{"id":47730,"date":"2025-12-24T12:02:33","date_gmt":"2025-12-24T15:02:33","guid":{"rendered":"https:\/\/www.farcomto.org\/a-curiosa-origem-do-vovo-indio-personagem-criado-para-substituir-papai-noel-no-brasil\/"},"modified":"2025-12-24T12:02:33","modified_gmt":"2025-12-24T15:02:33","slug":"a-curiosa-origem-do-vovo-indio-personagem-criado-para-substituir-papai-noel-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/a-curiosa-origem-do-vovo-indio-personagem-criado-para-substituir-papai-noel-no-brasil\/","title":{"rendered":"A curiosa origem do Vov\u00f4 \u00cdndio, personagem criado para substituir Papai Noel no Brasil"},"content":{"rendered":"<div>\n<div>\n<br \/>     Trecho da capa do livro de Christovam de Camargo<br \/>\nReprodu\u00e7\u00e3o<br \/>\nNos anos 1930, uma figura chamava a aten\u00e7\u00e3o em jornais brasileiros no per\u00edodo natalino: o Vov\u00f4 \u00cdndio.<br \/>\nEra uma figura que foi alvo de grandes esfor\u00e7os para se popularizar e destronar o Papai Noel nos cora\u00e7\u00f5es das crian\u00e7as \u00e1vidas por brinquedos.<br \/>\n\u201cVov\u00f4 \u00cdndio e as crian\u00e7as\u201d foi chamada de capa do jornal O Globo em 24 de dezembro de 1932, com o registro de que a figura havia sido a respons\u00e1vel pela entrega de presentes em uma escola municipal carioca.<br \/>\nO mesmo jornal, em 28 de novembro, havia publicado um verdadeiro manifesto em defesa do Vov\u00f4 \u00cdndio \u2014 sob o t\u00edtulo \u201cVamos fazer um Natal brasileiro?\u201d \u2014 e, em 20 de dezembro, uma declara\u00e7\u00e3o de guerra ao bom velhinho \u2014 \u201cPela deposi\u00e7\u00e3o de Papai Noel\u201d era o nome do texto.<br \/>\nVeja os v\u00eddeos que est\u00e3o em alta no g1<br \/>\nNa capital paulista, os \u00e2nimos n\u00e3o eram diferentes. Em 1935, conforme noticiou O Estado de S. Paulo, foi o Vov\u00f4 \u00cdndio quem levou presentes a \u00f3rf\u00e3os paulistanos em a\u00e7\u00e3o promovida pela For\u00e7a P\u00fablica \u2014 institui\u00e7\u00e3o antecessora da atual Pol\u00edcia Militar.<br \/>\nNos anos 1930 houve ainda um concurso nacional para escolher a imagem que melhor representasse o personagem. E, em 1939, uma pe\u00e7a infantil em cartaz no Rio promoveu o inusitado encontro do Papai Noel com o Vov\u00f3 \u00cdndio.<br \/>\nPresidente do Brasil de 1930 a 1945 e de 1951 a 1954, Get\u00falio Vargas (1882-1954) nutria simpatia pela figura, atestam pesquisadores.<br \/>\nH\u00e1 diversas hist\u00f3rias de que ele pessoalmente tenha se empenhado em transformar o Vov\u00f3 \u00cdndio em s\u00edmbolo do Natal brasileiro \u2014 mas, diante da falta de comprova\u00e7\u00e3o documental, se confundem os limites entre o que realmente era engajamento do pol\u00edtico populista e o que se tornou causo folcl\u00f3rico.<br \/>\n\u201cVargas tinha o compromisso de nacionalizar o pa\u00eds, criar um Estado nacional, criar uma estrutura nacional. Nesse esfor\u00e7o, ele refor\u00e7ou a imagem de Tiradentes, por exemplo. E trouxe a ideia do Vov\u00f3 \u00cdndio, deu apoio para difundi-la\u201d, explica o historiador e soci\u00f3logo Wesley Espinosa Santana, professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie.<br \/>\n\u201cMas n\u00e3o pegou na popula\u00e7\u00e3o.\u201d<br \/>\nCom contornos de lenda e sem constar de jornais da \u00e9poca, mas apenas de hist\u00f3rias publicadas d\u00e9cadas mais tarde sobre o assunto, o mais famoso desses epis\u00f3dios pode ter ocorrido h\u00e1 exatos 90 anos, no Natal de 1931, quando o presidente teria sido anfitri\u00e3o de um evento natalino para apresentar o Vov\u00f4 \u00cdndio para a crian\u00e7ada em um est\u00e1dio do Rio.<br \/>\nSegundo esses relatos, a plateia n\u00e3o aprovou a ideia de receber presentes de um homem vestido de tanga e com cocar na cabe\u00e7a \u2014 a prefer\u00eancia reca\u00eda sob o internacional Papai Noel.<br \/>\n\u201cA f\u00e1bula do Vov\u00f4 \u00cdndio dizia que ele era filho de um escravo africano com uma \u00edndia. Foi criado por uma fam\u00edlia branca e, por influ\u00eancia de seus irm\u00e3os, deixou de ser escravo\u201d, explica o jornalista Marcelo Duarte em seus livro O Guia dos Curiosos \u2013 Fora de S\u00e9rie.<br \/>\n\u201cO presidente Get\u00falio Vargas chegou a pensar em transform\u00e1-lo em s\u00edmbolo nacional.\u201d<br \/>\nO historiador e soci\u00f3logo Santana v\u00ea paralelos entre esse mito e a teoria racial brasileira do antrop\u00f3logo Darcy Ribeiro (1922-1997). Afinal, assim como povo o brasileiro, o Vov\u00f4 \u00cdndio tamb\u00e9m seria a mistura das \u201ctr\u00eas ra\u00e7as tristes\u201d.<br \/>\n\u201cO Vov\u00f3 \u00cdndio era o velhinho s\u00e1bio, filho de preta com \u00edndio, criado por uma branca. A ideia de mesclar, colocar o sincretismo cultural e \u00e9tnico, as tr\u00eas ra\u00e7as tristes brasileiras: o preto porque foi escravizado, o \u00edndio porque foi explorado e invadido, o branco porque era obrigado a vir para c\u00e1\u201d, reflete o professor.<br \/>\nA origem do mito<br \/>\nReprodu\u00e7\u00e3o da capa do livro de Christovam de Camargo<br \/>\n Reprodu\u00e7\u00e3o<br \/>\nSe as tentativas de fazer o Vov\u00f4 \u00cdndio emplacar no imagin\u00e1rio nacional datam dos anos 1930, n\u00e3o se sabe exatamente a origem do mito.<br \/>\nO que se sabe \u00e9 que sua vers\u00e3o mais bem-acabada terminou divulgada por obra de simpatizantes do integralismo, movimento nacionalista que ficou conhecido como uma esp\u00e9cie de fascismo brasileiro.<br \/>\n\u201cHouve um grande esfor\u00e7o da intelectualidade nacionalista brasileira, principalmente uma intelectualidade de direita dos anos 1930, no sentido de criar essa f\u00e1bula do Vov\u00f3 \u00cdndio como contraponto ao Papai Noel\u201d, diz o historiador Leandro Pereira Gon\u00e7alves, professor na Universidade Federal de Juiz de Fora e autor de, entre outros, O Fascismo em Camisas Verdes: do Integralismo ao Neointegralismo.<br \/>\nEle contextualiza, contudo, que se a simbologia nacional era muito importante ao movimento integralista, ele n\u00e3o foi criado pelos integralistas \u2014 foi, sim, utilizado por seus militantes.<br \/>\n\u201cO chamado camisa verde acabou se apropriando daquela imagem, daquela simbologia de avers\u00e3o ao Papai Noel. E isso aparece em jornais e revistas integralistas do per\u00edodo\u201d, explica.