{"id":48076,"date":"2026-01-02T18:02:42","date_gmt":"2026-01-02T21:02:42","guid":{"rendered":"https:\/\/www.farcomto.org\/nelson-rodrigues-o-imoral-da-literatura-brasileira-que-era-um-conservador-na-vida-privada\/"},"modified":"2026-01-02T18:02:42","modified_gmt":"2026-01-02T21:02:42","slug":"nelson-rodrigues-o-imoral-da-literatura-brasileira-que-era-um-conservador-na-vida-privada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/nelson-rodrigues-o-imoral-da-literatura-brasileira-que-era-um-conservador-na-vida-privada\/","title":{"rendered":"Nelson Rodrigues: o \u2018imoral\u2019 da literatura brasileira que era um conservador na vida privada"},"content":{"rendered":"<div>\n<div>\n<br \/>     Nelson Rodrigues em foto de 1967; escritor seria \u2018cancelado\u2019 nos dias de hoje?<br \/>\nArquivo Nacional via BBC<br \/>\n\u201cToda unanimidade \u00e9 burra\u201d, sentenciou o escritor, dramaturgo, jornalista \u2014 e grande frasista \u2014 Nelson Rodrigues (1912-1980).<br \/>\nE estas palavras funcionam muito bem quando pensamos que as contradi\u00e7\u00f5es do pr\u00f3prio autor tamb\u00e9m fazem dele uma figura controversa na contemporaneidade.<br \/>\nMorto h\u00e1 45 anos, em 21 de dezembro de 1980, Nelson Rodrigues \u00e9 considerado o mais influente nome da dramaturgia brasileira.<br \/>\nMarcou as artes c\u00eanicas, a literatura e a TV com obras como \u201cVestido de Noiva\u201d, \u201c\u00c1lbum de Fam\u00edlia\u201d, \u201cToda Nudez Ser\u00e1 Castigada\u201d e \u201cAsfalto Selvagem: Engra\u00e7adinha\u201d, \u201cSeus Pecados\u201d e \u201cSeus Amores\u201d.<br \/>\nNa introdu\u00e7\u00e3o de \u201cO Anjo Pornogr\u00e1fico\u201d, robusta biografia que fez sobre Nelson Rodrigues, o jornalista Ruy Castro enfatizou que \u201cmesmo os seus piores inimigos nunca lhe negaram o talento \u2014 e n\u00e3o foram poucos os que o chamaram de g\u00eanio\u201d.<br \/>\n\u201cPara alguns, era um santo; para outros, um canalha; para todos, sempre uma surpresa\u201d, definiu o bi\u00f3grafo.<br \/>\nEm sua obra, retratou sem escr\u00fapulos personagens e situa\u00e7\u00f5es consideradas imorais. Abundavam problemas familiares, sexo, morte, culpa, trai\u00e7\u00e3o \u2014 e toda a sorte de neuroses e obsess\u00f5es.<br \/>\nPara os cr\u00edticos e parte do p\u00fablico, o que ele produzia era obsceno e vulgar.<br \/>\nNa vida privada, Nelson Rodrigues foi mulherengo e traiu companheiras, ao mesmo tempo em que era cat\u00f3lico, conservador e apoiador da ditadura militar.<br \/>\nCrimes passionais<br \/>\nNascido no Recife, em 1912, mudou-se ainda crian\u00e7a para o Rio com os pais.<br \/>\nNa ent\u00e3o capital do pa\u00eds, cresceu e construiu sua carreira \u2014 tornando-se, ali\u00e1s, devotado torcedor do Fluminense.<br \/>\nCome\u00e7ou a escrever aos 13 anos no jornal A Manh\u00e3, publica\u00e7\u00e3o pertencente ao pai.<br \/>\nNo peri\u00f3dico, sua primeira fun\u00e7\u00e3o foi a de rep\u00f3rter policial. Esse repert\u00f3rio de ocorr\u00eancias seria depois terreno f\u00e9rtil para suas cria\u00e7\u00f5es dram\u00e1ticas, tr\u00e1gicas, retratos nus da vida real.<br \/>\nCrimes passionais estavam entre suas predile\u00e7\u00f5es, e rendiam boa repercuss\u00e3o entre os leitores do jornal.<br \/>\nEm 1928, quando seu pai perdeu o controle acion\u00e1rio do jornal e fundou outra publica\u00e7\u00e3o, A Cr\u00edtica, o jovem prod\u00edgio tamb\u00e9m foi para l\u00e1.