unido pela Editora Canongate e, nos Estados Unidos e Canad\u00e1, pela Pegasus Books.<br \/>\nEle pode ser encontrado como @davidarobson no Instagram e no Threads e publica sua newsletter Psicologia em 60 Segundos (em ingl\u00eas) na plataforma Substack.<br \/>\nLeia a vers\u00e3o original desta reportagem (em ingl\u00eas) no site BBC Innovation.<br \/>\n\u2018Fa\u00e7a o p\u00fablico gritar\u2019: os segredos do sucesso dos filmes de Alfred Hitchcock, segundo o pr\u00f3prio diretor<br \/>\n5 raz\u00f5es por que \u2018O Exorcista\u2019 ainda \u00e9 o filme mais assustador do cinema ap\u00f3s 50 anos<br \/>\n3 filmes de terror inspirados em hist\u00f3rias reais<\/div>\n<p>Fonte: <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/saude\/bem-estar\/noticia\/2025\/11\/30\/o-paradoxo-do-terror-como-assistir-a-filmes-de-terror-pode-acalmar-a-ansiedade-e-ajudar-a-lidar-com-situacoes-dificeis.ghtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">G1 Entretenimento<\/a><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como assistir a filmes de terror pode acalmar a ansiedade e ajudar a lidar com situa\u00e7\u00f5es dif\u00edceis Getty Images Quando eu tinha cerca de 16 anos, pensei que seria divertido ter uma noite de cinema. 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