<br \/>\nPesquisador vinculado \u00e0 Universidade de Estrasburgo, na Fran\u00e7a, o historiador Philippe Arthur dos Reis lembra que o personagem j\u00e1 aparecia anteriormente no cen\u00e1rio musical e art\u00edstico brasileiro.<br \/>\n\u201cO JB de Carvalho, por exemplo, poeta de macumbas, j\u00e1 colocava em perspectiva a ideia do Vov\u00f4 \u00cdndio como defensor da cultura. Ele fazia isso da perspectiva de um m\u00fasico colocando em evid\u00eancia a cultura negra e ind\u00edgena\u201d, afirma.<br \/>\n\u201cAcho que isso vai estar em di\u00e1logo com o integralismo e, ent\u00e3o, pode ter ocorrido, sim, um processo de apropria\u00e7\u00e3o de ideias.\u201d<br \/>\nAutor do livro Fascismo \u00e0 Brasileira, sobre o movimento integralista, o jornalista Pedro Doria acredita que o personagem seja resultado do caldo nacionalista que reverberava nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo 20.<br \/>\nIsso tem a ver com o movimento modernista, cujos expoentes come\u00e7aram os anos 1920 reafirmando que n\u00e3o havia necessidade de querer ser europeu.<br \/>\n\u201cE come\u00e7a uma busca pelo que \u00e9 ser brasileiro. Enquanto [os escritores] Mario [de Andrade] e Oswald [de Andrade] acabam tomando o caminho que ficaria mais famoso, h\u00e1 tamb\u00e9m o caminho do verde-amarelismo do Menotti [Del Picchia] e do Cassiano Ricardo, mais nacionalismo. \u00c9 o caminho onde est\u00e1 Pl\u00ednio Salgado [o fundador da A\u00e7\u00e3o Integralista Brasileira, a AIB]\u201d, contextualiza Doria.<br \/>\nSociologicamente, o Brasil dos anos 1930 pensava ent\u00e3o os conceitos de brasilidade. E a\u00ed est\u00e3o nomes como S\u00e9rgio Buarque de Holanda (1902-1982) e Gilberto Freyre (1900-1987).<br \/>\n\u201cVem a ideia de que o barato do Brasil \u00e9 que somos a mistura de tr\u00eas ra\u00e7as\u201d, pontua Doria.<br \/>\nNa S\u00e3o Paulo prestes a comemorar seu quarto centen\u00e1rio de funda\u00e7\u00e3o, tomava forma o conceito do bandeirante como her\u00f3i.<br \/>\n\u201cMas esse mito \u00e9 do bandeirante caboclo, filho do portugu\u00eas homem com a mulher ind\u00edgena, her\u00f3i que fala tupi, era pobre mas bravo e desbravava o Brasil\u201d, descreve o jornalista.<br \/>\nPl\u00ednio Salgado (1895-1975) ergueu as bases do integralismo misturando esse contexto a uma inspira\u00e7\u00e3o extremista: o fascismo italiano.<br \/>\n\u201cMas seu fascismo brasileiro \u00e9 modernista, coloca o caboclo como mito fundador, como homem brasileiro ideal, o cara que se mete no mato sem medo, que \u00e9 a cara do Brasil\u201d, diz Doria.<br \/>\nO Vov\u00f4 \u00cdndio, assim, passou a ser valorizado dentro dessa narrativa.<br \/>\n\u201cPara os integralistas, o Papai Noel era uma influ\u00eancia ianque. O Vov\u00f4 \u00cdndio representava o caboclo, o cara que estava no mato como o brasileiro, essencialmente brasileiro\u201d, comenta Doria.<br \/>\n\u201c\u00c9 o resultado da busca que todo fascismo tem pela vis\u00e3o idealizada do que \u00e9 o seu povo.\u201d<br \/>\n\u201cEle, assim, se consolidou na AIB e foi adotado por Get\u00falio [Vargas] porque fazia sentido de acordo com essa vis\u00e3o\u201d, acrescenta.