<br \/>\nO jornal duraria pouco menos de dois anos \u2014 depois de ser noticiada com alarde a separa\u00e7\u00e3o de um casal da alta sociedade carioca, a mulher exposta na mat\u00e9ria foi at\u00e9 a reda\u00e7\u00e3o e atirou contra um dos irm\u00e3os de Rodrigues, que morreria alguns dias depois.<br \/>\nNos anos 1930, Nelson Rodrigues iniciou sua trajet\u00f3ria de cronista esportivo.<br \/>\nInaugurou um jeito novo de relatar as partidas, sobretudo quando um dos times era o seu Fluminense.<br \/>\nEm textos publicados, entre outros, no Jornal dos Sports, lan\u00e7ava m\u00e3o de personagens sabidamente fict\u00edcios como o Gravatinha e o Sobrenatural de Almeida para narrar os acontecimentos futebol\u00edsticos da rodada.<br \/>\nEm 1932, Rodrigues se tornou rep\u00f3rter efetivo do jornal O Globo.<br \/>\nAli, acabaria assumindo o caderno de cultura e assinando cr\u00edticas de \u00f3peras.<br \/>\nTamb\u00e9m editou a se\u00e7\u00e3o juvenil, roteirizou hist\u00f3rias em quadrinhos e atuou como tradutor.<br \/>\nEm 1941, escreveu sua primeira pe\u00e7a, \u201cA Mulher Sem Pecado\u201d.<br \/>\nO prest\u00edgio viria dois anos mais tarde, com \u201cVestido de Noiva\u201d.<br \/>\nO texto era inovador para o teatro da \u00e9poca. Nelson Rodrigues trazia uma hist\u00f3ria em tr\u00eas planos simult\u00e2neos: realidade, mem\u00f3ria e alucina\u00e7\u00e3o.<br \/>\nOutra novidade trazida pela dramaturgia de Rodrigues era a facilidade de incorporar, nos seus textos, g\u00edrias e express\u00f5es coloquiais da \u00e9poca e do cotidiano carioca \u2014 inclusive palavr\u00f5es. Isso conferia um especial realismo \u00e0s suas pe\u00e7as.<br \/>\nPara o escritor e cr\u00edtico liter\u00e1rio Lu\u00eds Augusto Fischer, professor de literatura na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, essa foi uma das frentes em que Nelson Rodrigues \u201crevolucionou\u201d a dramaturgia brasileira.<br \/>\nOutra frente foi a \u201ccoragem de enfrentar tabus, como rela\u00e7\u00f5es incestuosas e altamente dram\u00e1ticas, inclusive no sentido das rela\u00e7\u00f5es de classe no cen\u00e1rio social brasileiro\u201d, aponta.<br \/>\nEm 1945, Rodrigues deixou O Globo para trabalhar nos Di\u00e1rios Associados.<br \/>\nNo grupo do magnata Assis Chateaubriand (1892-1968), ele estreou seu primeiro folhetim, \u201cMeu Destino \u00e9 Pecar\u201d.<br \/>\nNesta obra, nascia um heter\u00f4nimo que se tornaria marca do autor: Suzana Flag, como ele assinava esses textos.<br \/>\nSegundo Ruy Castro conta na biografia de Rodrigues, o escritor \u201cn\u00e3o gostava que soubessem que ele [\u2026] era tamb\u00e9m Suzana Flag\u201d.<br \/>\n\u201cQuase todo o meio jornal\u00edstico sabia, mas n\u00e3o era uma coisa que achassem urgente divulgar\u201d, escreveu Castro. \u201cA massa dos leitores acreditava que Suzana Flag existia [\u2026].\u201d<br \/>\nA personagem-autora ficou t\u00e3o famosa a ponto de certa vez Nelson Rodrigues afirmar que ela escrevia melhor do que ele.<br \/>\nEm 1946, ele publicou \u201cMinha Vida\u201d, \u201cautobiografia\u201d de Flag. A esta altura, os amigos costumavam brincar que era Suzana Flag quem pagava as contas de Rodrigues.<br \/>\nAos poucos, o escritor acabou se cansando de Flag e deixando a autora para tr\u00e1s, conta Castro na biografia.<br \/>\nN\u00e3o houve, aos leitores, um an\u00fancio oficial de que ela era ele \u2014 ou de que ele era ela. Isso foi sendo descoberto de forma gradual.<br \/>\nNo in\u00edcio dos anos 1950 Rodrigues j\u00e1 era um autor de prest\u00edgio e ganhava um bom dinheiro com suas obras.<br \/>\nEnt\u00e3o, migrou para o jornal \u00daltima Hora e ali publicou aquele que seria o seu auge da carreira na imprensa: a s\u00e9rie de contos \u201cA Vida Como Ela \u00c9\u201d.