{"id":48066,"date":"2026-01-02T12:02:50","date_gmt":"2026-01-02T15:02:50","guid":{"rendered":"https:\/\/www.farcomto.org\/apice-de-belchior-o-album-alucinacao-completa-50-anos-como-a-fotografia-de-passado-que-reflete-angustias-atuais\/"},"modified":"2026-01-02T12:02:50","modified_gmt":"2026-01-02T15:02:50","slug":"apice-de-belchior-o-album-alucinacao-completa-50-anos-como-a-fotografia-de-passado-que-reflete-angustias-atuais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/apice-de-belchior-o-album-alucinacao-completa-50-anos-como-a-fotografia-de-passado-que-reflete-angustias-atuais\/","title":{"rendered":"\u00c1pice de Belchior, o \u00e1lbum \u2018Alucina\u00e7\u00e3o\u2019 completa 50 anos como a fotografia de passado que reflete ang\u00fastias atuais"},"content":{"rendered":"<div>\n<div>\n<br \/>     Capa do \u00e1lbum \u2018Alucina\u00e7\u00e3o\u2019, de Belchior<br \/>\nJanu\u00e1rio Garcia com arte de Nilo de Paula<br \/>\n\u266b  AN\u00c1LISE<br \/>\n\u266c Nada do que Belchior fez antes ou depois do \u00e1lbum \u201cAlucina\u00e7\u00e3o\u201d se tornou mais relevante e significativo do que este disco de 1976 que completa 50 anos em 2026 como a fotografia irretoc\u00e1vel de um passado que reflete ang\u00fastias atuais e serve cada vez mais \u00e0 sede de nostalgia que movimenta a ind\u00fastria de m\u00fasica pop no s\u00e9culo XXI.<br \/>\nCearense, nascido na interiorana cidade de Sobral (CE), Antonio Carlos Belchior (26 de outubro de 1946 \u2013 30 de abril de 2017) comp\u00f4s sozinho as dez m\u00fasicas de \u201cAlucina\u00e7\u00e3o\u201d sob a \u00f3tica reflexiva de um migrante nordestino que buscava al\u00edvio e lugar ao sol no eixo Rio-S\u00e3o Paulo.<br \/>\nH\u00e1 nesse cancioneiro muito da ang\u00fastia e da desilus\u00e3o de um rapaz latino-americano sem dinheiro no bolso que vivia a ressaca moral dos anos 1970. O sonho acabara h\u00e1 seis anos, tendo tido o fim decretado oficialmente em 1970 por John Lennon (1940 \u2013 1980), o Beatle que norteara a ideologia de Belchior.<br \/>\nO \u00e1lbum \u201cAlucina\u00e7\u00e3o\u201d exp\u00f4s os efeitos dessa ressaca. \u201cMinha dor \u00e9 perceber \/ Que apesar de termos feito tudo, tudo \/ Tudo o que fizemos \/ N\u00f3s ainda somos os mesmos \/ E vivemos \/ Como nossos pais\u201d, concluiu o cantor nos versos finais de \u201cComo nossos pais\u201d.<br \/>\n\u201cComo nossos pais\u201d era um dos dois petardos roqueiros disparados na voz de Elis Regina (1945 \u2013 1982) no roteiro de \u201cFalso brilhante\u201d, show que a cantora estreara em novembro de 1975 e que registraria parcialmente em disco (de est\u00fadio) no mesmo ano de 1976 em que Belchior gravou o \u00e1lbum \u201cAlucina\u00e7\u00e3o\u201d com produ\u00e7\u00e3o musical de Marco Mazzola, nome ent\u00e3o em ascens\u00e3o no mercado fonogr\u00e1fico como produtor.<br \/>\nMazzola foi fundamental para a exist\u00eancia deste segundo \u00e1lbum de Belchior, lan\u00e7ado em junho de 1976 pela gravadora Philips com capa que mostrava o cantor em imagem do fot\u00f3grafo Janu\u00e1rio Garcia, enquadrada na arte de Nilo de Paula.<br \/>\nAo ouvir as m\u00fasicas de Belchior em fita cassete na casa de Elis, que selecionava o repert\u00f3rio do show \u201cFalso brilhante\u201d, o jovem produtor ficou maravilhado com o cancioneiro do artista e convenceu a diretoria da gravadora Philips a contratar Belchior, naquela \u00e9poca sem abrigo na ind\u00fastria do disco e j\u00e1 desgarrado do Pessoal do Cear\u00e1, coletivo formado por cantores, compositores e m\u00fasicos que se conheceram nos efervescentes pontos culturais de Fortaleza (CE) no fim da d\u00e9cada de 1960.<br \/>\nBelchior lan\u00e7ara o primeiro \u00e1lbum em 1974, mas o LP \u2013 editado pela gravadora nacional Continental e intitulado \u201cBelchior\u201d \u2013 passou despercebido, ainda que trouxesse m\u00fasicas de peso como \u201cNa hora do almo\u00e7o\u201d (composi\u00e7\u00e3o que apresentara o artista em escala nacional em festival de 1971), \u201cA palo seco\u201d (can\u00e7\u00e3o lan\u00e7ada por Belchior em single de 1973) e a ent\u00e3o in\u00e9dita \u201cTodo sujo de batom\u201d.<br \/>\nVe\u00edculo para a exposi\u00e7\u00e3o do canto torto do artista, cortante como faca e como as letras carregadas de paix\u00e3o e urg\u00eancia, a can\u00e7\u00e3o \u201cA palo seco\u201d reapareceu no \u00e1lbum \u201cAlucina\u00e7\u00e3o\u201d com o atualizado verso \u201c[\u2026] Que esse desespero \u00e9 moda em 76\u201d.<br \/>\nDesencantado invent\u00e1rio das perdas e anseios da gera\u00e7\u00e3o que tentara em v\u00e3o mudar o mundo guerrilheiro da d\u00e9cada de 1960, guiada por Lennon e pelo ideal hippie de paz &amp; amor, o \u00e1lbum \u201cAlucina\u00e7\u00e3o\u201d teve como hit radiof\u00f4nico a can\u00e7\u00e3o \u201cApenas um rapaz latino americano\u201d, esp\u00e9cie de cart\u00e3o de visitas do artista, \u201csem parentes importantes e vindo do interior\u201d, como enfatizava Belchior na letra.