<br \/>\nEmiss\u00e1rio de Jesus<br \/>\nA f\u00e1bula do Vov\u00f4 \u00cdndio foi sacramentada pela lavra do jornalista Christovam de Camargo \u2014 que era amigo de M\u00e1rio de Andrade e, ao que se sabe, n\u00e3o tinha nenhuma liga\u00e7\u00e3o com os integralistas. Ele publicou o conto em livro em 1932 e, depois, no jornal Correio da Manh\u00e3, no Natal de 1934.<br \/>\nNa hist\u00f3ria de Camargo, Vov\u00f3 \u00cdndio era um senhor amigo da natureza que trajava penas coloridas e sa\u00eda distribuindo presentes para os brasileiros. Expulso de sua terra pelo homem branco, morreu \u2014 de \u201cpuro desgosto\u201d \u2014 e foi parar l\u00e1 nas portas de S\u00e3o Pedro.<br \/>\nN\u00e3o passou pelo crivo do para\u00edso, no entanto. Como n\u00e3o tinha sido batizado pela Igreja, o porteiro celestial precisou explica que ele n\u00e3o pode ingressar no c\u00e9u.<br \/>\nEnt\u00e3o apareceu Jesus tentando resolver a situa\u00e7\u00e3o. Afirmou que em seu anivers\u00e1rio ele pr\u00f3prio tinha o h\u00e1bito de ir ao Brasil levar mimos para as crian\u00e7as bem-comportadas e que, se Vov\u00f4 \u00cdndio se convertesse, pronto, ele bem que podia se tornar o emiss\u00e1rio dos presentes.<br \/>\nE assim, pela narrativa de Camargo, Vov\u00f4 \u00cdndio se tornou o \u201cbom velhinho\u201d brasileiro.<br \/>\nAn\u00fancio publicado no Jornal O A\u00e7o de 1936<br \/>\nReprodu\u00e7\u00e3o<br \/>\nEssa narrativa assumiu import\u00e2ncia tamb\u00e9m pela mensagem religiosa.<br \/>\nGon\u00e7alves lembra que, afinal, \u201co movimento integralista \u00e9 crist\u00e3o, tem sob lema \u2018Deus, P\u00e1tria e Fam\u00edlia&#8217;\u201d.<br \/>\n\u201cO debate da simbologia natalina realmente presente no integralismo brasileiro n\u00e3o \u00e9 necessariamente o Vov\u00f3 \u00cdndio, mas a valoriza\u00e7\u00e3o do nascimento de Jesus\u201d, argumenta o historiador.<br \/>\nAo mesmo tempo, os integralistas sempre ironizavam a figura do Papai Noel, considerando-a incompat\u00edvel com o Natal de ver\u00e3o brasileiro.<br \/>\n\u201cMas apesar de todas as tentativas, a imagem do Vov\u00f4 \u00cdndio n\u00e3o deu certo, n\u00e3o foi enraizada. Naqueles anos 1930 o Papai Noel j\u00e1 estava com a imagem consolidada no imagin\u00e1rio ocidental\u201d, acredita Gon\u00e7alves.<br \/>\n\u201cO Vov\u00f4 \u00cdndio ficou reservado ao aspecto de uma intelectualidade, da utopia do militante nacionalista em busca de uma alternativa ao capitalismo\u201d, comenta o historiador.<br \/>\n*Este texto foi publicado originalmente em 23 dezembro 2021<\/div>\n<p>Fonte: <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/noticia\/2025\/12\/24\/a-curiosa-origem-do-vovo-indio-personagem-criado-para-substituir-papai-noel-no-brasil.ghtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">G1 Entretenimento<\/a><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Trecho da capa do livro de Christovam de Camargo Reprodu\u00e7\u00e3o Nos anos 1930, uma figura chamava a aten\u00e7\u00e3o em jornais brasileiros no per\u00edodo natalino: o Vov\u00f4 \u00cdndio. 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