<br \/>\nO ator e dramaturgo Walter Lima Torres Neto, professor na Universidade Federal do Paran\u00e1, destaca que Rodrigues conseguiu viver do que escrevia.<br \/>\n\u201cFoi um escritor profissional que sobreviveu de seu trabalho intelectual, o que fez com que sua produ\u00e7\u00e3o fosse imensa\u201d, aponta Torres Neto.<br \/>\nConservador e mulherengo<br \/>\nNelson Rodrigues era cat\u00f3lico tradicionalista<br \/>\nArquivo Nacional via BBC<br \/>\nNa vida pessoal, Nelson Rodrigues fazia o cl\u00e1ssico papel de homem de fam\u00edlia aproveitador da vida.<br \/>\nCasou-se com a jornalista Elza Bretanha e, com ela, teve seus dois primeiros filhos. Mas era um mulherengo inveterado e vivia se envolvendo com amantes.<br \/>\nAbandonou o casamento e teve outros quatro filhos \u2014 a ca\u00e7ula, fruto de relacionamento extraconjugal com uma mulher casada.<br \/>\n\u201cO amor entre marido e mulher \u00e9 uma grossa bandalheira. \u00c9 degradante que um homem deseje a m\u00e3e de seus pr\u00f3prios filhos\u201d, argumentou Rodrigues em uma cr\u00f4nica.<br \/>\nO escritor se autointitulava reacion\u00e1rio. Apoiou a ditadura militar e elogiava o governo do general Em\u00edlio Garrastazu Medici (1905-1985).<br \/>\nAo mesmo tempo, a censura imposta pelo regime o atingia. Em entrevista realizada em 1978, o pr\u00f3prio autor disse: \u201cTodos os presidentes, inclusive depois de 64, me massacraram. Tive oito pe\u00e7as interditadas. A censura usa um tratamento discriminat\u00f3rio contra mim\u201d.<br \/>\nO pesquisador de literatura brasileira Andr\u00e9 Gomes, professor na Universidade Estadual Paulista, considera que, de fato, Rodrigues era um \u201chomem alinhado ao conservadorismo\u201d.<br \/>\n\u201cH\u00e1 relatos de que s\u00f3 mudou seu posicionamento quando seu filho mostrou ao pai as cicatrizes provenientes da tortura sofrida durante sua pris\u00e3o. Do ponto de vista da sua fic\u00e7\u00e3o, Nelson nunca usou o que ele chama de imoralidade a servi\u00e7o de uma perspectiva mais progressista\u201d, avalia.<br \/>\nO roteirista Nelson Rodrigues Filho foi preso nos anos 1970 por ter sido militante contra o regime.<br \/>\nMas seu pai \u2014 o escritor dizia que \u201ctoda coer\u00eancia \u00e9, no m\u00ednimo, suspeita\u201d \u2014  tamb\u00e9m n\u00e3o era alheio \u00e0s contradi\u00e7\u00f5es da direita.<br \/>\n\u201cComo s\u00e3o parecidos os radicais da esquerda e da direita. Dir\u00e1 algu\u00e9m que as inten\u00e7\u00f5es s\u00e3o dessemelhantes. N\u00e3o. Mil vezes n\u00e3o. Um canalha \u00e9 exatamente igual a outro canalha\u201d, cravou Nelson Rodrigues em cr\u00f4nica.<br \/>\n\u201cNo Brasil, quem n\u00e3o \u00e9 canalha na v\u00e9spera \u00e9 canalha no dia seguinte.\u201d<br \/>\nNelson Rodrigues era tamb\u00e9m cat\u00f3lico tradicionalista, admirador do arcebispo franc\u00eas Marcel Joseph Lefebvre (1905-1991), que chegou a fundar uma sociedade cat\u00f3lica em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0s moderniza\u00e7\u00f5es preconizadas pelo Conc\u00edlio Vaticano 2\u00ba, nos anos 1960.<br \/>\nRodrigues cunhou o apelido de \u201carcebispo vermelho\u201d para o religioso H\u00e9lder C\u00e2mara (1909-1999), um dos fundadores da Confer\u00eancia Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e grande defensor dos direitos humanos.<br \/>\nPara Rodrigues, C\u00e2mara era um fals\u00e1rio, um \u201cex-cat\u00f3lico\u201d.<br \/>\nCancelamento?