<br \/>\nVerso sampleado pelo rapper Emicida no \u00e1lbum \u201cAmarElo\u201d (2019), \u201cAno passado eu morri, mas esse ano eu n\u00e3o morro\u201d faz parte da letra da can\u00e7\u00e3o \u201cSujeito de sorte\u201d e soa hoje, tal qual em 1976, como um brado de resist\u00eancia diante do sistema e das vicissitudes da vida.<br \/>\nCom arranjos do pianista Jos\u00e9 Carlos Bertrami (1946 \u2013 2012), o \u00e1lbum \u201cAlucina\u00e7\u00e3o\u201d se alimentou de rebeldia roqueira, juvenil, mas musicalmente transitou pela MPB e pela can\u00e7\u00e3o folk. As letras verborr\u00e1gicas de Belchior por vezes ecoaram a pros\u00f3dia da m\u00fasica de Bob Dylan, bardo norte-americano que radiografou as fraturas sociais dos Estados Unidos.<br \/>\nJ\u00e1 Belchior apontou as rachaduras na sociedade brasileira, citando m\u00fasicas de Beatles e Dylan em versos de \u201cVelha roupa colorida\u201d, m\u00fasica de vibe roqueira apresentada por Elis no j\u00e1 mencionado show \u201cFalso brilhante\u201d.<br \/>\nNo flash identit\u00e1rio de \u201cFotografia 3\u00d74\u201d, o cantor procurou se igualar \u00e0 massa de migrantes nordestinos que se deslocavam para o Sudeste do Brasil em busca de dias melhores, em rota dificultada pelo preconceito que tenta esmagar e estigmatizar o povo da regi\u00e3o. \u201cEu sou como voc\u00ea que me ouve agora\u201d, reitera o cantor ao fim da can\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u201cUm preto, um pobre, um estudante, uma mulher sozinha \/ Blue jeans e motocicletas, pessoas cinzas normais \/ Garotas dentro da noite, rev\u00f3lver, cheira a cachorro \/ Os humilhados do parque com os seus jornais\u201d enumera e descreve o poeta nos versos da can\u00e7\u00e3o-t\u00edtulo \u201cAlucina\u00e7\u00e3o\u201d, retrato sem retoques da selva das cidades. A balada de alma folk abre o lado B da edi\u00e7\u00e3o original do \u00e1lbum em LP e deixa claro que a alucina\u00e7\u00e3o do poeta \u00e9 suportar o dia-a-dia.<br \/>\nDisco conceitual, \u201cAlucina\u00e7\u00e3o\u201d pode ser entendido, em suma, como um manifesto de insubordina\u00e7\u00e3o do artista aos mandamentos sociais. \u201cE a \u00fanica forma que pode ser norma \/ \u00c9 nenhuma regra ter \/ \u00c9 nunca fazer nada que o mestre mandar \/ Sempre desobedecer \/ Nunca reverenciar\u201d, ordenou o bardo cearense nos versos de \u201cComo o diabo gosta\u201d.<br \/>\nSe for levado em conta que o Brasil de 1976 vivia sob o dom\u00ednio da censura do governo militar do presidente Ernesto Geisel (1907 \u2013 1996), o \u00e1lbum de Belchior soa quase subversivo, ainda que haja ceticismo entranhado em algumas letras. \u201cN\u00e3o cante vit\u00f3ria muito cedo, n\u00e3o \/ Nem leve flores para a cova do inimigo \/ Que as l\u00e1grimas dos jovens \/ S\u00e3o fortes como um segredo \/ Podem fazer renascer um mal antigo\u201d, advertiu Belchior em versos de \u201cN\u00e3o leve flores\u201d.<br \/>\nNa m\u00fasica que arremata o \u00e1lbum, \u201cAntes do fim\u201d, o derradeiro verso sublinha a mensagem de que o desespero era moda em 1976. \u201cViver \u00e9 que grande o perigo\u201d, sentenciou Belchior no fecho de \u201cAlucina\u00e7\u00e3o\u201d, \u00e1lbum que se conserva relevante e atual porque, em qualquer contexto social ou pol\u00edtico dos anos 2020, h\u00e1 perigo na esquina.<\/div>\n<p>Fonte: <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/pop-arte\/musica\/blog\/mauro-ferreira\/post\/2026\/01\/02\/apice-de-belchior-o-album-alucinacao-completa-50-anos-como-a-fotografia-de-passado-que-reflete-angustias-atuais.ghtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">G1 Entretenimento<\/a><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Capa do \u00e1lbum \u2018Alucina\u00e7\u00e3o\u2019, de Belchior Janu\u00e1rio Garcia com arte de Nilo de Paula \u266b AN\u00c1LISE \u266c Nada do que Belchior fez antes ou depois do \u00e1lbum \u201cAlucina\u00e7\u00e3o\u201d se tornou mais relevante e significativo do que este disco de 1976 que completa 50 anos em 2026 como a fotografia irretoc\u00e1vel de um passado que reflete<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":48067,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-48066","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-entretenimento"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/48066","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=48066"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/48066\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/wp-json\/wp\/v2\/media\/48067"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=48066"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=48066"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=48066"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}