<br \/>\nEsses elementos fariam de Nelson Rodrigues algu\u00e9m sujeito ao \u201ccancelamento\u201d, em dias de escrut\u00ednio popular instant\u00e2neo como hoje?<br \/>\n\u201cAcho que todos os autores que fazem o tratamento da pr\u00e1tica humana de forma t\u00e3o aberta quanto Nelson fez s\u00e3o sujeitos pass\u00edveis de cancelamento. Ent\u00e3o, sim, ele seria\u201d, sentencia Gomes.<br \/>\n\u201cSeguramente sim, seria cancelado barbaramente\u201d, endossa Fischer. \u201cDe fato, ele foi cancelado em seu tempo, sem redes sociais. Ele se queixava, por exemplo, que era o autor dram\u00e1tico mais censurado, e nunca teve ningu\u00e9m em seu favor.\u201d<br \/>\nO linguista Vicente de Paula da Silva Martins \u2014 que tamb\u00e9m acha que o escritor seria cancelado \u2014 aponta para um ponto sens\u00edvel da obra de Rodrigues.<br \/>\n\u201cO que envelheceu mal em Nelson Rodrigues \u00e9, sem d\u00favida, a vis\u00e3o bem problem\u00e1tica que ele tinha sobre mulheres, sexualidade e algumas outras quest\u00f5es sociais que hoje j\u00e1 n\u00e3o cabem mais\u201d, diz Martins, professor na Universidade Estadual Vale do Acara\u00fa.<br \/>\n\u201cTem coisas que s\u00e3o t\u00e3o ultrapassadas que at\u00e9 nos fazem levantar a sobrancelha.\u201d<br \/>\n\u201cMas o que continua atual \u00e9 a forma como ele desmantela a hipocrisia humana e a fragilidade das conven\u00e7\u00f5es sociais. A luta interna entre desejo e repress\u00e3o, a viol\u00eancia emocional, o jogo de m\u00e1scaras nas rela\u00e7\u00f5es.\u201d<br \/>\n\u201cIsso tudo continua muito presente, e, de certa forma, bem atual. Ele tinha um talento \u00fanico para escancarar o que as pessoas preferem esconder, e, no fim, esse desconforto e essa crueza ainda ressoam em muitas das quest\u00f5es que vivemos hoje\u201d, completa.<br \/>\nEmbora a obra de Rodrigues seja criticada pelo teor machista, para Fischer, ela cont\u00e9m tamb\u00e9m cr\u00edticas \u00e0 \u201cestrutura patriarcal das elites\u201d, servindo para \u201cdecifrar a domina\u00e7\u00e3o machista e a submiss\u00e3o das mulheres\u201d.<br \/>\nO soci\u00f3logo Rog\u00e9rio Baptistini, professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie, tamb\u00e9m aponta para o teor sens\u00edvel e ao mesmo tempo atual da obra de Nelson Rodrigues.<br \/>\n\u201cEnvelheceu mal tudo o que, lido hoje, pode soar como naturaliza\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia ou uso de estere\u00f3tipos; mas o que continua atual \u00e9 o n\u00facleo: a cr\u00edtica \u00e0 hipocrisia, a percep\u00e7\u00e3o de que o moralismo p\u00fablico convive com a degrada\u00e7\u00e3o privada, e a capacidade de transformar a fam\u00edlia idealizada em laborat\u00f3rio de poder, desejo e ressentimento\u201d, assinala Baptistini.<br \/>\nTorres Neto lembra que Rodrigues \u201cgostava do debate p\u00fablico\u201d, n\u00e3o fugindo da \u201cr\u00e9plica\u201d e da \u201ctr\u00e9plica\u201d.<br \/>\nPor isso, o professor acredita que o escritor \u201ccertamente saberia se manter vivo em meio ao debate p\u00fablico com todas as suas ambiguidades e contradi\u00e7\u00f5es de homem e de autor teatral\u201d.<br \/>\nMas \u00e9 preciso ser cuidado para n\u00e3o cair no anacronismo, alerta a teatr\u00f3loga Elen de Medeiros, professora na Universidade Federal de Minas Gerais e autora do livro \u201cFormula\u00e7\u00f5es do Tr\u00e1gico no Teatro de Nelson Rodrigues\u201d.<br \/>\n\u201cNelson Rodrigues, como todo mundo, era um sujeito de seu tempo. Acho perigoso e complicado equiparar os tempos e os modos de vida e de compreens\u00e3o da sociedade, sem cair em armadilhas\u201d, lembra Medeiros.<br \/>\n\u201cA obra rodrigueana est\u00e1 a\u00ed. Ela provavelmente incomoda, talvez \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es mais ainda, porque estamos vivendo tempos de verdades absolutas, de respostas imediatas, coisas a que a dramaturgia rodrigueana se nega a fazer.\u201d<br \/>\nBaptistini concorda: para ele, Rodrigues segue sendo um \u201cautor inc\u00f4modo\u201d justamente pela dificuldade de coloc\u00e1-lo \u201cnos esquemas morais\u201d ou \u201cpol\u00edticos\u201d do presente.<br \/>\n\u201cEle se dizia conservador, mas sua obra \u00e9 uma den\u00fancia implac\u00e1vel da fam\u00edlia patriarcal, do moralismo religioso, da hipocrisia da classe m\u00e9dia e da viol\u00eancia exercida em nome dos \u2018bons costumes&#8217;\u201d, avalia o professor.<br \/>\n\u201cSeu olhar n\u00e3o \u00e9 progressista nem reacion\u00e1rio no sentido contempor\u00e2neo: \u00e9 tr\u00e1gico.\u201d<br \/>\nEntre o moral e o imoral<br \/>\nMontagem de 1947 da pe\u00e7a Vestido de Noiva, com Maria Della Costa encarnando a personagem<br \/>\nArquivo Nacional via BBC<br \/>\nElen de Medeiros traz outro adjetivo \u00fatil para entender Nelson Rodrigues: era um provocador.<br \/>\n\u201c[Ele] Aponta para a contradi\u00e7\u00e3o inerente aos sujeitos, algo que existe em todos n\u00f3s, entre o que est\u00e1 escondido e o que \u00e9 demonstrado\u201d, explica a teatr\u00f3loga, para quem a dramaturgia de Rodrigues foi \u201cprofundamente transgressora\u201d.<br \/>\nO linguista Vicente de Paula da Silva Martins afirma que a dramaturgia de Rodrigues explora o lado sombrio da psique humana, \u201conde o destino das personagens \u00e9 muitas vezes marcado pela inevitabilidade da trag\u00e9dia\u201d.<br \/>\n\u201cAl\u00e9m disso, ele misturou elementos c\u00f4micos e melodram\u00e1ticos, criando uma tens\u00e3o entre o tr\u00e1gico e o absurdo, caracter\u00edstica de seu estilo \u00fanico\u201d, explica Martins.<br \/>\nE o olhar afiado de Rodrigues para os sujeitos mira tamb\u00e9m a sociedade.<br \/>\nPara Baptistini, Nelson Rodrigues exp\u00f5e o desejo, a culpa e a mentira \u201ccomo for\u00e7as estruturantes da vida social brasileira\u201d \u2014 o que faz da obra dele universal.<br \/>\n\u201cPois toda sociedade organiza seus conflitos a partir de recalques, sil\u00eancios e interditos\u201d, explica o soci\u00f3logo.<br \/>\nPor isso, diz Torres Neto, a obra do escritor continua atual.<br \/>\n\u201cTalvez o Brasil que \u00e9 representado nas suas pe\u00e7as tenha envelhecido, por\u00e9m o humano com seus dilemas, afli\u00e7\u00f5es e conflitos continua l\u00e1 para ser reapresentado \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es\u201d, comenta.<br \/>\nMas a suposta imoralidade retratada em sua obra e a moralidade defendida pessoalmente por Rodrigues pode soar confusa para os novos leitores.<br \/>\nEsse paradoxo \u00e9 justamente um dos \u201cingredientes mais importantes\u201d da obra, diz Lu\u00eds Augusto Fischer.<br \/>\n\u201cImoral por ter abordado muitas situa\u00e7\u00f5es de trai\u00e7\u00f5es em casamentos supostamente monog\u00e2micos, assim com por ter trazido para dentro do enredo coisas tidas como inaceit\u00e1veis, como por exemplo em \u2018Os Sete Gatinhos\u2019, em que um pai de fam\u00edlia agencia suas filhas como prostitutas\u201d, aponta Fischer, autor do livro \u201cIntelig\u00eancia com Dor: Nelson Rodrigues Ensa\u00edsta\u201d.<br \/>\n\u201cE moralista porque o fundo \u00e9tico de seus enredos faz, no fundo, uma defesa meio desesperada da pureza, da monogamia, da fantasia do amor \u00fanico para sempre.\u201d<br \/>\nGomes endossa que temas como a homossexualidade, a representa\u00e7\u00e3o feminina e as fantasias sexuais foram usados por Rodrigues \u201ca servi\u00e7o de uma perspectiva que, no fim das contas, era regressiva, moralista e tinha como fim pedag\u00f3gico a ideia de uma sexualidade limpa\u201d.<br \/>\n\u201cNesse sentido, o tem\u00e1rio de Nelson Rodrigues n\u00e3o emula a liberdade. E isso fica claro no tratamento que se d\u00e1 a ele ao longo da obra\u201d, destaca o professor.<br \/>\n\u201cMas enfatiza, ainda que subrepticiamente, a ideia de fam\u00edlia, de sexualidade, de feminilidade ou de masculinidade alinhadas a uma vis\u00e3o conservadora da exist\u00eancia.\u201d<br \/>\nO \u00faltimo domingo<br \/>\nAp\u00f3s uma longa carreira na imprensa e na dramaturgia, Rodrigues ainda teria uma experi\u00eancia interessante na TV.<br \/>\nPouco tempo depois da TV Globo ser fundada, nos anos 1960, ele integraria a bancada do programa Grande Resenha Esportiva Facit, considerado a primeira mesa-redonda sobre futebol da televis\u00e3o brasileira.<br \/>\nEle j\u00e1 era um nome consagrado do jornalismo e da dramaturgia brasileira nos anos 1970. Mas a sa\u00fade estava debilitada \u2014 Rodrigues viveu os \u00faltimobs anos lidando com problemas g\u00e1stricos e card\u00edacos.<br \/>\nAo mesmo tempo, atuava como cronista em O Globo, n\u00e3o raras vezes defendendo o regime militar e criticando a oposi\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u201cA maior desgra\u00e7a da democracia \u00e9 que ela traz \u00e0 tona a for\u00e7a num\u00e9rica dos idiotas, que s\u00e3o a maioria da humanidade\u201d, declarou.<br \/>\nNos \u00faltimos anos de vida, o dramaturgo havia voltado a viver com a primeira mulher, Elza Bretanha.<br \/>\nMas a sa\u00fade dava mostras de que n\u00e3o iria aguentar muito.<br \/>\nE aquele que disse que \u201co s\u00e1bado \u00e9 uma ilus\u00e3o\u201d, morreu em uma manh\u00e3 de domingo, 21 de dezembro de 1980. Do cora\u00e7\u00e3o.<\/div>\n<p>Fonte: <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/pop-arte\/noticia\/2026\/01\/02\/nelson-rodrigues-o-imoral-da-literatura-brasileira-que-era-um-conservador-na-vida-privada.ghtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">G1 Entretenimento<\/a><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nelson Rodrigues em foto de 1967; escritor seria \u2018cancelado\u2019 nos dias de hoje? Arquivo Nacional via BBC \u201cToda unanimidade \u00e9 burra\u201d, sentenciou o escritor, dramaturgo, jornalista \u2014 e grande frasista \u2014 Nelson Rodrigues (1912-1980). E estas palavras funcionam muito bem quando pensamos que as contradi\u00e7\u00f5es do pr\u00f3prio autor tamb\u00e9m fazem dele uma figura controversa na<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":48077,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-48076","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-entretenimento"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/48076","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=48076"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/48076\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/wp-json\/wp\/v2\/media\/48077"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=48076"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=48076"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.selfassessoria.com.br\/oprevidente\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=48076"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}